Pablo Picasso (1881/1973) foi um pintor e escultor espanhol conhecido por ser um dos fundadores do cubismo. Apresentar sua obra aos alunos possibilita um ensino interdisciplinar entre artes e matemática, associando as características dessa corrente artística à aprendizagem da geometria.

Para Jocemar de Quadros Chagas, doutor em matemática e docente da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), elementos básicos da geometria podem ser facilmente identificados no cubismo, como: pontos, segmentos de reta, planos e ângulos, especialmente os retos.

No campo das Artes, o movimento cubista foi uma escola antinaturalista que inovou ao representar na tela plana um mesmo objeto sobre pontos de vista e tempos diferentes. Novidade que foi inaugurada com “As senhoritas d’Avignon” (1907), de Picasso.

Segundo Chagas, o mesmo princípio ocorre na geometria descritiva. “Utilizada no desenho técnico de engenheiros, arquitetos e designers, ela se ocupa em representar objetos tridimensionais em uma figura bidimensional, composta por duas ou mais projeções – normalmente três – de maneira que distâncias, ângulos e demais detalhes possam ser vistos em suas verdadeiras grandezas”, destaca.

“Picasso apresentava pinturas onde era possível observar em uma superfície bidimensional um objeto em um ângulo de 180°, como se estivesse andando em sua volta – o que os críticos da época chamaram de ‘visão simultânea'”, relata o professor de matemática e mestre em educação científica e tecnológica, Gabriel José Gesser, no artigo “Matemática e arte cubista: sobre uma experiência com crianças no ensino fundamental”.

Porém, Gesser explica que Picasso também se preocupou em demonstrar solidez nas telas. “Reduziu, assim, os objetos a formas espaciais como cones, cilindros e esferas, ficando as cores em posição secundária”, complementa.

Observação e representação

O ensino de artes e geometria por meio da obra de Pablo Picasso é indicado especialmente nos anos iniciais do ensino fundamental, mas também pode ser explorado no ensino médio.

“Nesta etapa, é previsto o ensino de geometria espacial e de grandezas e medidas. Ao meu ver, o professor pode abordar os sólidos da geometria espacial com as ferramentas da geometria descritiva”, sugere Chagas. Em todos os casos, é indicado trabalhar com os alunos a observação e a representação dos volumes tridimensionais em uma superfície bidimensional.

No ensino de artes, vale destacar as duas fases do cubismo: a analítica e a sintética. Gesser explica que a primeira foi influenciada por esculturas africanas com suas formas angulares alongadas. Além disso, apresenta pinturas monocromáticas, linhas, formas geométricas, manchas e sombras criando uma produção abstrata na qual os contornos dos objetos se misturam. Já a fase sintética é marcada pela colagem junto à pintura. Picasso utilizava pedaços de jornal, cigarro, papel de parede e tecidos, como visto na tela Guitarra (1913).

Em relação à matemática, Patrícia Cândido, formadora de professores da disciplina e doutora em ensino de arte, recomenda escolher as telas a serem trabalhadas a partir das investigações geométricas já realizadas em classe. Estas devem ser apresentadas sem informações prévias, deixando os alunos observarem e relatarem sentimentos de forma autônoma.

Entre os quadros que podem ser trabalhados Cândido recomenda “As Senhoritas d’Avignon”, na qual os rostos e membros das mulheres aparecem retratados frontalmente e pela lateral. No artigo “A aprendizagem da geometria por meio do estudo do cubismo no 5º ano da educação de jovens e adultos”, a professora Mazonilde Souza também sugere a Fábrica de Horta Del Ebro (1909). 

Já Chagas recomenda “Busto de Mulher com Chapéu com Flores” (1942), pela facilidade da identificação dos fragmentos observados por pontos de vista diferentes e complementa: “há ‘Violão’ (1912), pela pequena quantidade de elementos; ‘Retrato de Ambroise Vollard’ (1910), pela enorme quantidade de segmentos de reta, planos e ângulos usados para criar as camadas; e ‘Guernica’ (1937), por exigir olhares fragmentados e rejuntar as partes observadas por ângulos diferentes”, justifica.

Possíveis atividades 

A partir da observação das obras, Cândido sugere dividir os alunos em grupo  e solicitar que eles experimentem como reproduzir a tela estudada pelos movimentos do corpo. 

Em sequência didática com alunos do 5º ano, Gesser iniciou o processo trazendo uma colagem de fotos dos próprios alunos em uma caixa de papelão.  “As curvas dos corpos das crianças se transformaram em segmentos de reta. Muitos associaram ao Minecraft, jogo em que é possível fazer construções a partir de blocos”, relata.

O professor apresentou as obras “The cock of the liberation” (1944), “Jacqueline assise avec Kaboul II” (1962), “Woman sitting in an armchair” (1940), “Compotier, bouteille et verre” (1922), “Violin Hanging on the Wall” (1913) e “Crane and pitcher” (1945).

Ao final, os alunos fizeram suas próprias representações tridimensionais em telas planas usando a pintura associada à colagem. Segundo o autor, foi possível trabalhar com os alunos dimensionalidade, formas geométricas, simetria,  proporcionalidade e a padrões estéticos. 

Cândido associa o trabalho com a obra de Picasso ao desenvolvimento de habilidades como  observação, descrição e percepção espacial.  “Sensibiliza os alunos a perceberem outras representações geométricas no seu cotidiano; aumenta seu repertório cultural, o vocabulário artístico e matemático; e também torna o ensino de matemática mais significativo e acessível”, elenca. 

Para Chagas, ainda melhora a identificação de formas, ângulos e distâncias, que também aparecem aplicados em artes e ciências.

Entre os cuidados de ensinar usando a obra de Picasso, Candido explica que a arte deve ser apresentada como uma ciência em pé de igualdade à matemática, não como apoio. “São duas áreas importantes no processo criativo do ser humano: a arte traz o sensível e o estético e, a matemática, o lógico. Sua união facilita a aprendizagem de alunos com perfis diferentes”, finaliza. 

Veja mais: 

7 atividades lúdicas para ensinar geometria nos anos iniciais 

A matemática básica das formas geométricas planas – Plano de aula 

A geometria na moda – Portal de Educação do Instituto Claro 

As obras e as características da pintora Tarsila do Amaral

ClaroFrida Kahlo na escola: artista pode ser abordada em artes, sociologia, história e geografia

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