Você se lembra do nome de dois cientistas da química? Em caso afirmativo, provavelmente essas pessoas são homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais do Norte Global. “Isso acontece porque as hierarquias coloniais constroem em nosso pensamento que só esse tipo de ser humano é dotado da intelectualidade”, explica o doutorando em ensino de ciências pela Universidade de São Paulo Caio Faiad. “Conseguiria pensar em um químico ou química negro, transexual ou sul-americano?”, questiona. A química decolonial ajuda a resgatar a produção de conhecimento de povos e comunidades que foram subalternizado. Conhecimentos sobre materiais químicos cuja origem foi apagada ou roubada pelos colonizadores.

“Brasil, que dá nome ao nosso país, era a nomenclatura de um corante vermelho usado na Europa para tingir tecidos. O português viu essa árvore conhecida por diferentes grupos tupis como arabutã, ibirapiranga, ibirapitá e orabutã, e a nomeou Pau-brasil. O colonizador que escravizou os indígenas usou dos conhecimentos de extração de corantes que esses povos tinham para levar o produto para a Europa”, exemplifica Faiad.

Saberes africanos e quilombolas

Outro exemplo são os negros e as negras “mina” — grupo constituído por várias etnias da Costa da Mina, que hoje corresponde aproximadamente a Gana, Togo, Benim e Nigéria. Eles eram mandados para a região de Minas Gerais e do Mato Grosso para trabalhar forçadamente na mineração. “Os mina trouxeram instrumentos como a bateia, técnicas de perfuração na rocha, e escoragem das minas em forma de arco – como maneira de tencionar as paredes da galeria evitando assim que ela desabasse”, lembra.

“Há um processo de transferência de tecnologia africana para o Brasil durante a diáspora africana. Os negros construíram este país não apenas pelo trabalho braçal: houve conhecimentos químicos mobilizados da metalurgia africana no Brasil”, destaca o doutorando em química pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Marysson Camargo. Ele indica trabalhar esses conceitos com alunos. “Separação de misturas, transformações da matéria e oxirredução são tratados em concomitância com a discussão sobre a diáspora africana e a resistência negra frente à escravidão e ao racismo. Desconstrói-se, assim, a ideia falsa de que a população negra foi naturalmente subserviente”, acrescenta.

Camargo e Anna Benite são autores do artigo “Vozes Griôs no Ensino de Química: Uma Proposta de Diálogo Intercultural” (2020). Nele, descrevem como a comunidade quilombola do estado de Goiás preservou seus conhecimentos ancestrais sobre a extração do óleo de coco: “Há um processo de extração caracterizado pela separação do mesocarpo e endocarpo do grão, trituração no pilão, mistura do coco triturada com a água, e a evaporação da água do óleo. Esta manipulação consiste em um conjunto de operações unitárias, semelhante aos processos utilizados nas indústrias de alimentos.”

Segundo Faiad, é também considerada química decolonial aquela que também visa destacar cientistas negros da África ou da diáspora. “Como Alice Ball, Percy Julian, Marie Maynard Daly, Viviane dos Santos Barbosa, Oswaldo Luiz Alves, entre outros”, lista. Para o pesquisador, trazer esses conhecimentos para a turma rompe com o epistemicídio, que seria a destruição de formas de saber e inferiorização do conhecimento de determinados povos.

“Pessoas negras se tornam empoderadas ao saber que sua ancestralidade criou e sistematizou conhecimentos importantíssimos para a humanidade e pessoas brancas passam a compreender que existiu vida inteligente em todo o mundo no momento em que os brancos europeus decidiram transformar o planeta no quintal da Europa”, enfatiza.

Conhecimentos indígenas

Os saberes dos povos tradicionais indígenas também colaboram com o ensino da química decolonial. “Na minha formação inicial, ao falar de combustão, meu professor trouxe como exemplo os navios europeus. Moramos na Bahia, estado com diversas populações indígenas, e não foi apresentado, por exemplo, como os pataxós criam e lidam com o fogo”, conta a mestre em ensino de ciências pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) Kézia Ribeiro Gonzaga. “O fogo é sagrado para muitos povos. É possível compartilhar suas histórias e crenças. Como no caso dos xavantes, cuja própria origem é atribuída ao fogo”, acrescenta.

Outra possibilidade é trazer para a aula como os indígenas se orientam no espaço e mensuram massa e volume. “Os Kanamari (comunidade indígena da Amazônia) utilizam o cipó titica para medir e criar construções complexas, resistentes às intempéries. Distâncias são medidas em passos e o barbante de algodão é utilizado para mensurar o diâmetro, que é uma medida complexa”, indica. Há ainda o uso da cuia, recipiente de líquidos ou sólidos, podendo ser comparado ao becker (vidraçaria de laboratório).

Em sua dissertação “A experimentação no ensino de química e os saberes indígenas” (2020), Gonzaga ainda elaborou um guia didático com 10 aulas que aliam saberes de povos tradicionais à química, incluindo decantação e extração de pigmentos para colorir roupas e artefatos. “O professor pode iniciar a aula mostrando como um indígena faz decantação e produz mel, e depois pode usar um mel vendido em mercado para medir sua acidez com os alunos. Isso mostra que o branco não é o único detentor do conhecimento. O conhecimento é plural”, ressalta.

Uso da literatura negra

Em sua pesquisa, Faiad partiu do conceito de escrevivência da autora Conceição Evaristo para aliar ensino de química com literatura negro-brasileira. “A literatura negro-brasileira descreve em suas narrativas os saberes tradicionais das comunidades às quais pertencem suas personagens. Por entrelaçar na escrita literária história, memória e experiência, apresenta também esses saberes tradicionais”,relaciona.

Assim, o professor trabalha com os alunos o manejo do barro no livro Ponciá Vicêncio, da Conceição Evaristo; os alvejantes dos tempos coloniais em Água de Barrela, de Eliana Alves Cruz; a coivara em Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior; e produtos capilares em O Black Power de Akin, de Kiusam de Oliveira.

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