Em 26 de outubro de 2026 completam-se 50 anos da morte do pintor, desenhista, ilustrador e caricaturista Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897-1976), o Di Cavalcanti.

Nome importante do modernismo brasileiro, foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e se destacou pela construção de imagens relacionadas à cultura brasileira, à população negra e mestiça, às festas populares, aos trabalhadores e às transformações sociais do país.

“Di Cavalcanti pensou o país por meio de imagens. Sua obra organiza esses elementos em uma determinada compreensão da sociedade brasileira”, resume o historiador, curador e doutorando em história social Fabrício Reiner.

Processos históricos e brasilidade

Segundo Reiner, a obra de Di Cavalcanti pode ser apresentada aos alunos em uma intersecção entre artes e história.

“A produção de Di Cavalcanti permite trabalhar a Primeira República, a crise do sistema oligárquico, a Revolução de 1930, o Estado Novo, o trabalhismo, o nacionalismo, a urbanização, a industrialização e a formação das classes populares urbanas. Permite acompanhar a passagem de uma sociedade marcada por estruturas rurais, oligárquicas e patriarcais para uma sociedade urbana, industrial e de massas”, compara.

Também possibilita discutir o modernismo, a circulação das vanguardas europeias, a busca por uma arte nacional, o pós-abolição, as políticas de branqueamento e a construção do mito da democracia racial.

“Para completar, seus desenhos políticos e satíricos servem para o estudo da dependência econômica, do imperialismo, dos interesses do capital estrangeiro e dos limites da soberania brasileira”, elenca.

O artista também participou da formação de uma imagem do Brasil associada à mestiçagem, ao samba, ao carnaval, à vida urbana e às manifestações populares. “Sua pintura não encontrou uma identidade nacional já pronta. Ela ajudou a produzi-la”.

“A aula de história pode investigar quem construiu essa imagem, em que contexto, quais grupos foram incluídos e em quais posições. Pode perguntar também quais diferenças e conflitos foram encobertos pela promessa de unidade nacional”, complementa Reiner.

Representação da população negra

A presença recorrente de personagens negros e mestiços na obra de Di Cavalcanti não deve ser interpretada automaticamente como prova de integração racial. “Visibilidade não significa necessariamente igualdade, emancipação ou reconhecimento”, explica o professor.

Segundo Reiner, essas imagens precisam ser relacionadas à experiência da escravidão e, sobretudo, às condições do pós-abolição, que não foram acompanhadas por políticas capazes de assegurar igualdade econômica, educacional, política e social.

“A população negra tornou-se central na representação simbólica da nacionalidade, mas permaneceu submetida a profundas desigualdades. Essa é uma contradição decisiva: o Brasil incorporou elementos negros à imagem oficial da cultura nacional sem eliminar as estruturas sociais do racismo. A integração simbólica ocorreu de maneira mais rápida e intensa do que a integração material”, opina Reiner.

Segundo historiador e curador, as personagens negras e mestiças ocupam o centro da pintura, mas isso não elimina os estereótipos, a sensualização e as relações desiguais que atravessam sua representação.

“No caso das mulheres negras e mestiças, deve-se examinar a ambivalência entre protagonismo visual e objetificação. Essas figuras podem aparecer como símbolos da vitalidade popular e, simultaneamente, como corpos disponíveis à contemplação masculina”.

Segundo Reiner, o professor que deseja apresentar a obra de Di Cavalcanti aos alunos deve evitar dois extremos: a celebração acrítica e a condenação anacrônica.

“Não se deve justificar tudo pelo contexto histórico, mas também não se deve reduzir uma obra complexa aos valores e às categorias do presente. Uma imagem pode ter sido inovadora em determinado contexto e ainda assim reproduzir hierarquias de gênero, classe ou etnia”, reforça

“Além disso, a pintura não mostra diretamente ‘como era’ a sociedade. Ela apresenta uma elaboração artística da realidade, atravessada pela posição social do artista, por suas escolhas formais, pelo circuito cultural e pelas expectativas de seu público”, alerta.

Obras indicadas

Para trabalhar DiCavalcanti no anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, Reiner indica o álbum “A Realidade Brasileira”, produzido no início da década de 1930. Nele, Di Cavalcanti utiliza a caricatura, a sátira, o exagero e a ironia para refletir sobre o nacionalismo, o poder econômico, as classes dirigentes e a dependência brasileira.

O historiador também sugere “Para os problemas brasileiros as soluções brasileiras”. Na imagem, uma figura agigantada, identificada como “Casa Rothschild”, conduz uma personagem diminuta que segura a bandeira nacional.

“A obra formula visualmente um problema histórico: como um país pode proclamar soberania enquanto permanece submetido a interesses externos? Nesse caso, a sátira torna visível a contradição entre o discurso nacionalista e a estrutura da dependência”, explica Reiner.

“Também indicaria ‘Figuras com fantasias carnavalescas’, de 1925, para discutir cultura popular, carnaval e representação racial; ‘Modelo’, de 1938, para analisar a elaboração pictórica e social do corpo feminino; e ‘As mulatas’, de 1962, pela maneira como condensa uma imagem de mestiçagem posteriormente incorporada ao patrimônio simbólico do Estado brasileiro.”

“Já obras como ‘As quatro moças de Guaratinguetá’, por exemplo, permitem observar uma representação feminina que não está necessariamente voltada ao desejo masculino, mas participa da construção de uma ideia de país moderno”, aponta.

Atividades

Reiner recomenda organizar a leitura da obra em três movimentos: descrição, contextualização e interpretação.

“Inicialmente, os estudantes devem descrever personagens, gestos, cores, proporções, objetos e relações espaciais. Depois, pesquisar o contexto de produção. Por fim, formular uma hipótese sobre a interpretação histórica presente na imagem. É importante que os alunos diferenciem aquilo que efetivamente observam daquilo que interpretam. Essa distinção ajuda a compreender que toda leitura histórica precisa apresentar evidências.”

Outra possibilidade é comparar uma obra de Di Cavalcanti com textos sobre branqueamento, mestiçagem e democracia racial. “O objetivo é identificar aproximações, diferenças, silêncios e contradições entre formas distintas de pensar o Brasil”.

Uma última atividade é comparar representações femininas de Di Cavalcanti e Cândido Portinari. A atividade pode demonstrar como pose, volume, cor, enquadramento e relação entre figura e fundo produzem interpretações sociais diferentes.

“Nas pinturas de Di Cavalcanti, a mulher aparece muitas vezes com formas sinuosas, corpos arredondados e forte sensualidade, podendo ocupar simultaneamente posições de objetificação e de protagonismo na construção de uma identidade nacional”, aponta.

Já em Portinari, a representação feminina pode ser colocada em contraste com essa imagem. “Muitas mulheres aparecem associadas à pobreza, à fome e à condição dos retirantes, em figuras marcadas por traços mais retos, formas angulares e uma expressão mais dura”.

Por fim, os estudantes podem atualizar a estrutura de uma sátira de “A Realidade Brasileira”. Eles escolheriam um problema contemporâneo e elaborariam uma composição visual crítica, acompanhada de um pequeno texto explicando suas escolhas. “A finalidade não seria imitar o estilo do artista, mas compreender como uma imagem pode construir um argumento histórico”, finaliza Reiner.

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Crédito da imagem: Alberto Gagliardi – Getty Images

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