Há 40 anos, o mundo se despedia de Joan Miró (20/04/1893 – 25/12/1983), artista catalão cuja obra foi marcada por linhas sinuosas, figuras estilizadas, símbolos abstratos e cores vibrantes.

“Como Joan Miró teve uma vida longa, ele atravessou o século XX e diversas vanguardas europeias.  Assim, apresentou diversas fases e explorou linguagens e técnicas variadas”, analisa a professora de artes visuais Fabrícia Leal Ricci.

“Ele é considerado surrealista se pensarmos que esse movimento tem como elementos principais uma forma livre e autônoma de expressão em oposição à arte acadêmica e tradicional, além da criação de uma realidade absoluta ou paralela, vinda dos sonhos, do inconsciente, da psicanálise e um pensamento livre. Segundo André Breton [criador do manifesto surrealista], Miró era o mais surreal de todos”, compartilha a professora.

Porém, a partir de 1923, Miró conheceu o poeta e criador do manifesto dadaísta, Tristan Tzara, e também se aproximou dessa escola.

“Era um movimento que ia contra a razão, a lógica e todas as formas tradicionais da arte. Revoltava-se contra a destruição social e física causada pela Primeira Guerra Mundial”, completa Ricci.

“No início do século XIX, em meio a uma explosão de vanguardas europeias, o artista, apesar de ter assinado o manifesto surrealista, sempre norteou sua carreira de forma livre de qualquer técnica ou teoria que o pudesse limitar. Suas obras, por exemplo, têm muito mais características abstratas do que figurativas, em contraponto às de Salvador Dali”, analisa o professor de artes visuais Rogério Contrera Ramos.

A diversidade também marcou as técnicas, materiais e suportes utilizados pelo artista para fazer não somente pinturas e esculturas, mas também cenários de teatro, tapeçaria, gravuras e cerâmicas.

Estudo interdisciplinar

Além das artes, a obra de Miró pode ser relacionada à disciplina de história devido ao contexto em que sua obra foi produzida, conformo explica Ricci.

“Em 1936, houve a guerra civil na Espanha, liderada pelo general Franco e opondo fascistas e os republicanos, apoiados pelos comunistas. Miró era republicano, como muitos da Catalunha, por isso foi obrigado a sair de Barcelona, onde morava na época.  Em 1939, Miró partiu da França fugindo da ascensão do Partido Nazista Alemão.”, conta a professora.

Desse período da Guerra Civil Espanhola, Ricci explica que suas pinturas mostravam personagens com linhas duras e cores pesadas e melancólicas.  Entre elas, merecem destaque “Pintura sobre colagem” (1933) e o mural “O Ceifeiro”, que trazia um agricultor com chapéu catalão segurando uma foice.

“Ela ocupava uma parede inteira no Grande Pavilhão Espanhol, ao lado de Guernica, pintado por Pablo Picasso. Miró também chegou a elaborar um pôster com o título ‘Ajudem a Espanha’, e o dinheiro foi doado para o Movimento Republicano Espanhol”, lembra a docente.

Além de história, as obras de Miró podem ser exploradas em artes em conjunto com matemática. “Elas são ótimos exemplos e referências de como explorar os elementos gráficos como ponto, traços e linhas; além das formas geométricas básicas, como quadrado, triângulo e círculo. Merece também destaque o uso de cores primárias –amarelo, vermelho e azul –, assim como também o contraste entre o branco e preto”, completa Ramos.

Releituras das obras

Em relação às atividades pedagógicas, Ramos sugere trabalhar nos ensinos fundamental I e II atividades relacionadas a elementos gráficos, formas primárias e suas variações, cores primárias e contraste.

“Os alunos podem fazer releituras e até mesmo uma expressão livre dos alunos usando estes conceitos e elementos da arte.  Realize oficinas de desenho colaborativo, de escultura, pintura ou mesmo de grafite”, destaca o professor.

No ensino fundamental II, Ricci sugere trabalhar com projetos integrados com as disciplinas de língua portuguesa e literatura a partir da construção de poemas surrealistas.

“Pode-se sugerir a criação dos poemas a partir da leitura da obra o ‘Carnaval de Arlequim’ (1924- 1925). Peça aos estudantes para criar obras tridimensionais a partir dos estudos dos personagens apresentados na pintura. Para a produção, eles podem usar sucatas, madeiras recortadas, cerâmica fria, tinta e jornal recortado”, indica.

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Crédito da imagem: quadro "Pintura", 1936, de Joan Miró / Fundação Joan Miró, Barcelona. Presente de David Fernández Miró.
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