As modalidades olímpicas tênis de mesa, tênis de campo e badminton – jogado com uma espécie de peteca – são mundialmente populares, mas desconhecidas na realidade das escolas públicas. Entre os motivos para que esportes com raquete sejam menos ensinados na educação física escolar estão a falta de materiais e de espaços adequados.

“Além disso, eles são vistos como práticas esportivas elitizadas e há falta de formação e vivência prévia por parte dos professores”, analisa o mestre profissional em educação física Paulinelle de Araújo Figueirêdo.

Contra o problema, Figueirêdo desenvolveu no mestrado “Esportes com raquetes: uma proposta de intervenção na escola pública de tempo integral” (2023) uma oficina para os alunos produzirem as diversas raquetes e bolas com cola, fita, palitos de churrasco, EVA e papelão. Ele disponibilizou uma cartilha online gratuita com o passo a passo para a construção de cada material.

A partir dela, o educador desenvolveu uma sequência didática de dez encontros com secundaristas de uma escola estadual em Juazeiro do Norte (CE), na qual trabalhou sete modalidades: tênis de campo, de mesa, beach tennis (tênis de praia), badminton, frescobol, quimbol – esporte que mistura regras do vôlei, tênis e futebol – e speedball.

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           Alunos produzindo os materiais (crédito: cartilha do prof. Figueirêdo)

“Apresentar os esportes com raquete aos alunos é uma forma de diversificar conteúdos e permitir que os estudantes acessem práticas corporais diversificadas. Assim, ampliam conhecimentos e horizontes”, destaca.

“Todos os sete esportes escolhidos podem ser adaptados às mais diversas realidades escolares e apresentam também peculiaridades. O quimbol é coletivo e genuinamente brasileiro; o frescobol foi igualmente criado no Brasil e necessita de cooperação para a sua prática”, assinala.

Experimentando esportes com raquetes

O primeiro passo da sequência didática de Figueirêdo foi avaliar o conhecimento prévio dos alunos em um questionário fechado que apontou que 53,3% deles nunca haviam praticado tais modalidades. Porém, a maioria conhecia tênis de mesa (92,9%) e tênis de campo (89,3%), sendo frescobol e o tênis de praia os menos citados.

O segundo passo foi criar uma aula de contato experimental com os diferentes tipos de bolas, raquetes e petecas usados nos sete esportes escolhidos, momento em que a turma pôde manusear e testar o material livremente. Este foi seguido da oficina de criação de raquetes e bolas com materiais de baixo custo.

Antes de praticarem cada um dos sete esportes, os alunos foram divididos em grupos para estudarem as modalidades.

As primeiras aulas práticas foram as de speedball e tênis. “Eles possuem características semelhantes no que se refere ao ato de bater com a raquete na bola”, compartilha Figueirêdo.

Entre soluções e adaptações para as aulas, as traves dos esportes coletivos serviram de apoio para as redes de vôlei, que se transformaram em redes de tênis de campo.

“Os estudantes manusearam as raquetes e bolas, parados no lugar, em deslocamento, quicaram a bola na raquete, com a frente e com o verso, alternando entre a mão esquerda e direita e contra o solo, rebateram sobre a rede, entre outros movimentos que se propunham a realizar com seus colegas”, aponta.

Pausa para discutir homofobia no esporte

O segundo bloco de modalidades foi o frescobol e beach tennis, práticas em que houve mais dificuldades de adaptação. Porém, o professor desenvolveu duas atividades: a primeira era um aluno quicar a bola com a raquete enquanto os colegas contavam quantos quiques ele conseguia efetuar; a segunda foi um colega sem raquete lançar a bola para o que estava com a raquete rebater.

“Fomos aumentando a distância, a velocidade da bola, deslocamento, com giros e com mãos trocadas até os alunos começarem a empunhar a raquete, dominando a bola sem deixá-la cair”, relata

O professor ainda menciona que um dos alunos fez um comentário homofóbico sobre o frescobol, que, segundo ele, se tratava de “jogo de fresco”.

“Foi necessária uma pausa [para] problematizar essa fala, discutindo temas como respeito, homofobia no esporte, diferenciar gênero, sexo e orientação sexual”, explica.

A quinta modalidade foi o tênis de mesa, com alunos enfrentando dificuldade em controlar a força ao golpear a bola com a raquete e mantê-la na área da mesa.

“Fizemos jogos sem a raquete, em distância menor e com o objetivo de acertar alvos para favorecer esse controle da bolinha”, detalha.

“Os jogos foram evoluindo, com o aumento da distância da mesa e a quantidade de alvos a serem acertados, bem como a localização desses alvos na mesa iam sendo modificadas, até que as raquetes foram introduzidas nas atividades”, diz.

Além disso, para conseguir uma configuração semelhante ao tênis de mesa, os estudantes juntaram as carteiras das escolas.

As últimas aulas foram usadas para adaptar badminton e dar uma breve introdução sobre o quimbol. No primeiro caso, a leveza da peteca fez os alunos terem dificuldades em trabalhar com a raquete.

“Um dos discentes percebeu que a dificuldade ocorria porque, ao sacar, os estudantes movimentavam os dois braços. Então, foi apresentada a técnica utilizada para o saque do badminton, com a posição para segurar a raquete com as costas das mãos voltadas para frente e a cabeça da raquete para baixo, segurando a peteca na mão oposta com as pontas dos dedos. Ao golpear a peteca não era necessário mover a mão que a segurava”, lembra.

Ao final da sequência didática, foi construído na quadra da escola um circuito para a prática rotativa das sete modalidades.

“Em minha experiência com os esportes com raquetes na escola, encontrei mais surpresas positivas do que dificuldades”, finaliza Figueirêdo.

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