Os programas de doutorado das pós-graduações de diferentes áreas começaram a abrir suas portas para pessoas trans e travestis no Brasil. As pesquisadoras, porém, ingressam em um sistema acadêmico historicamente estruturado para outros perfis sociais.
Além das exigências acadêmicas comuns à carreira, situações de ridicularização, desvalidação intelectual e sobrecarga de funções são recorrentes, o que afeta a continuidade do trabalho científico e as condições de permanência na universidade.
A seguir, três doutoras trans e travestis de diferentes áreas de conhecimento compartilham suas trajetórias e opinam sobre o que precisa mudar para, nos próximos anos, as universidades serem mais inclusivas com pessoas de diferentes identidades de gênero.

Juh Círico: “A luta é para abrir portas e não ser a única
Juh Círico, 31 anos, é pessoa com deficiência, autista e primeira pessoa trans com doutorado em Contabilidade no Brasil, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2024. Também foi a primeira pessoa trans no pós-doutorado pelo Departamento de Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (USP) em 75 anos da unidade.
“Eu sempre gostei de estudar e, por ser de família pobre, precisei conciliar ambos desde os 14 anos. O encontro com o universo acadêmico ocorreu via projeto de iniciação científica na graduação, e a vontade de seguir a carreira acadêmica cresceu”, relata.
A transição de gênero ocorreria no final do mestrado. “Enfrentei desafios para acessar o doutorado em Contabilidade. Na primeira tentativa, na fase de entrevistas, os docentes riram da minha fala, imitaram meu sotaque do interior e um professor levantou e ameaçou rasgar o meu projeto de tese no meu rosto, dizendo que era ‘blá blá blá’”.
Além das tentativas de ridicularização e invalidação, ela cita a sobrecarga de trabalho.
“Precisava fazer o triplo em comparação às pessoas cisgêneras, sem garantia de reconhecimento. Publiquei artigos científicos em revistas internacionais e, quando havia reconhecimento, esse era fruto de mobilização e cobrança de amigas e docentes aliadas”, compartilha.
Outras situações de transfobia vivenciadas foram tratamento pronominal incorreto, invalidação da identidade de gênero baseada em religião, expulsão do banheiro feminino, capacitismo, ameaças de morte, exclusão de atividades em grupo, ‘piadas’, olhares de julgamento, assédio sexual e moral.
Nesse cenário, ela cogitou abandonar o curso. “Depois, repensei. Honrei as mulheres trans e travestis, lembrando que sou a primeira em todo o espaço que ocupo na minha área. Então, a luta é também para abrir portas e não ser a única”, conta
Atualmente, o sonho de atuar como professora universitária também enfrenta as mesmas barreiras.
“Docentes na minha área são majoritariamente homens cisgêneros brancos e sem deficiência, e os aprovados em concursos refletem esse perfil. Já fui aprovada em dois processos seletivos e não fui chamada para contratação, sendo um deles de vaga imediata”, aponta.
Para mudar esse cenário, Círico defende a ampliação de cotas para pessoas trans para todas as etapas universitárias, ações de conscientização e de permanência.
Além disso, ela criou o “Projeto PhD Trans Brasil”, que divulga as conquistas de pessoas trans e travestis com título de doutorado no Brasil.
Brune Brandão: “Aceitam nossos corpos, não nossa forma de pensar”
Brune Coelho Brandão, 34 anos, foi a primeira mulher trans doutora pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na Pós-Graduação em Psicologia.
“Eu comecei a estudar gênero e sexualidade na graduação, quando transicionei. Assim, pude dar nome aos processos que vivenciava, pensar, refletir e entender essas experiências”, relata.
O mestrado e o doutorado, porém, foram momentos solitários. “Não existiam pessoas trans na universidade e não tive muitos amigos”, conta.
Ela passou a entender a universidade como um espaço ambíguo.
“Por um lado, foi um local em que eu me descobri pessoalmente e profissionalmente. As instituições públicas estão abarcando mais pautas de diversidade, e há mais pessoas trans acessando esses espaços. E a universidade é feita de pessoas”, explica.
“Porém, foi um espaço que me adoeceu porque não foi pensado para mim. O preconceito é sutil. As pessoas eram acolhedoras com meu processo de transição, mas as teorias que eu trabalhava não eram bem-vistas, consideradas menos científicas e menores, por eu ser uma pessoa trans que estudava pessoas trans”, relembra.
“Ou seja, a universidade aceita os nossos corpos, mas não nossas ideias e formas de pensamento. Você pode ser uma pessoa trans, mas não se parecer e pensar como uma, ou trazer os aspectos simbólicos e culturais que rompem normas de gênero”.
Houve períodos em que pensou em desistir. “Fui sabatinada por uma sala inteira de modo muito ruim, sendo que algumas pessoas se desculparam posteriormente, com perguntas que confundiam orientação sexual com identidade de gênero”, relembra.
Atualmente, ela leciona em universidades particulares do interior de Minas Gerais. “Eu me tornei professora universitária por insistência e desejo de fazer essas normas mudarem. O título de doutorado ajudou a garantir respeito a mim e ao meu trabalho”.
Lua Lamberti: “Devido ao pioneirismo, temos que descobrir tudo”
Lua Lamberti de Abreu, 31 anos, é graduada em artes cênicas e foi a primeira mestra e doutora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), na Pós-Graduação em Educação (PPE).
A entrada se deu por incentivo de um professor da graduação. “Eu já estava em transição e havia essa questão de nunca ter havido pessoa trans na minha universidade. Percebi que a pesquisa era algo que gostava de fazer”.
Durante o mestrado, o maior desafio foi o valor pago por uma bolsa de estudos que conquistou, insuficiente para bancar sua subsistência, estudos e responsabilidades decorrentes do mestrado, como participação em congressos.
“Eu não vivenciei transfobia explícita ou dificuldade de acesso”.
Já no doutorado, as coisas se inverteram: houve mais segurança financeira porque ela passou a dar aulas na universidade, mas também situações de desvalidação e de sobrecarga de trabalho.
“Havia dois extremos de professores: os que queriam me chamar para o centro das discussões e outros que não queriam saber a minha opinião. Certa vez, em uma aula, fiz uma crítica com base nos estudos de gênero que foi contraposta pelo professor. Lembro que o questionei: mas, na sua formação, você estudou feminismo, gênero, direitos humanos?”.
Ela relata que começou a se sentir sobrecarregada com as demandas que solicitavam a ela. “Comecei a perceber que o que eu precisava entregar era diferente e maior do que os meus colegas. E tinha a questão de ser a primeira travesti, então, não queria ‘deixar a peteca cair’. O resultado foi um burnout”, relembra.
“Eu percebi que, devido ao lugar do pioneirismo, não temos a quem recorrer e terei que descobrir tudo”, reflete.
Como políticas públicas de apoio, ela cita o respeito ao nome social quando não havia retificado sua identidade e a bolsa de estudos, ainda que insuficiente.
“A universidade pública é transfóbica porque o mundo o é. Apesar dos percalços e de algumas pessoas que serão violentas, ainda é um lugar para se estar”.
Ela defende, porém, maior preparo de docentes e funcionários para acolher pessoas trans.
“Quando lecionava e precisei renovar meu contrato, pediram exames de útero e de gravidez. Há banheiros masculinos só com mictórios, que inviabilizam a presença de transmasculinos”, finaliza.
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Crédito da imagem: arquivo pessoal