Luisa Geisler tinha 19 anos quando ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2010 por seu livro de estreia, “Contos de Mentira”, também finalista do Prêmio Jabuti. No ano seguinte, conquistou o prêmio de melhor romance do SESC com “Quiçá”. De lá para cá, desenvolveu uma obra que dialoga com adolescentes e jovens adultos.

“A relação do jovem com a literatura é permeada de preconceitos do lado de fora. Há uma ideia de que o ‘jovem só lê porcaria’, mas quem lota Bienal hoje em dia são livros para esse público”, analisa ela que, em 2019, foi uma das vítimas da polarização política. A pedido de um vereador religioso, teve seu livro juvenil “Enfim, capivaras” retirado de escolas municipais de Nova Hartz (RS), assim como cancelada sua participação na Feira do Livro da cidade.

Aos recém-completos 30 anos, ela avalia a relação da leitura com a cidadania, o endurecimento da escrita após a adolescência, o potencial das oficinas criativas contra o problema e sua obra mais recente, “Corpos Secos”.

Instituto Claro: Como você enxerga a relação do jovem com a literatura?

Luisa Geisler: É permeada de preconceitos do lado de fora. Há uma ideia de que o “jovem só lê porcaria” ou coisas assim. Mas quem lota Bienal hoje em dia são livros young adults [jovem adulto, em tradução literal] e conversas com esse público. O adolescente se relaciona mais com literatura do que o adulto, mas muitos adultos — não leitores, diga-se de passagem —desmerecem isso. Quando não acham que é “porcaria”, acham que ler é perda de tempo. Mas acho que é uma relação bastante profunda, de aproximação, aprofundamento e descoberta, que idealmente seria preservada.

Como é possível aproximar esse público da literatura?

Geisler: É claro que se concorre com redes sociais, jogos e tudo o mais. Mas isso acontece em todas as gerações. Já ouvi uma menina de 11 anos dizer que não lê “porque não tem tempo”. Da onde ela ouviu isso? Antes de pensar em aproximar um tipo de público da literatura, deve-se pensar em aproximar todas as pessoas. Quando pensamos em um Brasil com grandes números de analfabetismo funcional, não se pode achar que a culpa é de uma geração.

E qual o papel e a importância da literatura?

Geisler: A literatura nos faz mais humanos, ajuda a entender o lugar do outro. É o antídoto para esse branco e preto que vemos hoje, esse “ou está comigo ou está contra mim”. Essa forma de pensamento é danosa. O pensar rápido, de apenas ler manchete, de nem refletir a quem serve uma frase distribuída no WhatsApp, isso é anti-literatura. Quando lemos, nos tornamos cidadãos de fato.

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Quais os benefícios para os jovens de iniciativas de escrita criativa?

Geisler: Já dei oficinas de escrita para todos os públicos. Na minha experiência, apesar de haver exceções, uma criança altera a história como quiser; o adolescente tem medo de tentar, mas se solta; o adulto demora mais, apoiado na ideia de “escrever certo” e pensando em autores canônicos; o idoso escreve o que acha que eu (Luisa) quero ler, quer acertar. Ou seja, o ponto de endurecimento é na adolescência, quando começamos a temer nos comunicar e nos preocupamos com a forma. Paramos de ver a escrita como veículo de expressão para torná-la veículo avaliativo, pensando em vestibular, concursos, etc. As oficinas mostram que é possível criar, que “certo” e “errado” são relativos. Isso permite escrever sem medo.

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luisa geisler

O que mudou na Luísa escritora de 19 anos para a de 30 anos?

Geisler: A Luisa de 30 leva as coisas menos a sério. A Luisa de 19 tinha um pavor de errar, fazia uma força para provar que tinha lido Guimarães Rosa, que sabia do que estava falando, um medo de que iam descobrir que ela é uma fraude. A Luisa de 30 já é uma fraude pública, continua lendo seu Grande Sertão: Veredas e viu que fica tudo bem.

Sobre o que lhe interessa escrever atualmente?

Geisler: Por mais que mude o contexto, ainda me interesso por pequenos eventos, por detalhes. Se em uma grande catarata, me interessa falar da água que respinga no quati. Não escrevo sobre “grandes temas”, sobre Amor com A maiúsculo. Escrevo sobre o amor de uma mãe por uma filha durante um período de divórcio em que a própria mãe sofre. Coisas complexas, minúsculas e em minúscula.

Como você enxergou o episódio de censura do seu livro “Enfim, Capivaras”, em 2019?

Geisler: Preocupante pelo tão pouco democrático que foi. Um vereador ligou para o prefeito, que cancelou minha participação. Ninguém falou comigo. Ninguém me perguntou se quem sabe haveria material sem palavrão (óbvio que sim). Eu fui impedida de falar com uma cidade inteira, em um evento aberto ao público, porque um vereador achou que seria inadequado que eu falasse com turmas de 9º ano. O preocupante é esse poder todo, esse coronelismo, o fato de que vemos esse fenômeno duas ou três vezes ao ano, com Angélica Freitas, Rubem Fonseca, com Anne Frank e Machado de Assis até.

Do que trata Corpos Secos e quais temas esse livro aborda?

Geisler: É um livro iniciado em 2018, sobre um Brasil tomado por uma pandemia que mata milhares de pessoas e deixa outras num estado como mortos-vivos (os corpos secos). Não há governo ou se há, é extremamente ineficaz e desrespeitado. Um grupo de sobreviventes precisa encontrar um caminho para se reconstruir no meio disso tudo. Dialoga com problemas como o crescimento desenfreado do agronegócio, desregulamentação de agrotóxicos, a importância da informação de uma fonte confiável, o cuidado com os aliados. Ao mesmo tempo, ele é um experimento de criação por ser uma história única escrita com quatro autores: eu, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado. É uma ficção científica e recentemente teve os direitos vendidos para uma adaptação audiovisual.

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