Trazer o balé como conteúdo de dança na aula de educação física proporciona benefícios como o desenvolvimento de coordenação motora, flexibilidade, fortalecimento muscular e melhora da postura. 

“No entanto, os ganhos para os estudantes vão além dos aspectos psicomotores, sendo também culturais. Apresentar o balé ajuda os alunos das redes públicas a conhecerem outros ambientes culturais que, geralmente, lhe são negados”, justifica a mestra em educação física e professora da educação básica, Victória Sanches.

“É uma oportunidade para os alunos terem contato com uma linguagem artística que não é brasileira, que já estava estabelecida e sistematizada há mais de 300 anos quando chegou ao Brasil, no século XIX, durante o período joanino”, complementa a professora do departamento de arte corporal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lais Bernardes.

Trazer esta dança para as aulas de educação física, porém, exige alguns cuidados. Bernardes lembra que o principal deles é não direcionar as atividades a mera reprodução de posturas e técnicas. “É importante entender o balé como uma linguagem artística e trabalhar como um espaço de criação, ludicidade e formação cultural”, complementa. 

Mesma opinião da professora de educação física e pós-graduada em dança e conscientização corporal, Thaissa Adriane Batista Palhão. “No ambiente escolar, o foco principal do balé será a construção do indivíduo em sociedade e consigo mesmo, de modo que o trabalho técnico deve ser apresentado de maneira lúdica, didática e agradável para todos os alunos. Execução e memorização impecável ficam restritos às academias e escolas de dança”, diferencia. 

A seguir, as docentes listam sete ideias que podem estar presentes em uma sequência didática para ensinar o balé em ambiente escolar. Confira!

1) Inicie abordando a história e a origem do balé

O termo “balett” deriva do italiano “balletto”, diminutivo para ballo (dança). Ele surgiu como forma de entretenimento na corte italiana para os seus convidados e consistia em apresentações coreografadas com música e figurinos elaborados. Já o balé como conhecemos hoje começou a se desenvolver na França durante o século XVII. 

“Apesar de parecer refinado e acontecer nos palcos, o balé tem suas raízes nas danças camponesas, representando uma interação entre culturas ao longo do tempo. Essa troca de influências culturais que pode ser destacada com a turma”, recomenda Bernardes. 

“Já no Brasil, o balé chegou com a vinda da corte portuguesa em 1808, quando bailes começaram a ser realizados”, acrescenta.

2) Apresente a história dos grandes balés

São os casos do “Lago dos Cisnes”, que narra a história da princesa Odette transformada em ave por um feiticeiro; e de “O Quebra-Nozes”, no qual a personagem Clara recebe um quebra-nozes mágico como presente e adentra em um mundo encantado.

“Essas histórias envolvendo seres místicos, romances e contos de fadas são atrativas para as crianças”, enfatiza Palhão.

3) Aborde os preconceitos de gênero relacionados à dança

Ainda existe um forte preconceito de gênero em relação ao balé. “Isso é fruto de cultura machista e sexista  que divide binariamente os gêneros e estipula estereótipos para cada um deles. Sendo a menina ‘delicada’, apenas ela pode se expressar artisticamente por meio do balé. Isso nos faz questionar quantos talentos masculinos não são desenvolvidos por preconceito e falta de oportunidade”, questiona Sanches. 

Debater com os  alunos suas percepções em relação aos bailarinos pode ser uma oportunidade para discutir tanto homofobia quanto igualdade de gênero.

Bernardes sugere lembrar que, quando surgiu na corte italiana, o balé era justamente exclusivo aos homens e proibido às mulheres. “As vestimentas eram pesadas e exigia força para conseguir dançar”.

Além disso, o tema pode ser abordado por meio do cinema. No artigo “O balé nas aulas de Educação Física na rede estadual de ensino”, o professor Luiz Alberto dos Santos, da rede municipal de Guarulhos (SP), trabalhou com a turma o filme “Billy Elliot” (classificação etária de 12 anos), que retrata a história de um menino que deseja dançar balé, mas é desencorajado pelo pai.

4) Associe brincadeiras lúdicas ao ensino do balé

Corrida sonora: música e ritmo são importantes no balé. Por isso, Sanches sugere uma corrida onde os alunos mudem o ritmo dos passos conforme a aceleração da música. “Se a música estiver mais lenta, eles podem trotar ou caminhar, e se a música acelerar, eles devem acompanhar o ritmo”, explica. Além disso, podem ser explorados diferentes tipos de pisadas, como caminhar no calcanhar ou na meia ponta. Nesta posição, o bailarino fica apoiado na ponta dos dedos do pé, mas não totalmente elevado.

Circuito para os membros inferiores: antes de apresentar o balé à classe, é fundamental fortalecer os membros inferiores dos alunos. Sanches sugere a realização de um circuito em que, em cada estação, os alunos trabalhem diferentes aspectos dos membros inferiores. “Uma estação pode ser de chutes, em outra fazer a postura do arabesque (posição estendida da perna de trás enquanto o corpo se mantém ereto e equilibrado), entre outros”, completa.

Brincadeira com coros: a cooperação é importante no balé, por isso Bernardes sugere brincadeiras de coros, em que um  aluno efetua uma imagem que será reproduzida pelo grupo. O papel do líder é alternado entre os estudantes. 

5) Apresente noções básicas do balé

“Introduza, flexões, extensões, postura ereta e noções de direção do corpo e do espaço. Alie isso  aos primeiros movimentos técnicos, como plié, tendu, elevé, posições de pés e de braços”, lista Palhão. 

“As chamadas primeiras e segundas posições, por exemplo, trabalham a flexão de joelho, regulação de força e intensidade, além da transferência de peso e equilíbrio do corpo. Além disso, há o movimento dos braços para auxiliar na realização dos exercícios”, diz Sanches. 

Bernardes ainda recomenda aliar pequenos saltos e giros e trabalhar a simetria com os alunos. “As crianças menores adoram as piruetas. Além disso, é importante atividades em que os alunos percebem que, nessa dança, muitos movimentos feitos com um lado do corpo são reproduzidos no outro”, compartilha.  

6) Convide as instituições de balé do entorno para visitarem a escola 

Mesmo que o professor de educação física tenha um conhecimento mínimo de dança, chamar um docente ou escola de balé do bairro para visitar os alunos será uma experiência positiva para todos. “Além de abrir a escola para a comunidade, isso mostra aos estudantes que a arte está viva e não está distante apenas nos grandes teatros. É algo próximo e presente no cotidiano”, justifica Bernardes. “Além disso, as pessoas da comunidade se sentem reconhecidas por seus talentos e também felizes em contribuir com a formação dos alunos”, completa.

7) Promova um projeto interdisciplinar 

Educação física e artes compartilham o conteúdo de dança na educação básica e podem se complementar na hora de ensinar essa linguagem artística. Porém, um projeto interdisciplinar de balé também pode integrar História — abordando conteúdos relacionados ao período renascentista e à chegada da corte portuguesa em 1808 (período joanino); assim como sociologia, para tratar machismo e preconceitos de gênero que aparecem vinculados à dança.

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