Recomposição de aprendizagens é a articulação de diversas iniciativas para acelerar e reparar a aprendizagem, os impactos da pandemia do coronavírus na educação, marcada pela suspensão das aulas e precariedade do ensino emergencial.

“Eles foram tão acentuados que somente recuperação e reforço escolar seriam insuficientes. Assim, a recomposição de aprendizagens envolve avaliação diagnóstica, acolhimento, readaptação e uso de diferentes metodologias”, resume o professor do curso de pedagogia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ademar Alves dos Santos.

Segundo o professor, o procedimento é disciplinado no Decreto Federal 11.079/22 e também está prevista no artigo 24 da Lei de Diretrizes e Bases Brasileira(LDB, 9.394/96).

 “Abarca estratégias diversas e que vão além da mitigação das perdas de conteúdo, sendo uma política emergencial”, acrescenta.

Diferenças para a recuperação

Para a coordenadora de programas e projetos do Cenpec, Lilian L´Abbate Kelian, a recomposição de aprendizagens objetiva acolher os estudantes, fortalecer os vínculos deles com a escola, melhorar o clima escolar, recuperar aprendizagens, prevenir novas dificuldades e promover um ensino com equidade.

Para isso, busca simultaneamente identificar e reparar conhecimentos prévios fragilizados, assim como ensinar aqueles do ano letivo atual.

A identificação é realizada por avaliação diagnóstica, que ajuda a hierarquizar as habilidades que precisam ser mais desenvolvidas. “Aprendizagens ‘mais importantes’ são aquelas estruturantes para aprendizagens futuras”, diferencia Kelian.

Por todos esses motivos, a recomposição de aprendizagens difere da recuperação. “Esta última supõe trabalhar  com aprendizagens que os estudantes já tiveram contato, o que não aconteceu na pandemia. A recuperação pode ser uma das estratégias de recomposição das aprendizagens, mas não é a única”, diferencia a integrante do Cenpec.

“A principal diferença é que a recomposição objetiva acelerar o processo de ensino e aprendizagem, considerando que há alunos com diferentes níveis de aprendizagens”, completa Santos.

“Ela é um guarda-chuva para diferentes formas de atuar e abarca todos os estudantes das redes públicas, não apenas um grupo circunscrito”, acrescenta a educadora.

Diagnosticar e acompanhar

O diagnóstico de aprendizagem pode ser realizado no início e no meio do processo. “Além de identificar as fragilidades, norteia o trabalho docente e a necessidade de atendimento personalizado”, avalia Santos.

Para isso, também deve considerar dados como evasão escolar. “Ao final, o diagnóstico pode orientar formas de agrupamento dos estudantes para potencializar a aprendizagem, como reunir temporiamente aqueles com dificuldades”, sugere Kelian.

A avaliação diagnóstica deve ser ainda entendida como uma ação processual e de acompanhamento diário dos alunos. “Pode incluir provas, redações, leitura e interpretação de textos, elaboração de questionários, debates, entrevistas com alunos, seminários temáticos e usos de linguagens artísticas”, lista Santos.

O acompanhamento, por sua vez, implica em identificar, registrar e analisar as aprendizagens dos alunos diariamente

“Pode ocorrer por meio de qualquer produção dos estudantes e exige observação e registro de indícios, evidências e hipóteses, assim como uma reflexão permanente sobre eles junto a colegas e coordenação pedagógica”, ressalta Kelian.

“A recomposição traz uma ideia de níveis de aprendizagem. Como um aluno não permanece em um mesmo nível por todo o processo,  o acompanhamento permite perceber o momento oportuno de troca de atividades e realinhamento de ações”, contextualiza a professora da rede municipal de Ibiapina (CE), Gerviz Fernandes de Lima Damasceno.

Acolhimento para todos

Para Santos, muitos são os desafios encontrados no processo de recomposição da aprendizagem, incluindo falta de recursos financeiros e tecnológicos, de preparo docente e de engajamento discente.

“Vimos também problemáticas de saúde mental de professores, e alunos, assim como dificuldade para tornar o aprendizado significativo ao aluno”, compartilha Damasceno.

“Atribui-se pouca importância aos aspectos sociais e emocionais na aprendizagem, que são indissociáveis dos cognitivos. Há dificuldade em diagnosticar dificuldades, falta de instrumentos para um acompanhamento estruturado e poucos espaços de planejamento coletivo e de formação docente”, completa Kelian.

O acolhimento escolar e a criação de espaços seguros e de pertencimento ajuda a mitigar alguns desafios.

“O acolhimento não é somente para alunos, mas para toda a comunidade escolar. É ainda base para uma aprendizagem significativa: compreender que aprendemos em diferentes níveis porque temos diferentes contextos de vida”, opina Damasceno.

Para completar, há formas diversas de criar uma recomposição de aprendizagens, sendo o diagnóstico o orientador das estratégias. A seguir, os educadores listam quinze orientações que podem ajudar nesse processo. Confira!

Como realizara recomposição de aprendizagens em quinze orientações

  • Busca ativa de estudantes que evadiram;
  • Atividades que fortaleçam os vínculos dos estudantes com a escola e entre si;
  • Promoção de um bom clima escolar, com instâncias de mediação de conflitos;
  • Atenção à saúde mental de estudantes e professores;
  • Atenção às desigualdades educacionais, estratégias para promoção da equidade racial e de gênero;
  • Identificação das aprendizagens mais fragilizadas e priorização das mais importantes;
  • Avaliação contínua da aprendizagem e respectivo uso pedagógico de seus resultados;
  • Possíveis agrupamentos temporários de estudantes com as mesmas dificuldades para fortalecer aprendizagens;
  • Diagnosticar o nível de atenção e capacidade de aprendizado dos alunos, feito por meio de relatórios, observação e conversas com eles;
  • Promover espaços de estudo em grupo ou individualmente, por meio da criação de salas de estudo ou bibliotecas;
  • Experimentar diferentes estratégias e metodologias de ensino e de estudo, descobrindo qual funciona melhor para cada aluno. “Mantenha uma atitude de pesquisa sobre as formas como cada estudante aprende e sobre como coletivamente eles se apoiam para criar um ambiente instigante e gostoso”, acrescenta Kelian;
  • Formar os professores para lidar com os desafios que surgirem;
  • Acompanhamento permanente e sistemático dos estudantes, levando em consideração não apenas os aspectos acadêmicos, mas seu desenvolvimento integral;
  • Criar rotinas de meditação ou atividades que incentivem o estado de presença;
  • Estabelecer uma comunicação clara e eficiente com os alunos e suas famílias para garantir o engajamento de todos no processo.

Veja mais:

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