Gordofobia é o preconceito e discriminação em relação às pessoas gordas. “É uma violência estrutural, ou seja, um sistema que ensina que corpos gordos são errados, feios, doentes ou indesejáveis. Ela se manifesta na forma como somos tratados na rua, consultórios, nos afetos e na cultura”, explica a jornalista e autora do livro “Porca Gorda”, Jessica Balbino.

“É um preconceito sustentado por padrões de beleza restritos, que determinam quais corpos são aceitáveis e quais devem ser corrigidos, escondidos ou eliminados. E isso tem impacto direto na dignidade e na saúde física e emocional das pessoas”, acrescenta.

Para a advogada fundadora do projeto “Gorda na Lei”, Rayane Souza, filmes e séries podem ajudar no combate à gordofobia por meio de narrativas que humanizam pessoas gordas. “Ou seja, que desconstroem o estereótipo de que a pessoa é gorda porque ‘ela quer’, sendo que há circunstâncias multifatoriais”, explica.

“O audiovisual tem um papel muito forte na construção de imaginário. Quando você vê uma pessoa gorda sendo representada com humanidade, profundidade e sem estigmas, isso ajuda a quebrar preconceitos. Também abre espaço pra identificação, tanto de quem é gordo quanto de quem nunca parou pra refletir sobre isso”, pontua a idealizadora de uma feira de roupas plus size, a “Feira Pop Plus”, Flavia Durante.

Alívio cômico

Segundo Souza, a representação do corpo gordo no audiovisual foi historicamente estigmatizada. “É sempre um corpo da comédia, animalizado ou ridicularizado. Isso remete à época escravocrata, quando corpos gordos e negros eram usados como aberrações para o circo”, contextualiza.

“Historicamente, o cinema tratou corpos gordos como caricaturas. A pessoa gorda quase sempre foi a piada, o alívio cômico, o corpo sem desejo ou o problema a ser resolvido. Personagens vistos como preguiçosos, descontrolados ou sem vida afetiva, moldando como a sociedade enxerga pessoas reais”, adverte Balbino.

Flavia Durante, porém, enxerga mudanças nas narrativas sobre pessoas gordas em filmes e séries. “Principalmente nos últimos anos, impulsionadas por debates sociais e pela pressão de movimentos como o body positive e o body neutrality, vemos personagens gordas mais complexas, com vida afetiva, profissional e desejos próprios. Ainda é um movimento tímido e cheio de contradições, mas já existe uma tentativa de sair do estereótipo”, analisa.

“Algumas produções já tensionam esse lugar da vergonha e da invisibilidade. Mas ainda é pouco. Muitas vezes, quando o corpo gordo aparece no centro da narrativa, ele ainda vem acompanhado de sofrimento extremo, como se existir naquele corpo fosse, por si só, uma tragédia. E isso também é uma forma de violência simbólica”, opina Balbino.

Analisando as produções

Para Balbino, o espectador deve assistir a filmes que retratam pessoas gordas com “desconfiança crítica”.

“Perguntar sempre: esse corpo está sendo ridicularizado? Ele tem desejo ou só vergonha? Ele existe além do peso? A câmera acolhe ou expõe?”, ensina.

“Nem toda obra que coloca uma pessoa gorda no centro está livre de gordofobia. Muitas vezes, o discurso ainda é moralizante ou reforça a ideia de que aquele corpo precisa mudar. Também é importante observar quem está contando essa história, se há pessoas gordas envolvidas na criação, roteiro, direção. Isso faz muita diferença”, orienta Durante.

“Ao final, falar de gordofobia é falar de poder: de quem pode existir sem ser questionado; de quem pode desejar e ser desejado; de quem pode ocupar espaço sem pedir desculpa”, conclui Balbino.

Conheça, a seguir cinco filmes e séries que ajudam a sensibilizar e conscientizar sobre gordofobia.

Shrill (2019)

A série acompanha Annie, jornalista que decide mudar sua vida sem mudar seu corpo. A narrativa aborda autoestima, relacionamentos e as pressões sociais sobre mulheres gordas. “Talvez um dos retratos mais honestos sobre existir num corpo gordo com desejo, trabalho e contradições. Porém, há uma personagem secundária, também gorda, lésbica e preta, que fica preterida para valorizar a protagonista branca, algo que precisaria ser revisto”, pondera Balbino.

Dumplin’ (2018)

Willowdean, adolescente confiante, decide participar de um concurso de beleza tradicional como forma de protesto contra padrões estéticos rígidos. “Dialoga com autoestima e padrões de beleza, especialmente na adolescência. Queria ter visto aos 15 e não aos 30 anos”, compartilha Balbino.

O dia que te conheci (2023)

“O filme brasileiro, do André Novais, traz personagens complexos, gordos, em Belo Horizonte, com conflitos que não são somente sobre corpo ou raça. Meu preferido”, recomenda Balbino.

Patti cake$ (2017)

“É interessante por colocar uma personagem fora do padrão como protagonista de uma narrativa de desejo e ambição. A questão do corpo a atravessa, claro, mas não é o foco central do filme”, explica Durante.

This is us (2016-2022)

Narra a história da família Pearson ao longo de várias décadas, conectando o passado de Jack e Rebecca nos anos 1980 com a vida adulta de seus filhos: Kevin, Randall e Kate. Um dos pilares da trama é a jornada de Kate como mulher gorda. “Considero o olhar mais profundo sobre viver com obesidade, principalmente dentro de uma relação”, afirma Souza.

Veja mais:

Gordofobia: reflexões para se livrar da lógica da culpa

Saiba 4 direitos que a pessoa gorda pode reivindicar

Crédito da imagem: Ariel Skelley – Getty Images

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