Séries, novelas e minisséries são recursos didáticos valiosos para o professor de história da educação básica. “São de fácil acesso, familiar aos alunos e possibilitam, por meio do entretenimento, novas visões de mundo”, resume a historiadora, jornalista e professora da rede municipal de Gramado (RS), Amanda Menger.

Elas também aproximam o universo cotidiano desse estudante da escola. “Quando trazemos algo atual para discutirmos os desdobramentos do tempo, quebramos o estereótipo da história como disciplina ‘velha’, mostrando-a viva”, justifica a mestre em ensino de história, Juliana Freitas.

Roma Antiga, Idade Média, independência do Brasil, regências, escravidão, abolição e imigração são alguns dos temas que podem ser ensinados a partir destes recursos.

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“A escolha pelo professor deve ter relação com o conteúdo, competências, habilidades e objetivos que ele deseja alcançar. Isso vale tanto para obras de caráter abertamente histórico, ou seja, sobre um fato ou biografia de um personagem real, quanto para as mais genéricas que, com o passar do tempo, mostraram-se o retrato de um período”, afirma Menger.

Sequência didática

Episódios, capítulos ou trechos podem ser exibidos tanto no início de uma sequência didática, para apresentar um tema, quanto como fechamento ou revisão. Para o mestre em história social, Henrique Bueno Brescian, é necessário ajudar os alunos a entenderem a narrativa como representação da realidade e, portanto, com intenções.

“A reconstrução do passado resulta de fatores como: contexto, demandas da emissora de televisão, motivações dos produtores, recepção dos espectadores, entre outros. Assim, produtos audiovisuais revelam mais do mundo social e cultural que os produziram do que dos períodos que retratam em suas narrativas”, enfatiza.

Novela “Novo Mundo” (2017) apresenta Dom Pedro I como personagem principal (crédito: divulgação/Globo)

Para estimular a criticidade, é possível aliar as cenas à outras fontes históricas. Vale também apresentar dados técnicos da produção, como autores e elenco. “Aponte os elementos da narrativa que são apoiados em evidências historiográficas sólidas e os ficcionais”, reforça Menger.

Ao final da exibição, cabe um debate para indagar os alunos sobre situações, personagens e construções vistas.

“Se a novela abordou escravidão, questione como estes sujeitos foram retratados. Quais cenas da vida foram exibidas, se os personagens eram protagonistas e como se comportavam”, exemplifica Brescian.

“Trazer a ficção à aula possibilita ao aluno refletir sobre as representações midiáticas fora dos muros da escola, como nas suas redes sociais”, assinala Freitas. “Contribui para a alfabetização audiovisual dele”, complementa Brescian.

Para deixar a aprendizagem ainda mais significativa, outras dicas são pesquisar o que os alunos assistem de audiovisual antes de fechar a proposta de atividade, escolher as cenas que serão trabalhadas e sua relação com o conteúdo e estimular a participação da turma na reflexão ao final da sessão. “Não reserve para si a função de interpretar a produção audiovisual”, alerta Brescian.

Exemplos práticos

Para introduzir o período imperial no Brasil, Freitas recomenda a novela “Novo Mundo” (2017) e a minissérie “O quinto dos infernos” (2002). Ambas apresentaram Dom Pedro I como personagem. “Por meio do diálogo com outras fontes, como o livro ‘A carne e o sangue’ (Mary del Priore, 2012), e a pesquisa que exumou os restos mortais do imperador (Valdirene do Carmo Ambiel, 2013), o conteúdo ganha camadas mais profundas”, defende.

A minissérie “A Casa das Sete Mulheres” (Globo, 2003) ajuda a abordar a Revolução Farroupilha. “Pode-se tratar a guerra, a situação das mulheres, diferenças entre sinhás e escravas, a relação entre o Império brasileiro e as jovens repúblicas da Argentina e do Uruguai e o período regencial”, indica Manger.

Sobre a abolição da escravatura, a novela “Sinhá Moça” (Globo, 1986, com adaptação em 2006) traz uma cena na qual escravos recém libertos encontram, na estrada, os imigrantes que trabalharão nas lavouras. “Abolição, exclusão social, racismo, desigualdades sociais atuais podem ser discutidos a partir dela”, complementa Menger.

Entre as séries, Freitas indica “Band of Brothers” (HBO, 2001), sobre paraquedistas da Segunda Guerra Mundial. “Retrata o Dia D e a abertura dos campos de concentração”.

Representatividade negra na mídia pode ser debatida por meio de novelas de diferentes tempos. “A cabana do Pai Tomás” (Globo, 1969) trouxe um ator branco, Sérgio Cardoso, usando blackface – prática teatral de atores de outras etnias que se coloriam com o carvão de cortiça para representar personagens negros. “Atores dessa população faziam apenas papéis de escravo, empregadas, motoristas, jagunços e guarda-costas. A mudança vem como o psiquiatra Dr. Percival (Milton Gonçalves) na novela ‘Pecado Capital’ (Globo, 1975)”, analisa Brescian.

Capítulos, trechos e compilações de novelas podem ser encontrados no YouTube, enquanto plataformas de streaming trazem novelas e séries completas. “Cinematecas e videotecas de instituições públicas possuem versões compactas desses produtos lançados em DVD. Outra opção é recorrer aos sebos”, ensina Menger.

Bibliografias que podem apoiar o professor são “Como usar a TV em sala de aula” (Marcos Napolitano) e, sobre representação do negro nas novelas, “A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira” (Joel Zito Araújo) e o documentário de mesmo nome.

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