Em 2017, a Escola Estadual Adrião do Vale Nuvens, em Santana do Cariri (CE), viu 79 alunos que estavam no ensino médio desistirem do estudo. No ano seguinte, quando outros jovens começaram a evadir, um grupo de estudantes resolveu tentar reverter o quadro.

“Fizemos rodas de conversa e entrevistas com os colegas que saíram. Percebemos uma grande desmotivação”, conta a aluna Alice Neris, de 17 anos. “Notamos alguns fatores que colaboravam com a desistência, de acordo com o gênero: a gravidez precoce das meninas, e a necessidade de os meninos ajudarem financeiramente em casa. Muitos abandonavam os estudos para trabalhar na lavoura”, explica.

“Além disso, todos ainda apontavam a falta de transporte adequado como um fator que impedia a ida à escola”, complementa.

A jovem e seus amigos criaram, então, um projeto de “células motivadoras” para tentar convencer os colegas desistentes a voltarem aos bancos de estudo, assim como discutir o tema da evasão em todo o colégio.

“A ideia das células já existia, a partir de um trabalho de aprendizagem colaborativa no qual os alunos se dividiam em grupos e ajudavam, uns aos outros, com aquelas matérias em que possuíam mais facilidade. Apenas adaptamos a iniciativa”, revela.

“Cartas quentes”

Entre as ações do grupo, alunos antigos da escola, que conseguiram se formar, foram chamados para contar a sua trajetória. “Eles também passaram pelas mesmas dificuldades, mas conseguiram terminar os estudos. Mostraram que tiveram melhores oportunidades de trabalho do que se tivessem parado antes de finalizar o ensino médio. Deixaram uma mensagem sobre a importância da educação”, analisa.

Outra atividade foi a criação das chamadas “cartas quentes”, enviadas àqueles colegas que já desistiram do estudo, com mensagens motivadoras. Por fim, também houve o acompanhamento dos alunos que estavam beirando o limite das faltas permitidas.

“Se o estudante não frequenta 25% das aulas mais uma, ele reprova automaticamente. Ao todo, o ano letivo possui aproximadamente 251 dias de aula”, afirma Neris.

Os esforços do grupo deram certo. O número de alunos evadidos caiu para 59 em 2019, e 22 até outubro de 2019. “Atribuímos a diminuição ao projeto”, comemora ela. Com a iniciativa, os estudantes foram premiados no Desafio Criativos da Escola 2019, do Instituto Alana.

Sensibilização

Segundo os dados do Censo Escolar 2018, dos 2 milhões de crianças e jovens fora da escola, cerca de 65% são adolescentes entre 15 e 17 anos. Números do movimento Todos pela Educação de 2018, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC), também apontam que quase 4 em cada 10 brasileiros de 19 anos (36,5%) não concluíram o ensino médio em 2018.

Segundo Alice Neris, rodas de conversa ajudam a identificar os fatores que levam à evasão (crédito: Moaci Caitano Freires Junior)

Sendo a evasão escolar nesta etapa um problema que atinge todo o país, os alunos da Escola Estadual Adrião do Vale Nuvens resolveram compartilhar a iniciativa com outros colégios. “Foram cinco palestras em instituições de ensino da região”, descreve a estudante.

Nos encontros, eles compartilham dicas para alunos de outras escolas que desejam se inspirar na iniciativa. “Rodas de conversa ajudam a identificar os principais fatores que levam à evasão dentro da realidade de cada colégio. Também é preciso sensibilidade para se aproximar dos estudantes que abandonam os estudos. Muitos se sentem constrangidos e podem rejeitar uma aproximação em um primeiro momento”, orienta.

Veja mais:
Professores de Contagem visitam alunos contra a evasão escolar
Reforma do Ensino Médio pode piorar evasão nas modalidades técnicas

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