A travesti é uma pessoa que foi designada como homem ao nascer, que não se identificou com o gênero que lhe foi atribuído, e passou a vivenciar papéis de gênero feminino. Assim, ela pode se identificar como mulher ou apenas como sendo travesti – escolha que varia de cada pessoa.

“Basicamente, ser travesti é uma forma de habitar o mundo que transgride a ordem binária (homem-mulher)”, explica a doutora em educação e professora na Universidade de Maringá (UEM) Lua Lamberti de Abreu.

“Além disso, é uma identidade transgênero feminina específica do Brasil e da América Latina. Identidade que foi estigmatizada, sendo vinculada à violência, marginalidade e pobreza”, complementa.

A travesti pode se identificar como sendo mulher trans ou não. “Ambas descrevem formas similares de existir: pessoas que foram designadas como homens, não se identificaram com isso, e migraram para o campo do gênero feminino”, descreve Abreu.

Assistente de recursos humanos, Iza Potter explica que, por conta do estigma vinculado à palavra travesti, houve uma preferência pela palavra “mulheres trans”.

“Este último termo trazia uma certa higienização, com muitas meninas achando que as pessoas olhariam para elas de outro modo se não usassem o termo travesti, que não seriam vinculadas à prostituição e seriam melhor aceitas. Porém, quem faz essa diferenciação entre trans e travesti são as pessoas cisgênero. Vejo como a mesma coisa”, reforça.

Outro erro é achar que a travesti é um homem que se traveste de mulher e não uma identidade de gênero, confusão que vem da origem do termo em latim transvestire. Atualmente, a palavra usada para essa situação específica é crossdresser.

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A doutora em educação Lua Lamberti de Abreu (crédito: acervo pessoal)

Ressignificando o termo

Abreu explica que as travestis foram perseguidas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) e marginalizadas durante a epidemia de HIV/AIDS nos anos de 1980 e 1990. “Os agressores as identificavam como travestis de modo pejorativo. Porém, isso ajudou para que uma identidade travesti se consolidasse”, diz Abreu.

Para retirar o estigma vinculado à palavra travesti, elas próprias passaram a utilizar o termo de forma afirmativa. Potter explica que autoidentificar-se como travesti se tornou uma decisão política.

“Houve uma ressignificação do termo. Para mim, por exemplo, travesti é sinônimo de força e resiliência”, compartilha.

Por se declarar travesti, Abreu vivenciou estigmas relacionadas ao termo. “Houve uma situação na universidade na qual a minha orientadora me apresentou como professora travesti e uma colega dela a corrigiu, por que pensava que era um termo feio e que ela estava me diminuindo”, conta.

“A travesti virou sinônimo de violência, rua e prostituição porque foram os lugares em que nós fomos jogadas e obrigadas a estar, mas não somos só isso. Podemos estar em todos os lugares, por isso que a representatividade é importante”, acrescenta a professora, que foi a primeira travesti doutora da sua instituição.

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A assistente de recursos humanos Iza Potter (crédito: acervo pessoal)

Conheça abaixo as 10 principais dúvidas respondidas sobre a identidade travesti.

1) O que é a travesti?

No guia gratuito “Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos”, a doutora em psicologia, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e mulher trans Jaqueline Gomes de Jesus explica que travestis são pessoas que foram designadas como homens e passaram vivenciar papéis de gênero feminino. Elas podem se reconhecer como mulher ou apenas como travestis. Esse reconhecimento varia de cada pessoa e deve ser respeitado.

Na sigla LGBTQIAP+, travesti também está dentro das identidades transgênero por serem pessoas que não se identificaram com o gênero que lhes foi atribuído.

2) Há diferença entre ser travesti e ser mulher trans?

“Ambas descrevem formas similares de existir: pessoas que foram designadas como homens, não se identificaram com isso e migraram para o campo do gênero feminino”, diz Abreu. “A gente nasce designada a um gênero, e conforme o tempo passa a gente se enxerga com aquilo que a gente é”, resume Potter.

Potter lembra, porém, que a palavra travesti sofreu um processo de estigmatização, o que fez muitas pessoas transgênero que estão no campo feminino optarem por escolher o termo “mulher trans”.

“O que vale é a autoidentificação, como cada pessoa quer ser chamada. Eu não me ofendo se me chamam de mulher trans, porque para mim são formas diferentes de dizer a mesma coisa”, completa Abreu.

“Porém, em comum, todas nós sofremos transfobia, independentemente do termo”, afirma Abreu.

3) Travesti é a mulher trans que não fez a operação de redesignação sexual?

“Não é uma regra”, explica Potter, lembrando que há pessoas que se identificam como mulheres trans que não fizeram a cirurgia.

4) Como devo me dirigir a uma travesti?

Sempre no feminino: a travesti. “Se você vê uma figura que não é um homem, que aciona signos da feminilidade, use o feminino”, orienta Potter. Termos pejorativos como “traveco” devem ser abolidos.

5) Qual a origem histórica desse termo e identidade?

O termo travesti vem do latim transvestire, cuja tradução seria “se vestir além”. “É difícil mapear a identidade travesti porque a violência e a perseguição não nos deixavam existir, sendo que muitas se refugiavam na arte transformista”, pontua Abreu. A identidade, porém, é tipicamente latino-americana.

6) Quais são os estereótipos comuns associados à identidade de travesti e como eles impactam a vida dessas pessoas?

“O imaginário social sobre a travesti foi moldado por programas policiais e de humor. Somos atreladas a pessoas em condição de rua, encarceradas, à violência, ao tráfico de drogas, ao roubo e à prostituição. Se você pesquisa o termo na internet, as primeiras referências que aparecem são de sites pornográficos”, descreve Abreu.

“Isso gera uma desumanização e faz com que a travesti não seja vista como uma pessoa que deve frequentar determinados lugares, sendo marginalizada”, contextualiza Potter.

“Como resultado, a transfobia expulsa as adolescentes travestis das escolas. Se não podem usar o banheiro adequadamente, se são desrespeitadas e agredidas por colegas e professores, se sofrem violência no caminho de casa para a escola, elas irão abandonar o ensino e não conseguirão adentrar no mercado de trabalho formal”, compartilha Abreu.

“Ao final, isso culmina no dado do Brasil como o país que mais mata pessoas trans no mundo”, acrescenta Potter. Os dados são do relatório anual de 2022 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

7) Qual é a importância do reconhecimento da identidade de travesti?

“Isso humaniza a travesti e faz ela ser vista como alguém que está na sociedade, que necessita de saúde mental, física, empregabilidade, e ter direitos básicos respeitados, como usar um banheiro de acordo com a sua identidade de gênero”, pontua Potter.

8) Qual a diferença entre travesti e crossdresser?

Travesti é uma pessoa trans com identidade de gênero no campo do feminino. Já crossdresser é um homem cisgênero – que se identificou com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento – que se veste ocasionalmente de mulher.

9) Houve avanços em termos de inclusão social da travesti?

Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado avanços nos direitos das pessoas trans e travestis. Dentre eles: a garantia do uso do nome social em instituições públicas e privadas, a inclusão delas nos sistemas de cotas de algumas universidades públicas, a possibilidade de mudança de gênero e nome em documentos sem a necessidade de cirurgia de redesignação sexual, além da criminalização da transfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a LGBTfobia como forma de racismo. Em 2022, Erika Hilton e Duda Salabert foram as primeiras deputadas federais travestis eleitas para o Congresso.

“Eu passei por um processo de transição, no qual eu cresci na rua, e faz quase dois anos que deixei o mercado informal. Foi por meio de algumas políticas públicas e legislações que eu pude sonhar de novo, de ver a possibilidade de ter outra vida”, destaca Potter.

10) Quais os desafios vividos pela pessoa travesti?

“Temos ainda índice de mortalidade enorme e baixa expectativa de vida. Pouco acesso ao ensino formal e expulsão do mercado de trabalho, o que leva à vulnerabilidade social. Profissionais da saúde despreparados para lidar com a fisiologia do corpo travesti, entre outros”, lista Abreu.

“Ainda somos percebidas como marginais e pessoas que não deviam viver em sociedade. Apesar de estarmos em 2024, a gente ainda tem o uso de um banheiro negado”, acrescenta Potter.

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Crédito da imagem: acervo pessoal de Lua Lamberti de Abreu e Iza Potter

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