O universo do carnaval pode ser trabalhado pelos professores de química da educação básica no ensino de conteúdos curriculares diversos.

“Os foliões utilizam de tinturas para a pele e cabelo, perucas, tecidos sintéticos, esmaltes, perfumes, adereços de diferentes materiais, como papelão, isopor e borracha, além do som de diferentes instrumentos musicais e das sensações de alegria e entusiasmo. Tudo isso é química”, resume o mestre profissional em química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Caldas.

Para o professor da educação básica e pesquisador do Laboratório Didático de Química da UFRJ Yann Xavier, trabalhar a temática em aula é uma forma de humanizar o ensino da disciplina, aproximá-la dos alunos e incentivar a integração entre ciência, tecnologia e sociedade.

“Para completar, é um modo de aplicar a lei 10.639/03 em um contexto de ciências da natureza. Essa legislação obriga o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas, sendo mais relacionada às áreas de humanas”, explica Xavier.

Confira algumas formas de alinhar os temas sobre o universo do carnaval ao conteúdo curricular de química.

Produção de fantasias e carros alegóricos

Estes temas podem ser pontos de partida para trabalhar química orgânica, especialmente a composição de materiais e suas reações químicas.

O interior do barracão de uma escola de samba é dividido em setores, como escultura e pastelação. Neles, há a manipulação de inúmeros produtos: resinas poliméricas, géis, solventes diversos, dióxido de titânio etc. Consequentemente, uma grande variedade de processos químicos ocorre também.

“Por meio desses materiais, é possível destacar com os alunos elementos termoquímicos e cinéticos que ocorrem na polimerização” lembra Xavier.

“Catalizadores é um assunto do segundo ano do ensino médio, enquanto polímeros e química ambiental são abordados no terceiro ano e cai frequentemente no Exame Nacional do Ensino Médio [Enem]”, lembra Xavier.

Já professora Andressa Melo Carneiro utilizou reportagens sobre o incêndio que atingiu o barracão da Viradouro na Cidade do Samba, em 2020, para falar sobre a inflamabilidade dos polímeros.

Como atividade, Caldas sugere usar a tabela periódica com os estudantes. “Pedir a localização e caracterização dos elementos químicos utilizados na síntese das fantasias e dos instrumentos musicais”, recomenda.

Reciclagem e geração de lixo

Em 2023, o Carnaval da Sapucaí entrou no Guinness (Livro dos Recordes) como a maior ação de reciclagem de latas de alumínio do mundo. Xavier explica que a presença dos catadores de latinhas e de plástico no carnaval ajuda a aprofundar temas da química ambiental, como o processo que transforma diferentes metais em alumínio e a sua reciclagem; a geração de lixo e a degradação de diferentes materiais no meio ambiente.

“É possível trabalhar a cinética química, que estuda as velocidades, os mecanismos e os fatores que influenciam na rapidez das reações químicas”, completa Caldas.

“Por exemplo, apontando o tempo de degradação de algumas substâncias químicas usadas no carnaval, incorporando, também, a importância da construção de um pensamento crítico com relação ao descarte adequado das mesmas e a preservação do meio ambiente”, complementa.

Oxidação da corda do cavaquinho

Há elementos metálicos presentes na constituição das cordas do cavaquinho, como aço, bronze, prata e níquel. Na dissertação “A utilização do samba como motivador no ensino de química: a eletroquímica através de uma abordagem interdisciplinar” (2019), Caldas sugere um experimento para discutir a oxidação das cordas desse instrumento musical.

“Elas podem sofrer processos indesejáveis, como a corrosão eletroquímica, um evento espontâneo que envolve a transferência de elétrons entre as espécies e que, quando não solucionada, diminui a vida útil do instrumento”, assinala.

O experimento para investigar a oxidação das cordas de um cavaquinho foi realizado em sala de aula, sem necessidade de laboratório, e incluiu dois frascos de vidro com tampa e cordas de um cavaquinho. Elas foram expostas a água; suco de limão e água oxigenada.

Outras atividades mão na massa

Para o 9º ano do ensino fundamental, Xavier sugere que os alunos montem uma maquete de carro alegórico tendo como tema um conteúdo do currículo como, por exemplo, o modelo atômico. “Na sequência, eles explicam para a classe o que quiseram representar”, indica.

Outra atividade sugerida por Xavier é escolher um vídeo de uma comissão de frente e analisar os processos químicos utilizados na apresentação.

“A comissão de frente usa muito fogo, fumaças entre outros artifícios para deixar o espetáculo atraente. O objetivo é analisar se há processos químicos nas escolhas de atrações que eles fazem”, finaliza Xavier.

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Crédito da imagem: Crédito: MesquitaFMS Getty Images

Atualizado em 01/02/2024, às 17h35.

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