Com o isolamento social provocado pela pandemia do coronavírus, mais jovens passaram a se dedicar aos vídeos de dança na plataforma TikTok. Com as dancinhas – como são chamadas pelos adolescentes – viralizando entre seus alunos, as professores de dança Débora Souto Allemand e Larissa Bonfim enxergaram nelas potencial pedagógico e criaram um projeto em conjunto. Enquanto a primeira leciona no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a segunda é docente do  Colégio  de   Aplicação  da   Universidade   Federal   de   Pernambuco   (UFPE).

“Além de rede social, o TikTok é um aplicativo com diversas ferramentas que podem ser utilizadas para criação de vídeos de dança e que podem sugerir possibilidades de movimentação, como os filtros e efeitos”, explica Allemand.

Leia também: Booktok: como usar o fenômeno literário do TikTok para estimular a leitura de alunos?

Segundo as professoras, a ferramenta pode servir para ensinar elementos da dança, aspectos da sua história, relação entre corpo e espaço, e desenvolver habilidades como musicalidade e coordenação motora. Porém, o foco maior é estimular habilidades de criação.

“Foi possível incentivar que os jovens não somente reproduzissem as ‘dancinhas’ que viralizavam, mas criassem as suas próprias. Trabalhamos para que eles reconhecessem suas potencialidades expressivas e criativas”, diferencia Bonfim.

“O encontro entre os mundos da dança, do nosso e dos estudantes provocou criações e recriações a partir do uso de filtros, efeitos e trends. Tudo isso para além da reprodução de movimentos já posta pelo aplicativo”, acrescenta.

Explorando os efeitos

Os videos de dança de pessoas não-profissionais que viralizam no Tik Tok possuem particularidades. “A maioria utiliza apenas a parte superior do corpo de forma blocada e apresenta frontalidade na organização espacial”, compartilha Allemand.

“Os movimentos são em grande parte gestos, ou seja, movimentos de partes isoladas do corpo, como exemplo mais ilustrativo as ‘fingers dances’ (dança de dedos)”, completa.

Confira: Vídeo – Educar por meio da dança traz benefícios aos alunos

No projeto, as docentes ofereciam aos alunos desafios a serem transformados em danças para a plataforma. Em um deles, inspiraram-se em um desafio comum da plataforma, que é elaborar dança a partir de emojis. Elas ofereciam seis opções aos alunos, que tinham que criar um movimento para cada um deles e pensar em uma transição.

“Nossa proposta foi criar outros movimentos para determinados emojis populares e investigar outros incomuns”, revela Bonfim.

Outra atividade foi convidar os alunos a usarem o efeito espelho, mais utilizado na plataforma para vídeos de outras naturezas.

“Isso estimulou a capacidade de improvisação na linguagem artística. A imagem do estudante, duplicada na tela, era uma forma de interação com ‘outro corpo’ em tempos isolamento social”, explica Bonfim.

Os resultados podem ser vistos no vídeo “#Dança para #geraçãotiktok” criados pelos alunos do Colégio de Aplicação da UFPE e disponibilizado no Youtube.

Aplicativo como laboratório

Bonfim e Allemand explicam que a atividade também pode ser realizada offline, uma vez que nem todos os estudantes podem ter acesso a aparelhos de telefonia e internet. No caso de alunos tímidos, também há a possibilidade de deixar os vídeos com visualização restrito no TikTok ou não publicá-los.

O ensino de dança nas aulas de artes pode ainda esbarrar na formação do professor que ministra a disciplina, já que a maioria é graduada em artes visuais. Porém, os docentes ainda assim podem explorar a ferramenta e o conteúdo de dança.

“Não utilizamos essas coreografias com fim nelas mesmas. Enxergamos até mais potência nos filtros e efeitos, pois entendemos que aí está uma possibilidade para a invenção artística. Assim, docentes de artes visuais, música e teatro  possivelmente enxergarão outras possibilidades no aplicativo para inseri-lo em suas aulas”, opina Allmenand.

Bonfim também aconselha os educadores a explorar o aplicativo. Para o projeto, as docentes criaram o perfil @dancap2020 para acessar e analisar o conteúdo produzido na plataforma.

“Colocamos-nos em laboratório, experimentando os recursos do aplicativo e arriscando a criação de nossos próprios vídeos. Esse mergulho nos pareceu fundamental e pode ser importante para educadores que tenham o desejo de propor atividades com a rede social”, aconselha.

No caso delas, a pesquisa em conjunto de efeitos, filtros, trends e conteúdos de dança no aplicativo fez emergir os procedimentos criativos e propostas de atividades.

“Extraídos esses conteúdos e temas, a sequência didática de determinada aula era elaborada de forma a criar caminhos metodológicos. Desde o aquecimento corporal necessário até exercícios para o desenvolvimento da criação”, exemplifica Allemand.

“Sugerimos o gosto pela investigação em dança e a disposição para, ao lado de cada estudante, encontrar os percursos que podem ser trilhados”, finaliza Bonfim.

Veja mais:

Plano de aula – Dança: Gestos e Movimento

 

Plano de aula – Dança

Como quebrar preconceitos contra mulheres nas aulas de educação física

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Série ‘Atypical’ inspira atividades para sensibilizar alunos e professores sobre autismo

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