Foi em 2011 que o professor de artes da rede municipal de Santa Cruz do Sul (RS) Ivan Kappaun percebeu nos muros das escolas uma oportunidade de trabalhar pedagogicamente com estudantes do ensino fundamental. A vantagem era que tal projeto poderia ser associado a diferentes conteúdos do currículo. “Um bom início, porém, é consolidar a trajetória do muralismo na história da arte, como um modo do ser humano dar sentido à sua existência”, explica.

Repertório artístico

Segundo ele, a primeira aproximação do tema com os estudantes pode ser realizada por meio da apresentação de pinturas rupestre, egípcias, dos tetos de igrejas e catedrais, do muralismo mexicano, grafites, lambe-lambe e outros. “Vale ressaltar princípios de cor, pintura, composição, proporção e especificidades materiais e técnicas. Isso será necessário para a posterior execução dos desenhos no muro”, compartilha. E quanto maior for o repertório dos estudantes sobre diferentes manifestações artísticas, melhor.

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“Há exemplos diversos de artistas que se valeram da pintura mural para produzir sentidos poéticos. De Michelângelo, Da Vinci e Rafael Sanzio a Diego Rivera, Cândido Portinari , OSGEMEOS, Kobra e Witch”, lista.

“Oferte uma gama de opções aos estudantes e verifique as preferências deles para focar, ali, os estudos”, indica. Vale também buscar artistas locais e convidá-los à escola. “Isso potencializa o processo e traz a percepção de que as artes não estão distantes dos alunos ou encerradas em museus”, justifica.

Experimentações no papel

Após a etapa teórica, iniciam-se as experimentações dos alunos no papel. “O tema dos desenhos deve ser escolhido coletivamente e, ainda que sejam válidas as pesquisas de imagens de referência, é importante valorizar os desenhos produzidos por cada um deles”. Na sequência, a turma pode avaliar coletivamente os desenhos de todos, apontando os elementos mais significativos. “A condição é que exista um desenho de cada estudante. A partir deles, é composto o projeto final que será muralizado”, orienta o professor.

As abordagens podem variar de acordo com a idade média da classe. Kappaun lembra que crianças menores são mais livres para experimentar e errar. “Já os mais velhos entendem conceitos e procedimentos da pintura mural facilmente, mas podem se inibir em compartilhar desenhos por medo de críticas dos colegas”, observa. Por fim, antes de partir para a mão na massa, será necessário repassar os cuidados com os materiais e organizar a dinâmica da pintura com todos.

Tempo é desafio

As poucas aulas semanais de artes fazem com que a falta de tempo seja um desafio no projeto. Para facilitar o processo, Kappaun indica buscar apoio de colegas e da gestão; investir no diálogo e em dinâmicas coletivas com os estudantes. Uma ação encontrada por ele, por exemplo, é dividir a turma em duplas. “Enquanto um estudante desenha ou pinta, o colega oferece suporte disponibilizando material, misturando tintas e limpando pincéis. Após um tempo, eles trocam de função”, explica.

Além disso, escolas públicas podem ter dificuldades de obter materiais como tintas, pincéis, rolinhos e lápis grafite. “Já para as experimentações em aula, papel, lápis ou giz coloridos são suficientes. Claro que a experiência seria potencializada se os alunos também pudessem acessar giz pastel, bico de pena, carvão, guache e aquarela, mas são itens caros”, lamenta o docente. Para viabilizar a atividade, ele busca doações de empresas que trabalham com tintas ou sobras desse material nas casas da comunidade “Evite frustrações garantindo os materiais antes de iniciar o projeto”, alerta.

Biologia nos muros

Geografia, história, ciências e matemática – por meio do cálculo dos materiais usados, formas e proporções dos desenhos – são disciplinas que podem contribuir com a proposta.Em São Paulo, a rede estadual desenvolveu o concurso de desenhos “Muro com Arte”, que associou um tema da biologia – a alimentação saudável – com o ensino do grafite.

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Após aulas teóricas e a produção dos desenhos, uma equipe da secretaria estadual escolheu as produções a serem transpostas aos muros. Os alunos, então, passaram por um workshop com um artista local, que orientou a pintura. “No contato com o grafiteiro, eles entenderam que se tratava de uma profissão que exigia pesquisa e estudos, que não era apenas chegar e pintar”, relata a professora de artes da Escola Estadual Maria da Conceição Moura Branco, de São Caetano do Sul, Patrícia Guilarducci de Lima.

Para a coordenadora da Escola Estadual Yolanda Ascêncio, também de São Caetano do Sul, Clarissa Razante Garcia, uma conquista do projeto foi introduzir o grafite na cultura escolar. “Alunos e gestão estudam, agora, inserir a arte nos banheiros da escola”, afirma. Em Piracicaba (SP), a escola estadual Adolpho Carvalho teve o desenho de um aluno entre os ganhadores do concurso. “Houve um bom engajamento dos estudantes, uma vez que o grafite já está presente em outros projetos que desenvolvemos”, avalia o professor de artes Rodrigo Pereira da Silva.

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Atualizado em 14/01/2022, às 10h30

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