Booktokers são os criadores de conteúdo que publicam vídeos com resenhas de livros, indicações de leitura e demais conteúdos literários na plataforma de vídeos TikTok. “O nome vem de ‘BookTok’, nome dado ao nicho de criadores e consumidores de conteúdo que falam sobre literatura nessa rede social”, explica a doutoranda em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do tema Natália Huf.

O fenômeno é uma variação dos booktubers, que usam o Youtube para os mesmos fins. “Agora os vídeos são mais curtos, gravados na vertical e usam ferramentas de áudio e edição disponibilizadas no próprio TikTok”, diferencia Huf. O fenômeno pode aproximar a literatura dos jovens, hoje os principais usuários da plataforma. “Mais de 60% têm menos de 30 anos, sendo a maioria entre 14 e 25 anos. Ou seja, muita gente nos ensinos fundamental e médio, período rico para estimular o hábito da leitura”, opina.

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Do booktok à escola

A força dos booktokers tem influenciado o mercado editorial. “Vemos regularmente livros mais comentados na plataforma chegarem ao topo das listas de mais vendidos”, conta o booktoker Tiago Valente (@otiagovalente). “Hoje, livrarias brasileiras e estrangeiras destinam uma prateleira apenas aos ‘livros do TikTok’”, acrescenta Huf.

Tiago Valente
O booktoker Tiago Valente (crédito: acervo pessoal)

A maioria dos livros que viralizam na plataforma são do gênero YA (Young Adult, ou jovem adulto) e nem sempre são recentes. “Em comum, geralmente são obras de fantasia e com representatividade: personagens de diferentes etnias, orientações sexuais etc.”, explica a pesquisadora. Para ela, o próprio funcionamento do TikTok incentiva a disseminação desse conteúdo literário. Diferente de redes como o Instagram — baseada em bolhas de pessoas (como “amigos em comum”), a plataforma privilegia bolhas de conteúdo, isto é, nichos.

“Um criador de vídeos não precisa de muitos seguidores, curtidas ou engajamento alto para aparecer na página inicial do app (a chamada “For You Page”). Assim, alcançam pessoas com os mesmos interesses de forma orgânica”, diz Huf. Para Valente, a escola ganha ao trazer os booktokers para a sala de aula. “Eles são atrativos aos alunos da educação básica por conseguirem falar sobre suas experiências de leitura de um jeito direto, sincero e próximo de quem está assistindo. É como conversar com um amigo”, analisa.“Consequentemente, isso desperta um interesse genuíno pelo livro recomendado e ajuda a construir a leitura como atividade acessível e prazerosa”, reforça o criador de conteúdo.

Opinião semelhante à do professor Noslen Borges de Oliveira ( @professornoslen), que usa o TikTok para ensinar conteúdos de língua portuguesa. “São jovens falando para seus pares sobre literatura, em uma comunicação de igual para igual”, observa. Para a booktoker Rhayssa Rada (@minhaestantecolorida), a vantagem é que muitos dos vídeos são simultaneamente divertidos e educativos:“Recebo diversas mensagens de jovens que começaram a ler depois de uma indicação de leitura. É satisfatório saber que podemos criar novos leitores”.

Rhayssa Rada
A booktoker Rhayssa Rada (crédito: acervo pessoal)

7 atividades possíveis

Noslen recomenda ao professor de educação básica explorar os livros que viralizam no Booktok em aula para, depois, aprofundar os clássicos. “Os alunos podem criar os seus próprios conteúdos para a rede. Cada dupla ou grupo pode fazer um TikTok a partir do capítulo que leu, interpretando personagens”. Huf sugere que os alunos produzam suas próprias resenhas em vídeo de até um minuto. “Podem usar a criatividade e explorar músicas e efeitos de edição”, sugere.

Valente orienta a criação de um vídeo coletivo entre a classe, com leitores de um mesmo livro comparando suas experiências.“Vale ainda reproduzir receitas de pratos citados nos livros lidos; dançar uma música que se relacione com alguma história; listar livros que tenham uma temática ou algum aspecto em comum; apresentar e visitar lugares do ‘mundo real’ que se relacionem com a literatura vista; entre outros”, acrescenta.

Para Valente, essas atividades podem estimular empatia, senso crítico e sensação de pertencimento a uma comunidade. “Ao produzirem vídeos, os alunos também exploram novas formas de transmitir informações além do texto escrito”, opina.

Leia também: 7 dicas para usar a produção de vídeo como recurso didático nas aulas de matemática

Livros para todos

Sobre os livros que ficaram famosos na rede e podem ser explorados pelos professores em aula, Huf indica a série “Corte de Espinhos e Rosas”, de Sarah J. Maas (+16 anos); “Os sete maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid (+ 16 anos); “Última Parada”, “Vermelho, Branco e Sangue Azul” e demais produções de Casey McQuinston (+16) e “A Canção de Aquiles”, Madeline Miller (todos os públicos).

Valente indica “Foi Assim Que Tudo Explodiu”, de Arvin Ahmadi (+16 anos) e “As Vantagens de Ser Invisível”, de Stephen Chbosky, (+14 anos). “Seus protagonistas vivenciam situações e questionamentos que os alunos da mesma idade podem estar enfrentando”, justifica.

Para o ensino fundamental, Rada recomenda “Extraordinário”, de R. J. Palacio. “É uma história edificante, que mostra a perfeição na imperfeição e a gentileza como virtude, resume. “Trata de assuntos como bullying e autoaceitação de forma sensível”, enfatiza Valente.

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