A street art (arte de rua) é uma forma de expressão artística que acontece no espaço público e que dialoga com a cidade e com o cotidiano das pessoas. “Diferente das artes que estão restritas a museus e galerias, a street art está presente no dia a dia e é acessível a qualquer pessoa que circula pela cidade”, explica o educador e artista visual Kjell van Ginkel Siqueira (Roffa).

“No meu trabalho, entendo a street art também como uma forma de intervenção urbana, que provoca reflexão, questionamento e novas formas de olhar para o território. Ela não é apenas estética, mas também social e educativa”, acrescenta ele, que é autor da dissertação “Arte de rua e educação”.

Entre as principais manifestações da arte urbana estão o grafite (pintura feita geralmente com spray em muros), a tag (assinatura estilizada do artista, repetida em diversos locais), o stencil art (técnica que utiliza moldes vazados para reproduzir imagens ou textos com precisão), o lambe-lambe (cartazes impressos), os adesivos ou stickers, a pixação (escrita com letras estilizadas), as intervenções urbanas (ações artísticas que modificam temporariamente o ambiente da cidade, provocando reflexão), o mural (pintura de grande escala, que ocupa paredes inteiras), projeções de vídeo  e o urban knitting (intervenções feitas com tricô ou crochê aplicadas em elementos da cidade, como postes e árvores).

“Também há poesias e cartazes poéticos que trazem reflexão”, acrescenta a fundadora do projeto “Gentilização” e superintendente do Museu Afro Brasil Emanuel Araújo, Vera Nunes.Parte superior do formulário

Arte pública e democrática

A street art tem início com o crescimento das cidades no século XX, mas sua origem pode ser entendida como ainda mais antiga.

“Alguns autores a associam aos homens das cavernas. Existia um desejo de registrar algo nas paredes das cavernas, de colocar ali uma marca, imprimir uma presença, comunicar-se ou deixar um legado”, aponta Nunes.

Na educação básica, a street art pode ser ensinada em todas as etapas de ensino. “Na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, podem-se propor trabalhos nas paredes com as mãos a partir da experimentação de tintas naturais, como borra de café e pigmentos feitos com frutas”, exemplifica Nunes.

Autora da dissertação “Arte urbana: uma experiência estética no processo de ensino de artes visuais”, a mestra profissional em artes Rafaela dos Santos Silva destaca a importância de apresenta a street art aos estudantes.

“Muitos não conseguem perceber a cidade como uma forma de manifestação artística, até pelo fato de eles não se sentirem pertencentes a este espaço. A street art mostra que eles podem se tornar agentes que se apropriam do espaço público”, analisa.

“A arte urbana aproxima a arte da realidade dos alunos. Permite trazer o cotidiano para dentro da escola, valorizando o território e as experiências dos estudantes. Além disso, desenvolve o olhar crítico, a criatividade e o sentimento de pertencimento”, adiciona Roffa.

“A Street Art propõe uma arte pública e democrática. Para acessar obras em museus, muitas vezes é necessário deslocamento e recursos financeiros, o que nem sempre é possível para todos. Já a arte pública está na rua”, destaca Nunes.

“Além disso, permite entender o que as pessoas daquela cidade estão pensando”, completa Nunes.

Apresentando o tema aos alunos

Silva recomenda iniciar uma aula de street art estimulando o olhar que as crianças e os adolescentes têm do bairro em que moram.

“Por exemplo, perguntando o que tem neste local, se existem formas de arte e, a partir desta análise, explicar o que é arte urbana, de que forma ela se manifesta, por que os artistas utilizam as ruas como forma de expressão e que mensagens eles querem passar”, destaca a professora.

“Além disso, discutimos sobre a acessibilidade e a democratização que a arte urbana proporciona, pois muitos deles nunca foram a um museu ou a casa de cultura”, complementa.

Entre os artistas para apresentar aos alunos, Roffa indica Brad Downey, Banksy, Os Gêmeos, Rammellzee, KAWS, Mundano e Mark Jenkins. Silva completa a lista recomendando Eduardo Kobra, Nina Pandolfo e Witch. “Na região de São Luís (MA), destacamos Edi Bruzaca e Gil Leros”.

Já Nunes recomenda artistas como Aline Bispo, Ana Carla Pereira (Negana), Auá Mendes, André Hulk, Naiara Tukano, Tamikuã Txihi, Robinho Santana, Soberana Ziza e Mauro Neuro, conhecido como Veracidade.

Também é indicado buscar grafiteiros e outros artistas da comunidade para conversar com os alunos. “Isso aproxima os alunos da prática real da arte, valoriza saberes locais e fortalece a relação entre escola e território”, aponta Roffa.

A seguir, conheça sete atividades para ensinar street art aos alunos.

1) Cartografia afetiva e intervenção urbana

Materiais: papel, tinta, EVA, papelão, tesoura (com supervisão) e cola.

Indicado por Roffa, inicia com uma caminhada pelo entorno da escola para observação de elementos do território, como texturas, cores, grafites, placas e objetos. Em seguida, peça para os alunos transformarem essas observações em desenhos, mapas e carimbos (técnica de reprodução de imagem a partir de uma matriz). Por fim, escolha um espaço autorizado da escola ou da comunidade para a realização de uma intervenção urbana, expondo o resultado das criações.

2) Construção de carimbos

Materiais: tampinhas de garrafa PET, EVA, tinta guache e pincel.

Indicação de Silva, apresente referências de carimbos utilizados por artistas urbanos às crianças e explique suas possibilidades. Depois, peça para os alunos desenharem algumas formas no EVA, recortando-as com cuidado. Depois, cole o EVA recortado na parte plana da tampinha, pressionando bem para fixar. Esse será o “molde” do carimbo. Com os carimbos prontos, eles podem experimentar diferentes composições, variando cores, posições e repetições sobre o papel.

3) Criação de tags a partir do próprio nome

Materiais: papel sulfite, lápis de cor, hidrocor e régua.

Recomendada por Silva, inicia com o professor apresentando exemplos de diferentes estilos de letras usados por grafiteiros, destacando formatos e variações. Em seguida, peça para os alunos criarem suas próprias tags a partir de seus nomes, explorando formas, traços e cores. Ao final, reúna as produções e monte um mural coletivo para exposição.

4) Oficina de stencil

Materiais: moldes em papel ou plástico (como capas de apostila ou chapas de raio-X), estilete (com supervisão), rolo de espuma e tinta spray ou guache.

Indicado por Silva, inicia com a criação de um desenho simples; recorte o molde e o aplique sobre uma superfície (papel ou tecido). Pinte por cima, criando a imagem. Após a confecção, realize a aplicação em papel pardo para exposição dos trabalhos

5) Mural coletivo em tecido ou papel

Materiais: rolo de tecido, papel pardo e tintas (naturais ou industrializadas)

Indicada por Nunes, consiste em estender o material em uma parede ou no chão. Proponha um tema (por exemplo, “minha história” ou “meu bairro”). Deixe as crianças criarem livremente e exponha o resultado na escola

6) Pintura com tintas naturais

Materiais: borra de café, carvão, frutas (morango, manga…), folhas e água

Recomendada por Nunes, inicia com a preparação das tintas naturais com os materiais. As crianças utilizam essas tintas para criar desenhos livres em um tecido ou papel, de forma coletiva ou individual. Pode-se relacionar a atividade com práticas indígenas e ancestrais.

7) Desenho a partir da contação de histórias

Materiais: tecido, tela ou papel e tintas.

Conte uma história e peça para as crianças representarem a narrativa em desenho. Escolha um lugar da comunidade escolar para expor o resultado.

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