A língua inglesa pode contribuir com a educação em direitos humanos na educação básica.“Digo que eu não ensino o inglês, mas por meio dele. Ou seja, é possível ultrapassar a técnica para discutir questões sociais importantes aos alunos, proporcionando uma aprendizagem significativa”, justifica a mestre em educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Danieli Spagnol Oliveira Correia. Ela é autora da dissertação “Educação em direitos humanos e ensino de língua inglesa: possibilidade da abordagem CLIL”.

Abordagens no fundamental

No 6º ano do ensino fundamental 2, Correia recomenda atividades em que o estudante se identifique como sujeito e reflita sobre pertencimento. “Em que ele narre quem é, de onde vem e seus amigos. Isso traz questões sobre a diversidade na escola e sociedade. Em termos de conteúdo, são explorados vocabulários de descrição e verbos modais”, explica.

Para 8º e 9º anos, explore oralidade e cultura. “Sugiro separar trechos do discurso ‘I have a dream’, do Martin Luther King. Utilizando o presente, os alunos estabelecem orações curtas sobre os sonhos deles e se estes têm impactos sociais”, indica a professora.

O professor de inglês do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ) e doutor em Linguística Aplicada Lesliê Vieira Mulico também trabalha os temas nas aulas de inglês. Dependendo do conhecimento dos alunos, ele propõe aos anos finais do fundamental atividades que associem a leitura de imagens e texto escrito. É o caso da produção de fotomontagens, cartazes e vídeos enfocando pautas como: direito à vida, segurança, educação, liberdade de expressão, igualdade, dentre outros. “Os alunos construirão sentido para além da superfície do texto”, afirma.

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“Pode-se explorar diferentes combinações lexicais e os elementos constituintes da descrição, narração e denúncia, bem como formas de nomeação e adjetivação”, complementa.Ele também indica conteúdos de redes sociais produzidos por agências de direitos humanos, como Anistia Internacional, Organização das Nações Unidas (ONU), Comissão Pastoral da Terra, Decoloniatlas e Antiracist Education.

Aprofundando no ensino médio

As atividades devem entender os adolescentes como protagonistas na produção linguística. Aqui, Mulico também recomenda apresentação pessoal, oral e escrita, agora aprofundadas: “Os alunos emergem como resultado de reflexões a respeito de quem são e seus lugares na sociedade. Abre espaço para discutirmos desigualdades sociais, racismo, a luta pela igualdade de gênero, homofobia etc.”.

Ele também trabalha desigualdades econômicas por meio de gêneros diversificados em inglês, incluindo cartazes de protesto, relatórios, ilustrações, charges, leitura e interpretação de gráficos e trechos do documentário Human the movie, de Yann Arthus-Bertrand, disponível gratuitamente no YouTube .

“Todos apresentam a língua inglesa de forma autêntica e discutem problemas da vida concreta dos estudantes”, defende. Para o professor, falar sobre desigualdade econômica rende debates sobre como países do norte exploraram os do sul global, incluindo pensar a própria língua inglesa como hegemônica. “Implica levar o estudante a refletir sobre os processos de dominação política, cultural e econômica no sul global que fizeram do inglês ‘a língua mais falada no mundo inteiro’. Como diria a intelectual Bell Hooks: ‘é a língua do colonizador, mas preciso dela para falar com você’”, ilustra Mulico.

Em termos de conteúdo, pode-se explorar “used to” e “would”, verbos do passado, discurso direto e indireto. “Para a leitura de gráficos, há vocabulário para descrever progressões de um dado ao longo do tempo, o ‘describing trends”. Para a descrição e interpretação de dados quantitativos, há os comparativos, superlativos, quantificadores, intensificadores e verbos de generalização”, completa.

Em artigo, ele ainda sugere uma atividade com o vídeo da sem-terra assentada Maria Lindalva. “Este fornece pistas de violações de direitos humanos ao longo da própria narrativa”, contextualiza. Outros materiais são as ilustrações do artista polonês Pawel Kuczynsk e o documentário Where to Invade Next, de Michael Moore. “Dá pra discutir direito ao trabalho, à educação, à alimentação digna”, lista.

Cuidados na abordagem

Correia recomenda observação e escuta na hora de decidir com a classe quais temas discutir. A própria turma pode escolher um tema a ser pesquisado. “Entenda quais são mais urgentes para aquele grupo, se é gênero, raça, questões LGBTI+ ou meio ambiente, por exemplo”, sugere.

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Formação e leitura ajudam os professores a não caírem em simplificações sobre a temática e a desconstruírem argumentos de senso comum que aparecerão nos debates.“Observe as implicações políticas presentes no vocabulário. A forma como você nomeia o mundo traz consigo traços ideológicos demarcados. Faz diferença dizer ‘‘slave e the enslaved’ (escravo e escravizado)”, exemplifica Mulico.

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Ele recomenda o mesmo cuidado na escolha dos textos escritos ou de outras linguagens. “Um texto autêntico é aquele que circula na sociedade e contém questões socialmente reconhecíveis ao leitor, convidando-o ao diálogo”, acrescenta. Para completar, é recomendado que o professor esteja aberto ao novo. “Não somos detentores da verdade. Estamos juntos aos estudantes no constante processo de aprendizagem e construção de sentidos dos textos que o mundo nos oferece”, conclui Mulico.

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