Gênero fluido é a pessoa que não se reconhece como uma única identidade de gênero, transitando entre várias. Essa fluidez que pode englobar os gêneros masculinos e femininos ou abranger outras manifestações, como não se identificar com gênero algum (agênero).

Além disso, quem é gênero fluido não passa por uma única transição de gênero na vida. “A fluidez é a crença de que o gênero não precisa ser algo fixo ou estável”, resume a pessoa criadora de conteúdo com foco em sexualidade Rum Rabelo, 28 anos.

“A primeira coisa que você vê ao olhar para mim é um homem, ou seja, a minha expressão de gênero é masculina: eu uso barba, cabelo curto etc.”, explica a criadora de conteúdo e estudante de educação física Jemima Junia, 29 anos. “Porém, como eu me sinto por dentro é como mulher. Eu gosto de ser chamada no feminino”, acrescenta.

Desafiando normas

Reconhecer-se como gênero fluido, entretanto, é um processo desafiador. “A identidade esteve comigo desde a infância, porém eu não sabia o nome e a termologia correta. Os conceitos só ficaram claros quando me foram apresentados quando adulta em psicoterapia”, compartilha Rabelo. “Essa falta de visibilidade da bandeira gênero fluido foi um primeiro desafio: você não tem como se identificar com alguma coisa que não sabe que existe. Inclusive, temi me assumir como garoto trans porque não me entendia assim o tempo todo”, acrescenta.

A pessoa criadora de conteúdo com foco em sexualidade Rum Rabelo (crédito: acervo pessoal)

O acesso escasso de informações sobre o tema, seguido de preconceitos dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+, também influenciou o processo de Junia em reconhecer sua identidade. “Ouvia dos meus amigos que eu era apenas um homem trans que não havia se descoberto ainda. Isso me deixava desconfortável. Apesar de não saber exatamente onde me encaixava, eu tinha certeza de que não era homem. Só aos 23 anos conheci o termo gênero fluido e, pela primeira vez, pude sentir quem eu realmente era”, relembra.

Segundo ela, os desafios aumentaram à medida que sua aparência se tornou mais masculinizada. “O termo é desconhecido, e quanto mais distante de um padrão maior é o preconceito. Assim, frequentar banheiros públicos, provadores de loja ou ser eu mesma em um ambiente público comum sempre terá alguma inconveniência”, lamenta Junia.

Situação de preconceito

A vendedora Thayná Lemos “Ramona”, 22 anos, relata vivenciar situações de preconceito quando se expressa por meio de roupas agêneros ou masculinas. “Algumas pessoas já falam que eu era bizarra. Eu não costumo dar importância, mas a sensação é desagradável”, confessa.

Junia relata sofrer ataques dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+. “É recorrente homens trans e lésbicas pontuarem que eu desmereço a luta deles por ter uma aparência predominantemente masculina, com controle de hormônios, e ainda assim dizer que me identifico como mulher”, explica.

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A criadora de conteúdo e estudante de educação física Jemima Junia (crédito: acervo pessoal)

Conheça abaixo 11 dúvidas comuns sobre o que é ser gênero fluido respondidas por quem se reconhece nessa identidade.

1) O que é gênero fluido?

“São aquelas pessoas que não se identificam com uma identidade de gênero, fluindo entre várias. Existem muitas formas de uma pessoa gênero se expressar”, resume Junia.

2) O que significa o termo “fluidez” nessa identidade?

“É uma mudança, oscilação e liberdade. É a crença de que o gênero não precisa ser algo fixo ou estável”, explica Rabelo.

“Significa que a pessoa não precisa se limitar a uma única expressão de gênero: ela pode transitar entre outras como e quando quiser. No meu caso, identifico-me como como mulher e gosto de me expressar esteticamente de forma masculina”, diz Junia.

3) A pessoa gênero fluido pode mudar de identidade de gênero mais de uma vez na vida?

Sim. “Ela não tem limite mínimo ou máximo de fluidez, podendo fluir várias vezes no dia ou passar anos sem fluir. Isso não diminui ou invalida a sua identidade como gênero fluido”, assinala Rabelo.

“Ela pode fluir inclusive em curtos períodos: sentir-se feminina em um dia e querer uma estética masculina em outro”, ensina Junia.

4) Essa fluidez está restrita ao binarismo (homem-mulher)?

Não. A pessoa gênero fluido pode se identificar com ambos os gêneros ou também com gênero algum – agênero.  “Ou seja, pode transitar entre qualquer outra concepção de gênero que ela sentir vontade”, sintetiza Junia.

5) Como a pessoa gênero fluido expressa sua identidade por meio de vestimentas?

“Da forma que se sentir confortável, a fluidez do termo proporciona liberdade para se expressar como quiser, e isso inclui a forma de se vestir”, afirma Junia.

“Há pessoas gênero fluido que, quando estão no gênero feminino, usam maquiagem e vestidos, e outras que não. Ou seja, o gênero fluido não reforça os estereótipos de gênero, mas abre portas para essa desconstrução entre o parecer e o ser”, enfatiza Rabelo.

É o caso de Junia. “Eu particularmente não me sinto confortável em usar um vestido com salto alto, por exemplo, ainda que me sinta mulher. Mas amo a cor rosa”, explica.

Rabelo, porém, alerta que a fluidez de gênero não é algo estético. “Essa questão é delicada porque, quando falamos de gênero, não estamos nos referindo a sessões de roupa feminina e masculina das lojas. É algo subjetivo e individual”, ressalta.

6) Como devo tratar uma pessoa gênero fluido em termos de pronome?

“O ideal é sempre perguntar para as pessoas como elas preferem ser tratadas. Caso não tenha essa oportunidade, use pronome neutro”, orienta Rabelo.

“Isso depende exclusivamente da vontade da pessoa, não tem como premeditar apenas pelo que ela parece ser”, alerta Junia.

7) A pessoa gênero fluido está dentro da sigla T – transgênero?

Sim. Transgênero é quem não se identifica com o gênero atribuído no nascimento. Assim, a sigla T é um guarda-chuva que engloba os não-binários (N), na qual está a pessoa gênero fluido. A diferença é que a pessoa gênero fluido pode não se identificar com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento, identificar-se às vezes, combiná-lo com outras identidades de gênero, entre outras possibilidades.

8) A pessoa gênero fluido está dentro da sigla N – não binários?

Sim, gênero fluido é uma identidade abrigada dentro do termo guarda-chuva não binário. “Ou seja, ela se identifica com a binaridade de gênero – homem e mulher – ou não se limita a ela”, resume Rabelo.

9) Ela está dentro da sigla Q – queer?

Sim. Ser queer é desafiar normas de gênero. “Assim, o gênero fluido pode transitar entre qualquer outra concepção de gênero”, assinala Junia.

10) Qual a orientação sexual de uma pessoa gênero fluido?

Enquanto a identidade de gênero é como a pessoa se identifica – por exemplo, cisgênero, transgênero, queer, não-binário e gênero fluido –, a orientação sexual é pelo que se atrai: heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual, assexuado, bissexual.

Porém, quando há uma fluidez de gênero, é mais difícil definir se a pessoa gênero fluido é homossexual – se atrai pelo mesmo gênero – ou heterossexual – se atrai pelo gênero oposto. “Apenas a própria pessoa pode definir se sente atração pelo gênero masculino, feminino, agênero etc.”, orienta Junia.

11) Como fica o uso do banheiro pela pessoa gênero fluido?

A pessoa gênero fluido costuma escolher o banheiro pelo gênero em que se sinta menos constrangida ou segura. “Em geral, tenho dificuldade em utilizar banheiros públicos. Utilizo os masculinos não por escolha ou por me sentir confortável, mas porque a tentativa de utilizar o feminino pode gerar constrangimentos: ser barrada na porta, chamarem os seguranças, precisar provar minha identidade por meio de documentos, ser alvo de xingamentos, entre outros”, lamenta Junia.

“Para outras pessoas trans não binárias, o banheiro masculino pode significar assédio e preconceito. Em um mundo ideal, o banheiro seria sem gênero, onde qualquer pessoa pudesse se sentir confortável e seguro ao fazer uso dele”, opina Rabelo.

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Crédito da imagem: acervo pessoal – Rum Rabelo e Jemima Junia

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