Busca ativa é um termo que engloba diversas estratégias em que professores e gestão se unem para encontrar alunos faltosos, evitando, assim, a evasão escolar. Ações de busca ativa já existiam há anos, mas se tornaram ainda mais importantes com o fim do isolamento social na pandemia da covid-19, quando muitos estudantes perderam o vínculo com a escola.

“A escola retornou em setembro com os alunos divididos em pequenas turmas, para evitar aglomerações. Nesse momento, os professores já usavam grupos de WhatsApp para negociar com os pais as vindas dos jovens e tentavam contatar os responsáveis que não tinham telefone”, revela a professora da rede municipal de Pojuca (BA) Semir Crispim dos Santos.

Em 2017, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), organizaram uma estratégia nacional batizada de Busca Ativa Escolar. “Ela é composta por uma metodologia social e uma ferramenta tecnológica disponibilizadas gratuitamente para estados e municípios. Por meio de uma plataforma, os dados de alunos que estão fora da escola e dos rematriculados podem ser cadastrados, facilitando a gestão desse processo”, explica o presidente da Undime, Luíz Miguel Garcia.

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Iniciativa do município, o programa é gerido pela secretaria de educação, mas com apoio das áreas de assistência social e de saúde. “O que nunca esteve na escola não existe na educação, mas o bem-estar social e a saúde conseguem enxergá-lo, de modo que esse cruzamento de dados é essencial”, justifica Garcia.

A importância do trabalho intersetorial também ocorre pela evasão escolar ser acompanhada por questões sociais, algo visto de perto por Santos. “Há crianças que não vinham à escola por não ter roupas e sapatos adequados e, no caso das meninas, por pobreza menstrual. Há, ainda, as drogas, a gravidez na adolescência e a fome, que também afastam os alunos. É uma demanda grande”, lamenta. “Em algumas situações de abandono e vulnerabilidade das crianças, outros atores precisam ser articulados, como o juizado de menores”, destaca Garcia.

Boca a boca

Professor de física e vice-diretor, Rafael Tereso de Jesus participa da estratégia de Busca Ativa Escolar na rede estadual de Unaí. “Atuo em uma escola de tempo integral que atende a zona rural e que sofreu evasão significativa após a pandemia. Com a busca ativa, os estudantes começaram a retornar”, relata.

No processo, a escola entra em contato com aluno via ligação telefônica e, em alguns casos, com visitas presenciais.“É o vice-diretor, professor ou outro parceiro que fará a abordagem com a família, conscientizando da importância de trazer a criança de volta para a escola”, pontua Garcia.“Se o aluno faltou de segunda à sexta, a gente já inicia a busca. Liga, pergunta por que está faltando, tenta entender o que aconteceu”, descreve Jesus.

Segundo ele, a maior dificuldade é o contato telefônico. “As famílias perdem os números por não terem dinheiro para colocar crédito no celular pré-pago, não informando o novo contado à escola”, diz. Nesse caso, Santos explica que a estratégia é acionar os colegas do aluno faltoso: “É no boca a boca. Perguntamos se alguém sabe onde o jovem mora, que ônibus pega, quem ainda tem contato com ele”.

De acordo com os dois professores, as redes já começaram a colher os frutos do programa. Santos relata o caso de uma aluna que havia abandonado a escola em 2019 e chegou a retornar em fevereiro de 2020 – projeto interrompido pela pandemia. “Não tínhamos o telefone dela, mas uma professora e o vice-diretor conseguiram encontrar a casa onde ela vivia com a mãe e o padrasto. Visitaram a família às 7h30 da manhã para convencer a menina a retornar. Um dos motivos é que ela estava sem uniforme e sapato”, relata.

Já Jesus vivenciou o caso de um aluno que, durante a pandemia, tornou-se usuário de crack. “Com o retorno das aulas e por ser uma escola de tempo integral, ele fica mais protegido. Na última semana, relatou que não estava mais usando entorpecentes”, comemora. Ainda assim, o professor conta a busca ativa ainda não é 100% eficaz. “Às vezes, contatamos o aluno, ele diz que vai pensar na proposta de retornar, voltamos a campo outras vezes para falar com ele até que ele corta o vínculo ou recusa”, lamenta.

Professor é elo

Garcia explica que, para a Busca Ativa Escolar funcionar, o papel do professor em classe é fundamental. “É ele o elo vivo entre escola e aluno. É o elemento humano que consegue enxergar que o aluno está faltando ou que está dando sinais de evadir”, enfatiza. “É o professor que está todos os dias junto ao aluno, que registra as faltas no diário, que tem contato com os demais colegas dele”, acrescenta Santos.

Para ela, é necessário sensibilizar os professores de seu papel social. “Independente do projeto, eu mesma faço a minha própria busca ativa”, ressalta. Jesus enxerga no professor o papel de acolhimento. “É ele que vai receber esse aluno de braços abertos, que vai deixar claro que é bem-vindo e importante na escola. Por isso, não se deve punir o estudante que falta”, orienta.

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Atualizado em 12/08/2022, às 14h32

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