A sala de aula também é um espaço de aprendizagem para quem ensina. Na convivência cotidiana com os estudantes, professores se deparam com situações que colocam em questão certezas, provocam mudanças e deixam ensinamentos que ultrapassam os conteúdos previstos no currículo.

No Dia dos Professores, diferentes docentes contam histórias que marcaram suas trajetórias e revelam o que aprenderam com seus alunos. São experiências sobre inclusão, comunicação, preconceito, acolhimento e vínculos construídos no cotidiano escolar.

“Alunos com TEA me ensinaram a vencer minhas inseguranças”

Viviane Jacob Franzin, professora (Foto: arquivo pessoal)

“Eu leciono na EMEF Paulo Gomes Cardim, no terceiro ano do ensino fundamental I. Minha maior insegurança era dar aula para alunos atípicos, especialmente para alunos com TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Eu ouvia que eles não faziam contato físico, não olhavam nos olhos, não gostavam de abraços nem de carinho. Tudo isso mudou quando, em 2024, 2025 e 2026, conheci meus alunos Diego e Davi, ambos autistas, nível 3 de suporte. Um deles é não verbal e o outro é verbal, porém apresenta dificuldades na fala.

Aprendi com os dois que, acima de qualquer deficiência ou condição, o amor prevalece.

A cada dia, tenho mais certeza de que, independentemente de sua condição, todas as crianças gostam e merecem ser tratadas com amor, respeito, carinho e acolhimento.

Eles me ensinaram muito mais do que eu poderia imaginar. Ensinaram-me a vencer minhas inseguranças, a olhar para cada criança além de sua condição e, principalmente, a amá-los e acolhê-los”.

Viviane Jacob Franzin

“Aprendi a ter atenção com a maneira como me comunico”

Elvis Silva, professor (Foto: arquivo pessoal)

Tive um aluno com quem me conectei muito rápido por causa do futebol. Gostávamos de conversar sobre os jogos, comentar os times e brincar um com o outro. Depois de alguns dias, percebi que ele estava mais distante. Foi então que descobri que, em algum momento, eu havia chamado sua atenção de uma maneira que o deixou chateado.

Isso me marcou porque eu gostava da nossa convivência e não tinha percebido que minha fala havia sido recebida daquela forma. Estava começando a dar aulas e ainda aprendendo a lidar com as situações do cotidiano. Aquele episódio me fez pensar no cuidado que precisava ter com as palavras e no tom que usava ao conversar com os estudantes.

Conseguimos esclarecer a situação e, aos poucos, retomamos as conversas sobre futebol e nossa relação ficou ainda mais próxima.

O aprendizado que ficou foi perceber que minha intenção não bastava. Eu também precisava estar atento à maneira como o aluno recebia o que eu dizia. Até hoje, lembro dessa experiência quando penso em como me comunicar melhor em sala de aula. Talvez ele nem saiba, mas, naquelas primeiras semanas da minha trajetória como professor, me ensinou uma lição que carrego comigo e que continua sendo fundamental na minha relação com os estudantes”.

Elvis Silva

“A identificação ocorre por afeto”

Alessandra Pio, professora (Foto: arquivo pessoal)

“‘Os alunos não se identificam como negros’. Essa frase se repetia em muitos dos grupos de professores que eu frequentava. E eu queria alunos negros cheios de orgulho de si, do seu pertencimento racial. Um dia, elogiei a blusa do Flamengo que o ‘Paulinho’ vestia, enquanto outro gritou: ‘É falsificada, tia!’.

‘Paulinho’ respondeu e me explicou com um ar de tranquilidade: ‘Ninguém vai acreditar que eu tô com uma original. Então eu uso é falsificada mesmo’.

A sabedoria daquele menino de 11 anos de idade me mostrou que o corpo dele era tão desvalorizado, desqualificado, marginalizado, que o dinheiro não o faria ser tratado de forma diferente e, por isso, não valeria o investimento.

Passei a levar muitas referências de pessoas negras para que eles se orgulhassem deles e entendessem que fazem parte de uma história de enfrentamento, superação e luta.

Um dia, ‘Paulinho’ foi chamado de neguinho por outro colega negro e imediatamente apontou para minha direção, dizendo: ‘Neguinho mesmo… igual à tia, né, tia?’.

Ali eu comecei a me sentir referência para eles e a entender que ninguém obriga o outro a se identificar com nada. A aproximação ocorre por proximidade, afeto, prazer, orgulho e outras coisas positivas”.

Alessandra Pio

“Duvidar de um estudante sem conhecê-lo é um erro”

Mariana Cordeiro, professora (Foto: arquivo pessoal)

“Fui professora de história na rede estadual de São Paulo entre 2011 e 2024. Em 2016, estava em uma escola em uma região central que recebia imigrantes de diferentes países, mas sem estrutura para acolher ou ensinar português. Um dia, chegaram duas irmãs de Taiwan em uma sala do ensino médio falando pouco português e confesso que pensei: ‘Que pena, não conseguirão acompanhar a turma’. Passei uma atividade simples para ter um texto curto e responder algumas questões. Na aula seguinte, me surpreendi: a tarefa estava respondida com letras caprichadas em português, com a tradução das palavras no idioma delas e micro ideogramas espalhados pela lição. E assim foi até o final do ano. Elas fizeram amizade e no fim do ano já estavam interagindo mais. Soube que em casa os responsáveis cobravam um horário de estudos das duas todos os dias.

Esse episódio me fez ver que duvidar de qualquer estudante sem conhece-lo é um erro e que a adaptação de estudantes imigrantes é possível”.

Mariana Cordeiro

“A linguagem é, antes de tudo, um desejo de conexão”

“Como professora auxiliar de educação especial e inclusiva da rede estadual de São Paulo, passei a acompanhar um menino russo de nove anos com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Ele chegou ao Brasil por causa da guerra. Nos primeiros dias, a comunicação dependia do Google Tradutor e de recursos visuais. Começamos pelo alfabeto, sílabas e palavras ligadas aos seus interesses, como ‘churrasco’ e ‘futebol’, usando imagens, jogos, livros e objetos do cotidiano. Quando ele percebeu que podia formar palavras juntando sílabas, sua aprendizagem deu um salto. Em apenas três meses, ele passou de uma comunicação praticamente inexistente em português para a leitura e a comunicação com colegas e professores. Acompanhar esse processo me fez perceber a capacidade de aprendizagem e adaptação das crianças e também repensar ideias sobre o TDAH: quando encontra estímulo, vínculo e estratégias adequadas, um aluno pode demonstrar um envolvimento e uma capacidade de concentração surpreendentes. Mas a experiência foi além do aprendizado da língua. Enquanto eu ensinava português, também aprendia com ele sobre acolhimento e cultura. Ele me mostrou que a linguagem é, antes de tudo, um desejo de conexão”.

Paola Durante.

“O amor pela docência pode se multiplicar”

“Em 2005, quando eu dava aulas de química na Escola Estadual Augusto Antunes, em Santana, no Amapá, percebi em um aluno do ensino médio uma curiosidade e um interesse pelas ciências que chamavam minha atenção. Era Sandro Figueiredo, e anos depois o reencontrei já formado em física. Ele me contou que, quando ainda era meu aluno, eu lhe havia dado um livro sobre Albert Einstein. Eu já não me lembrava daquele gesto, mas ele havia guardado aquela lembrança como algo importante para sua trajetória nas ciências. Essa experiência me ensinou que pequenos gestos de incentivo podem permanecer na vida de um estudante por muitos anos e que, muitas vezes, o professor planta sementes sem saber onde elas vão chegar. Foi emocionante ver meu ex-aluno ocupar o lugar de professor. Isso me mostrou, na prática, que o amor pela docência pode se multiplicar”.

Gerlany de Fátima dos Santos Pereira

Veja mais:

Dia dos Professores: docentes contam como é ensinar nas escolas em que estudaram

Dia dos Professores: educadoras inspiram filhas a seguirem carreira docente

Dia dos Professores: o que motiva jovens a escolherem a profissão?

Dia dos Professores: docentes da educação básica inspiram alunos a seguirem na profissão

Dia dos Professores: docentes experientes dão dicas para quem está começando na área

Talvez Você Também Goste

‘Caminhada do privilégio’ ajuda a discutir desigualdade social com alunos

Educadora ensina como trazer a proposta para aulas de sociologia e educação física

Dia do Cabelo Maluco: atividade pode reproduzir racismo

Educadoras discutem os problemas associados à data e como atribuir a ela uma função pedagógica

Saúde mental do professor: os desafios da volta ao trabalho após afastamento

Especialistas fazem nove recomendações para um retorno menos traumático após licença médica

Receba NossasNovidades

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.