Ser transgênero ou ‘trans’ significa não se identificar com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento, como masculino ou feminino.

“É quando o sentimento e a percepção que uma pessoa tem sobre si não estão encaixados com o gênero que lhe foi designado”, resume o multiartista transmasculino Dante Olivier, de 27 anos.

Já ser cisgênero é oposto disso: a pessoa que nasceu com pênis se identifica com o gênero masculino atribuído a ela e quem nasceu com vulva se reconhece com o gênero feminino a que foi designado.

Basicamente, entender o que é ser trans exige saber a diferença entre sexo biológico e gênero.

Enquanto o primeiro diz respeito à genitália com a qual uma criança nasce – pênis, vulva ou intersexo –, gênero é uma construção social. Ou seja, refere-se a características, comportamentos, papéis sociais e identidades que uma sociedade atribui a indivíduos baseada em sua percepção de masculinidade e feminilidade.

“É construído um universo em torno do sexo biológico de um bebê, começando com a atribuição de cores – azul para meninos e rosa para meninas. Isso vai definir o que é esperado socialmente de uma pessoa do gênero masculino e do gênero feminino”, acrescenta o tradutor e ator Marun Reis, de 35 anos, que é transmasculino não binário. 

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                                              Marun Reis (crédito: acervo pessoal)

Reconhecendo-se transgênero

“A pessoa não se assume trans, ela se reconhece como. É um processo de revisar seu passado, a forma como foi socializada e suas relações. Essa identidade de gênero, porém, sempre esteve lá com você”, explica a historiadora Teresa Tessaro, 29 anos, que é travesti.

Tessaro era vista como “um menino diferente” pelos pais durante a infância, sendo criada com regras rígidas. Sofreu inúmeras violências e conseguiu expressar sua identidade pelas artes e moda antes de cursar a graduação em história na Universidade de São Paulo (USP).

“Eu compartilhava o alojamento estudantil com um amigo que me chamou um dia para ir em uma festa onde havia outras travestis. Poder vê-las dançando juntas, rindo e vivas me fez perder o meu medo de abandono, retaliação, de não ter mais família e estar sozinha caso transicionasse. Eu entendi nessa experiência onde estava a minha letra, a minha comunidade”, compartilha.

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                                   Teresa Tessaro (crédito: acervo pessoal/divulgação)

História similar a de Olivier, que se reconheceu como trans aos 16 anos, mas somente na faculdade teve espaço e apoio psicológico para a transição.

“Eu saia da casa da minha mãe com uma roupa e me trocava no caminho até a faculdade. Foi um período difícil”, relembra.

Reis foi socializado como mulher quando, trabalhando como tradutor, teve contato com o tema de gênero fluido e não binariedade.

“Até então, eu achava que ser trans era estar no corpo errado, mas eu não odiava o meu corpo. Porém, tinha uma questão com a minha identidade, sentia-me o oposto da cisgeneridade”, compartilha.

A seguir, elencamos 15 perguntas comuns sobre ser trans respondidas por pessoas que se reconhecem nessa identidade de gênero.

O que é ser transgênero ou ‘trans’?

 “É quando o sentimento e a percepção que uma pessoa tem sobre si não está encaixado com o gênero que lhe foi designado no nascimento”, resume Olivier.

O que é ser cisgênero ou ‘cis’?

É o oposto de transgênero. “O cisgênero  se reconhece com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, ou seja, com as características sociais e culturais que são vinculadas ao que é ser masculino ou feminino”, aponta Tessaro.

O que significa dizer que a letra T é um guarda-chuva?

Significa que ela abrange todas as identidades de pessoas que não se reconhecem com o gênero que lhes foi atribuído, que são inúmeras. Basicamente, a sociedade impõe a binaridade de gênero, com o masculino e o feminino em polos opostos. Porém, há um gradiente entre esses dois extremos: há quem se identifique com um dos polos da binaridade (homens e mulheres trans); quem a recuse (não binários); quem se identifique com ambos os gêneros (gênero fluído); pessoas que estão em diferentes lugares do espectro, como travestis (feminino) e os transmasculinos (masculino), entre outras.

Toda pessoa trans quer parecer cisgênero?

Não, caso das travestis, transmasculinos e demais sujeitos que recusam ou subvertem a binaridade de gênero (não binários).

“Há um higienismo: se você é mulher trans, precisa passar por cirurgias, hormônios e procedimentos para parecer uma mulher cis, enquadrar-se no espectro binário de gênero e ser socialmente aceita. Pessoas que se expressam diferente disso são marginalizadas, caso das travestis”, destaca Tessaro.

“Essa opressão leva a preocupação e controle com a aparência (disforia) para apagar qualquer vestígio que possa ‘remeter’ a algo masculino”, complementa.

Qual a diferença entre ser mulher trans e travesti?

Travesti se refere a pessoas trans que estão no campo feminino da identidade de gênero, porém não necessariamente desejam parecer uma mulher cis. Assim é um termo que escapa ao espectro binário de gênero. “Ela não precisa fazer a cirurgia de resignação sexual ou tomar hormônios para ser uma mulher”, reforça Tessaro.

Além disso, é uma identidade política e afirmativa de um grupo que foi marginalizado, sendo tipicamente latino-americana.

Toda mulher trans passa por cirurgia de redesignação sexual?

Não. “Uma pessoa que se identifica com o gênero feminino não precisa de cirurgia ou hormônio para ser mulher”, explica Tessaro. Caso das travestis, que não buscam aparentar ser uma mulher cisgênero.

O que é ser transmasculino?

‘Ele’ no campo das masculinidades, porém não vê necessidade de se assumir como ‘homem’ ou de parecer um homem cisgênero. É uma identidade política que questiona tanto o machismo quanto a binaridade de gênero.

“Em uma sociedade patriarcal, ‘ser homem’ traz também uma carga de opressão e violência contra outros, machismo que pode ser reproduzido por homens trans”, explica Reis.

Toda mulher trans gosta de homem? Todo homem trans gosta de mulher?

Não. Aqui é necessário entender a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. A primeira é interna e diz respeito a forma como uma pessoa reconhece e expressa o seu gênero. A segunda é externa, ou seja, para quem ela direciona seu desejo e afeto: se ela é homossexual (mesmo gênero), bissexual e pansexual (todos os gêneros), entre outros.

“Da mesma forma que uma pessoa cis pode ser gay, lésbica, bissexual, pansexual etc., o mesmo vale a trans”, resume Olivier, que é bissexual.

De modo ilustrativo, um homem que se relacionava com mulheres e que transicionou para o gênero feminino será uma mulher trans lésbica.

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                                 Dante Olivier (crédito: acervo pessoal/divulgação)

Por que o termo transexual foi substituído por transgênero?

“Como todas as orientações sexuais acabam com o sufixo ‘al’ – homossexual, bissexual, assexual etc. –, o termo transexual, que se referia a uma identidade de gênero, causava muita confusão”, relembra Olivier. Além disso, transgênero é o oposto correspondente a cisgênero, motivo que esse termo foi escolhido para substituir ‘transexual’.

Quando uma pessoa se descobre trans?

“Não há uma regra de idade e ninguém é menos trans porque se reconheceu assim mais velho”, enfatiza Reis.

Além disso, até hoje, mais pessoas se reconheceram transgênero depois de adultas porque havia pouca informação disponível na sociedade quando essas eram jovens.

“Conforme há mais conhecimento, é mais fácil para as pessoas entenderem que a frustação que sentem se dá pelo fato de não serem cisgênero. Por isso, vemos mais gente se reconhecendo trans na infância e adolescência nos dias de hoje”, diz Olivier.

 “Independente de idade, o acompanhamento psicológico é fundamental para lidar com os desafios da transição”, aconselha ele.

Quais termos, expressões ou perguntas devo evitar ao conversar com uma pessoa trans?

“Evite perguntar sobre cirurgia, genitália, se a pessoa já se prostituiu e curiosidade sobre o nome morto, tido erroneamente como ‘nome de verdade’”, lista Tessaro.

“Evita também chamar o nome social de ‘nome de guerra’ ou vincular o transgênero a crimes, como perguntar se ele sabe quem vende drogas ao encontrá-lo em uma festa”, elenca.

Como posso me dirigir a uma pessoa trans?

Na dúvida sobre o gênero da pessoa, pergunte quais são os seus pronomes ou “com qual pronome você gostaria que eu me dirigisse a você?”. Essas duas opções evitam que se coloque gênero na pergunta – por exemplo “como você gostaria de ser ‘tratado’ ou ‘tratada’?”.

“É educado quando a pessoa que está confusa pergunta o pronome”, incentiva Olivier.

O que fazer se eu errar o pronome?

Peça desculpas e siga a conversa normalmente. “Não faça uma cena porque é desconfortável para todos”, orienta Olivier. Além disso, evite errar novamente.

Pessoas não binárias são trans?

Sim, pois também não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer. A diferença é que não se enquadram na binaridade de gênero.

Uma pessoa pode deixar de ser trans e voltar a ser cisgênero?

Sim, mas se deve questionar o motivo. “Geralmente, é por pressão social, familiar, financeira ou religiosa. A pessoa nega quem ela é para não ser abandonada ou para poder trabalhar e sobreviver. Na pandemia, houve relatos de quem necessitou voltar a morar com parentes e foi forçado a destransicionar por isso”, lamenta Tessaro.

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