As Unidades de Ensino Potencialmente Significativas (UEPS) são uma sequência de ensino estruturada em 8 etapas que ajuda o professor a proporcionar uma aprendizagem significativa aos alunos. O sistema – que pode ser aplicado em qualquer área de conhecimento — estimula os estudantes a relacionarem seus conhecimentos prévios aos novos conteúdos a serem aprendidos.

“Ao propor uma UEPS, é preciso favorecer esse processo de ‘ancoragem’, oportunizando o reconhecimento das ideias pré-existentes trazidas pelos alunos e articulando-as com o novo conceito que se pretende desenvolver”, resume a doutora em ensino de ciência e tecnologia e professora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Graziela Ferreira de Souza.

UEPS na matemática

Em seu doutorado, Souza desenvolveu um curso de formação sobre o tema a professoras de matemática. Os encontros resultaram na criação de sete UEPS publicadas na sua tese . Os temas das sequências didáticas foram: estudo das tabuadas; divisão; adição e subtração; Sistema Monetário Brasileiro; medida de capacidade; figuras geométricas não-planas (espaciais) e plano cartesiano. Este último, voltado ao 5° ano do ensino fundamental, é compartilhado abaixo.

Passo 1 – Definição do tema de estudo

Geometria – Plano cartesiano: coordenadas cartesianas e representação de deslocamentos no plano cartesiano (12 aulas)

Passo 2 – Levantamento dos conhecimentos prévios

O professor desenhará no quadro uma malha quadriculada reproduzindo a folha de caderno. Em seguida, elaborará um esboço da planta baixa da escola com as contribuições dos alunos sobre os diversos espaços. Neste momento, reforçará os conceitos de direita e esquerda. Após as explanações, os alunos devem observar o espaço da sala de aula e seus objetos. Cada um ilustrará a planta baixa da sala de aula em uma folha de caderno, indicando a direita e esquerda da sua posição em que se encontra no ambiente físico.

Passo 3 – Situação introdutória

Utilização do jogo “Batalha do Xadrez”. Cada aluno receberá um tabuleiro de xadrez com 16 peças, distribuídas horizontalmente e verticalmente. Cada casa do tabuleiro é indicada por uma letra e número. Cada jogador, por vez, faz um lance no qual diz uma casa do tabuleiro do oponente (identificado pela letra e número). Se houver uma peça nesta casa, o jogador ganhará a peça do adversário. Vence quem tiver mais peças. “Os alunos devem localizar as peças do jogo utilizando termos como direita, esquerda, paralelas e perpendiculares”.

Passo 4 – Apresentação do novo conhecimento

O professor poderá apresentar um mapa do Brasil quadriculado. Por meio da sua observação, pode questionar a classe: identifique o estado de Goiás; qual o nome do estado que está localizado no B1? “O objetivo é compreender o que é o plano cartesiano, conceitos de locomoção e localização de pontos no plano cartesiano, utilizando-se de um esquema e coordenadas por meio de uma sequência de atividades com um mapa”, resume.

Passo 5 – Avançar na complexidade do tema

Discutir conceitos de plano cartesiano, que são registrados na lousa ou cartaz para ficar exposto. “Deve-se fixar que o conceito de plano cartesiano é um sistema de coordenadas formado por duas retas perpendiculares, chamadas de eixos cartesianos. Esses eixos determinam um único plano, assim, é possível determinar a localização de qualquer objeto formado por pontos que estejam nesse plano”, explica Souza.“Espera-se que o aluno possa descrever e representar a localização ou movimentação de objetos no plano cartesiano, utilizando-se de coordenadas cartesianas, indicando mudanças de direção e de sentido e giros através de linguagem matemática”, conta.

Passo 6 – Diversificação na abordagem do tema

Cada dupla de alunos desenha um croqui da escola, definindo a localização e os elementos. Os croquis são trocados entre os colegas, que são desafiados a localizar algum elemento pré-definido. “Lembre-os de que as coordenadas devem ser baseadas no
posicionamento horizontal e vertical”.

Passo 7 – Avaliação da aprendizagem do aluno

Cada aluno deverá retratar em um papel A4 o croqui da sua casa, apresentando as coordenadas de sentido e direção.

Passo 8 – Avaliação da UEPS

Verificação das experiências aplicadas e se houve indícios de aprendizagem significativa – quando o aluno consegue transpor o que aprendeu para outros contextos.

Leia também: Xadrez no ensino do plano cartesiano

UEPS na física

Em sua dissertação para o mestrado profissional de ensino de física pela Universidade de Brasília (UnB), Rafael Tereso de Jesus criou uma UEPS para a aprendizagem de física de partículas. Para isso, elaborou um jogo de cartas e utilizou slides e vídeos, indicados na sua dissertação. Para avaliação, ele utilizou pré e pós testes. Confira o passo a passo a seguir:

Passo 1 – Definição do tema de estudo

O professor apresentou o tema, física de partículas, e as definições de mapa mental e conceitual. Junto com os alunos, elaborou um mapa mental de eletricidade. Apresentou um pré-teste sobre partículas e solicitou uma aula invertida , com os alunos pesquisando em casa o que foi o Big Bang.

Passo 2 – Levantamento dos conhecimentos prévios

Iniciou-se com a pesquisa dos alunos sobre o Big Bang. Averiguou-se que os alunos consideravam prótons, nêutrons e elétrons como as menores partículas existentes. Apresentou o vídeo ABC da Astronomia – Big Bang.

Passo 3 – Situação introdutória

Apresentou um vídeo sobre aceleradores de partícula e uma apresentação de slides. “Os alunos descobriram que existem partículas ainda menores e que elas interagem entre si”, explica. O professor discutiu com a turma assuntos que eles pensavam ser ficção científica, como antimatéria, buraco negro, expansão do universo e fim do muno.

Passo 4 – Apresentação do novo conhecimento

Professor e alunos debateram sobre modelo padrão, partículas elementares e interações. Foi passado um vídeo sobre partículas elementares e um pôster. Ao final, a classe criou um mapa mental sobre o tema.

Passo 5 – Avançar na complexidade do tema

Na quinta etapa, utilizou-se um jogo de cartas confeccionado pelo pesquisador focando interações fundamentais, família das partículas e modelo padrão. “O objetivo era familiarizar o estudante com as partículas elementares”.

Passo 6 – Diversificação na abordagem do tema

Na sexta etapa, abordou-se o tema quarks e como eles se agrupam para formar hádrons. Também foram listadas as diferenças básicas entre hádrons e léptons e mésons e bárions.

Passo 7 – Avaliação da aprendizagem do aluno

Foi aplicado um segundo jogo de cartas, sobre a constituição de hádrons.

Passo 8 – Avaliação da UEPS

A unidade foi finalizada com um pós-teste. Os resultados foram comparados com o teste inicial. “O aluno que antes do desenvolvimento da UEPS não compreendia a estrutura básica de um átomo, foi apresentado aos quarks, léptons e bósons, bem como a forma como essas partículas interagem, e com isso passou a compreender o Modelo-Padrão da Física de Partículas”, conclui Jesus.

Veja mais:

Materiais didáticos gratuitos ajudam a trazer descobertas do Nobel de Física aos alunos

Animação auxilia professores de física a ensinarem atual modelo atômico

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Por que limite no ICMS sobre a gasolina prejudica escolas?

Especialista explica relação entre preço dos combustíveis e financiamento da educação

Chernobyl: série ajuda a explicar radioatividade e guerra fria no ensino médio

Professores indicam como explorar capítulos em aulas de química, física, história e geografia

Karatê na aula de educação física: como apresentar a arte marcial?

Brincadeiras, cartilhas e videoaulas ajudam professor a estruturar sequência didática

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.