Telas e quadros clássicos podem ser importantes ferramentas para o ensino de história do Brasil.

“Imagens são fontes históricas e, no caso das telas, geralmente são fontes oficiais, uma vez que foram encomendadas com objetivos de representar e marcar um ato ou situação histórica”, justifica o mestre em história pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e professor da rede pública Humberto Ferreira da Silva.

“A interpretação e um olhar questionador sobre a pintura pode enriquecer o entendimento do processo histórico que essa pintura  pretende representar”, completa.

“Eu uso telas nas minhas aulas para fazer um comparativo dos fatos históricos com os ‘heróis’ criados pelas telas encomendadas pela monarquia para engrandecer personagens históricos que poderiam ter passado despercebidos”, compartilha a mestre em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Eliane Aparecida Pereira. Ela é autora da dissertação “Imagens e história – uma proposta de leitura de telas de Pedro Américo para o ensino de história do Brasil” (2022).

“Além disso, a análise dos quadros pode ser associada a documentos históricos, notícias de jornais de época, correspondências, entre outros”, assinala a professora.

Escolha das obras

Silva sugere aos professores escolher pinturas que estão no imaginário dos estudantes ou nos livros didáticos, como “A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles (1860) e “Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo (1888).

Em sua dissertação Lectio imago: ensino de história por meio das pinturas históricas” (2021), o docente aponta elementos de algumas pinturas clássicas que podem ser destacados pelo professor com a turma na hora de ensinar história do Brasil.

“Nas pinturas clássicas, há uma visão romantizada da história. É preciso interrogar a intencionalidade de cada informação existente, assim como as ausências de outros elementos que deveriam estar na representação”, resume Silva.

Conheça agora sete telas que podem ser usadas no ensino de história do Brasil com a indicação dos professores sobre elementos a serem discutidos com a classe.

“A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles (1860)

A cruz e os religiosos no centro e sob uma luz demonstram poder e protagonismo português, a soberania da fé cristã e passividade indígena – estes retratados como meros espectadores. Há ainda soldados com armadura, que demonstram a presença militar na narrativa.

“A tela pode ser trabalhada junto à ‘Carta de Pero Vaz de Caminha’. Compare o conteúdo da carta com os elementos da pintura”, sugere Silva.

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        Quadro “Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles (crédito: domínio público)

“Um jantar brasileiro”, Jean-Baptiste Debret (1837)

Há uma falsa harmonia entre senhores brancos e pretos escravizados no mesmo ambiente, estando os primeiros sentados e os segundos em pé, a servir. Além da hierarquia, é possível explorar as pessoas escravizadas de braços cruzados, simbolizando resistência. “A tela pode ser associada ao quadro ‘O mestiço’, de Candido Portinari (1934), que quase 100 anos depois resgata a mesma posição”, recomenda o professor de história.

Além disso, Silva destaca a senhora branca alimentando crianças pretas com colares, que remete ao ato de alimentar e adornar animais domésticos.

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        Quadro “Um jantar brasileiro”, de Jean-Baptiste Debret (crédito: domínio público)

“Independência ou Morte” ou “O Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo (1888)

A tela retrata o evento ocorrido em 1822, logo, 66 anos antes da pintura. “A função principal da tela seria retomar a grandeza do império que estava em crise, perdendo apoio de muitos setores da sociedade. Assim, acentua a valorização intencional de D. Pedro I como o personagem principal da independência”, pontua Pereira.

“É construída a partir do olhar do império e de como ele gostaria que esse momento fosse passado às gerações futuras”, complementa Silva.

“Há ainda a representação de elementos da sociedade, os tropeiros, a elite (comitiva), o escravo, o camponês e os soldados, que fariam parte da nação que estava nascendo naquele momento”, acrescenta Pereira.

Pode-se destacar a ausência da população civil e comparar a pintura com as duas telas de “A Proclamação da República”, respectivamente de Benedito Calixto (1893) e de Oscar Pereira da Silva (1889).

“Todas deixam implícito a centralização de certos segmentos da sociedade no comando dos rumos da nação”, lembra Silva.

Outro ponto a ser discutido com os alunos é o da população preta aparecer escondida neste quadro, atrás do animal de carga. “Pode-se especular o fato de colocar o negro em local de difícil percepção na narrativa”, explica Silva.

Em relação a outras fontes históricas, Pereira recomenda associar a tela às cartas de Leopoldina a D. Pedro I.

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Quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo (crédito: reprodução / domínio público)

“Sessão do Conselho do Estado”, Georgina de Albuquerque (1922)

Retrata um evento ocorrido cinco dias antes da independência do Brasil (1822), logo, um século antes da pintura da tela. Quem é responsável pelo retrato é uma pintora, Georgina de Albuquerque, que incorpora a figura central de uma mulher na criação da carta que seria lida por Dom Pedro I e teria motivado o grito de independência.

“Destaque com os alunos que a maioria das pinturas históricas é de obras masculinas, ao contrário dessa. Ela também ajuda a discutir a participação das mulheres em eventos históricos e políticos no passado e nos dias atuais”, ressalta Silva. A obra pode ainda ser associada à tela “Independência do Brasil”, uma vez que ambas representam eventos correlatos.

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Quadro “Sessão do Conselho do Estado”, de”, Georgina de Albuquerque (crédito: domínio público)

“A Libertação dos escravos”, de Pedro Américo (1889)

A obra traz um grupo de mulheres brancas com elementos angelicais ou que remetem à nobreza, associando a libertação dos escravos à princesa Isabel. Elas contrastam com os negros, representados nus, com roupas esfarrapadas, em posição de derrota, súplica e agradecimento.

“A tela representa uma heroína que não corresponde com a realidade histórica e enfraquece a luta dos escravizados e do movimento abolicionista no Brasil. Pode-se usar para desmistificar o mito da princesa branca salvadora dos miseráveis escravizados”, aponta Pereira.

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         Quadro “A Libertação dos escravos”, de Pedro Américo (crédito: domínio-público)

“Proclamação da República”, de Benedito Calixto (1893) e “Proclamação da República”, de Oscar Pereira da Silva (1889)

As duas obras podem ser trabalhadas juntas por compartilharem dos mesmos elementos. Nela, militares são colocados em posição de destaque frente à população civil na transição da monarquia para a república.

“Nas duas telas  a sociedade civil foi ignorada ou pouco aparece na pintura”, indica Silva.

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         Quadro “Proclamação da República”, de Benedito Calixto (crédito: domínio público)
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     Quadro “Proclamação da República”, de Oscar Pereira da Silva (crédito: domínio público)

Veja mais:

9 orientações para ensinar história usando pinturas

11 orientações para promover um ensino de história decolonial

Séries e novelas de época ajudam a abordar conteúdos de história

A coroação de D. Pedro II e o Segundo Império no Brasil

Plano de aula – Proclamação da República

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