A arte naïf é a arte figurativa produzida por pintores autodidatas. “Muitas vezes, apresenta o uso de cores primárias, é biplana e sem profundidade”, descreve a pedagoga, arte-educadora e ex-coordenadora educacional do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil, Tatiana Levy.
O termo vem do francês e significa ingênuo, inocente, espontâneo ou que não age com sofisticação. Historicamente, foi utilizado para identificar produções artísticas desenvolvidas fora da formação acadêmica tradicional, como explica a doutora e mestra em Artes Visuais Renata Felinto.
“É preciso, porém, ter cuidado com essa definição. No Brasil, a categoria foi aplicada de maneira desigual, frequentemente a artistas negros, indígenas, populares, autodidatas e provenientes de regiões afastadas dos grandes centros artísticos”, afirma Felinto.
“Por isso, hoje existe uma discussão importante sobre a própria utilização da palavra ‘naïf’. Ao mesmo tempo, muitos artistas se reconhecem nessa denominação e passaram a ressignificá-la. Portanto, não se deve tratá-la como uma produção ‘ingênua’ ou ‘inferior’, mas como um campo artístico plural, que possui histórias, comunidades, repertórios e formas próprias de elaboração”, complementa Felinto.
Levy explica que a arte naïf é um movimento artístico diferente dos demais porque sua linha temporal é quase permanente. “Muitos autores consideram a pintura rupestre a primeira forma de arte naïf. Ela não se preocupa com proporção, modismo e nem nasce dentro de um contexto cultural específico. A arte naïf é testemunho da humanidade na medida em que, desde que homens e mulheres sentiram necessidade de registrar ou expressar o que viviam, passaram a fazer representações pictóricas de suas vidas e vivências”.
Temas por etapa de ensino
A arte naïf pode ser trabalhada em todas as etapas da educação básica. Segundo Felinto, na educação infantil e nos anos iniciais, é possível propor a observação de imagens, cores, personagens, paisagens, narrativas e experiências cotidianas.
Nos anos finais do ensino fundamental, podem-se aprofundar questões relacionadas à história da arte, ao território, à memória e às diferentes formas de produção artística.
“Já no ensino médio, podemos discutir a construção das categorias da história da arte, perguntando quem é considerado artista e quais critérios fazem com que uma obra seja reconhecida ou marginalizada”, acrescenta.
“A história da arte brasileira foi construída por matrizes predominantemente eurocentradas, produzindo apagamentos de artistas negros, indígenas e populares, embora suas contribuições sejam estruturais para a formação cultural do país. Conhecer essa produção também permite aos estudantes perceber que existem diferentes maneiras de representar o mundo. A arte pode partir da memória, da experiência cotidiana, da religiosidade, do território, dos sonhos, da imaginação e das tradições comunitárias”, complementa Felinto.
Artistas para conhecer
Levy lembra que o termo näif surgiu com o pintor francês Henri Rousseau. “Ele ousou pintar sem nunca ter frequentado a academia e, com seus retratos de famílias e cenas de florestas e bichos fantásticos, inspirou grandes nomes da arte moderna e surrealista, como Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Salvador Dalí e René Magritte. Sua originalidade e a recusa em pintar segundo a academia lhe valeram o termo de naïf (inocente)”, compartilha.
No Brasil, entre os nomes historicamente associados à arte naïf estão Heitor dos Prazeres, Djanira da Motta e Silva, José Antônio da Silva, Maria Auxiliadora da Silva, João Cândido da Silva, Waldomiro de Deus, Com Silva, Mestre Vitalino, Chico Tabibuia, Raquel Trindade de Souza, Ana das Carrancas, Mestre Noza, Ricardo Odetetres de Ozias, Aparecida Azedo, Gerson de Souza, Lia Mittarakis e Chico da Silva.
Além disso, não existe uma única estética capaz de definir toda a produção chamada de arte naïf, como explica Felinto.
“As características também são diversas. Podemos encontrar uso intenso da cor, simplificação ou alteração das proporções, representação de cenas cotidianas, festas, religiosidades, paisagens, trabalho, memória e acontecimentos locais”, destaca Felinto.
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A partir da arte naïf, é possível ensinar história da arte, composição, cor, perspectiva, representação, narrativa visual e diferentes modos de construção da imagem.
“Também podemos trabalhar território, memória, identidade, cultura popular, festas, religiosidades, relações de trabalho, paisagens e histórias das comunidades”, aponta Felinto.
“Vale também promover uma análise dos aspectos históricos e geográficos das localidades retratadas nas obras. Podemos discutir os próprios mecanismos de legitimação da arte. Por que determinados artistas são chamados de ‘eruditos’ e outros de ‘populares’ ou ‘naïfs’?”, questiona.
A seguir, conheça oito atividades para ensinar arte naïf na educação básica.
1) Faça uma leitura coletiva de imagens
Apresente diferentes obras associadas à arte naïf e peça aos estudantes que identifiquem cores, personagens, espaços, ações, objetos e histórias representadas. Segundo Felinto, a proposta permite desenvolver a observação e a interpretação das imagens a partir dos elementos presentes em cada composição.
2) Pinte um lugar significativo da sua comunidade
Nesta atividade, cada estudante pode produzir uma pintura sobre um lugar significativo de sua comunidade, representando pessoas, festas, brincadeiras, trabalhos ou acontecimentos que façam parte de sua memória. A proposta aproxima a produção artística da experiência cotidiana e valoriza as histórias e referências presentes no território dos estudantes.
3) Pesquise um artista da arte naïf
Os estudantes podem escolher um artista associado à arte naïf e pesquisar sua trajetória, sua cidade, suas referências e as instituições que contribuíram para que seu trabalho fosse reconhecido. A atividade permite compreender que as obras estão relacionadas à história dos artistas e aos contextos sociais e culturais em que foram produzidas.
4) Crie uma pintura coletiva sobre a história da comunidade
A turma pode construir uma grande pintura ou painel sobre a história de sua comunidade, distribuindo entre os estudantes diferentes cenas, personagens e acontecimentos a partir de suas próprias biografias.
5) Faça uma releitura a partir de uma experiência própria
Em vez de simplesmente copiar uma obra, a proposta é estabelecer um diálogo com ela. O professor pode apresentar uma imagem e perguntar aos estudantes o que ela representa, quais elementos chamam atenção e quais histórias podem ser identificadas. Depois, cada estudante pode criar uma nova imagem a partir de uma questão ou experiência própria.
“Por exemplo, depois de observar uma pintura que representa uma festa popular, o estudante pode representar uma festa de seu bairro ou de sua cidade. Assim, ele compreende a estrutura da obra de referência, mas produz uma narrativa própria”, indica Felinto.
A atividade também pode discutir o que muda quando uma mesma situação é representada por pessoas diferentes.
6) Transforme uma obra de arte naïf em uma cena teatral
O professor pode escolher uma obra e observar com a turma quem são os personagens, onde estão, o que parecem estar fazendo e qual narrativa poderia existir antes ou depois daquele momento. A turma pode então transformar a imagem em uma cena teatral, com cada estudante assumindo uma personagem, criando falas e movimentos e construindo uma pequena narrativa.
“É possível também fazer o exercício inverso: depois da encenação, pediria aos estudantes que produzissem uma imagem da cena. Assim, eles percebem que teatro e artes visuais podem contar uma mesma história por meios diferentes”, afirma Felinto.
7) Modele em argila personagens e elementos da comunidade
A atividade pode partir de obras que apresentem personagens, animais, casas ou cenas do cotidiano e propor que os estudantes transformem uma dessas referências em uma pequena escultura. Também é possível partir do território: cada estudante pode modelar uma pessoa, um animal, uma planta, uma casa ou um objeto que considere representativo de sua comunidade.
8) Investigue o território representado em uma obra
O professor pode escolher uma obra e investigar com os estudantes onde aquela cena acontece. Depois, a turma pode localizar a cidade ou região em um mapa e pesquisar sua história, características geográficas, atividades econômicas, festas, manifestações culturais e formas de ocupação do território.
Também é possível comparar uma paisagem representada pelo artista com a paisagem atual, observando o que mudou.
“Essa proposta permite compreender que uma obra não existe isoladamente. Ela está relacionada a um lugar, a uma experiência histórica e a determinadas formas de viver”, finaliza Felinto.
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Crédito da imagem: Dusan Stankovic – Getty Images