O círculo de construção de paz é uma prática coletiva de diálogo e escuta. “É um encontro social de interação face a face, em que as pessoas se colocam e expressam sentimentos. Cada participante afeta e é afetado pelo que fala e escuta”, resume a doutora em sociologia, educadora da rede estadual do Ceará e pesquisadora da ferramenta Maria Cristiane Lopes da Silva.

A prática faz parte da justiça restaurativa, que surgiu na década de 1970 como uma alternativa às limitações dos processos judiciais tradicionais.

“O círculo de construção de paz serve para organizar a conversa, aproximar as pessoas, tomar decisões e resolver conflitos por meio do diálogo. É um espaço especial onde todos se sentem seguros para falar e ouvir”, acrescenta a mestra em educação profissional e tecnológica e professora da rede municipal de Araguatins (TO) Vanessa Pereira Costa.

“Entre seus benefícios estão o desenvolvimento da empatia, o aprendizado para resolver conflitos de forma pacífica e a geração de sentimentos de união, amizade e pertencimento”, adiciona.

A ferramenta pode ser usada na prevenção do bullying em todas as etapas de ensino, conforme explica Costa. Ela trabalhou com alunos do ensino médio em uma proposta que originou um produto educacional de mestrado.

“Os círculos ajudam os alunos a entenderem o que é o bullying, a identificarem suas consequências e papéis — agressor, vítima e espectador — e a refletirem sobre suas atitudes. Ajudam a transformar esses espectadores em protetores do grupo, em vez de aplaudirem ou se calarem diante de agressões”, aponta Costa.

Como realizar?

Um círculo de construção de paz é diferente de uma roda de conversa, apesar de ambos terem formato circular. A prática possui metodologia própria, organizada em torno de alguns elementos.

Objeto da palavra: Apenas quem está segurando esse objeto pode falar, garantindo que ninguém seja interrompido e que os demais escutem. “Pode ser um bastão, uma caneta, um coração ou outro elemento vinculado à temática que se deseja trabalhar”, explica Silva.

Peça de centro: “É um arranjo no chão, no meio do círculo, com símbolos que ajudam os participantes a se concentrarem”, explica Costa. “O centro é um espaço privilegiado em todo círculo. No círculo de construção de paz, muitos alunos ficam envergonhados e não querem olhar os colegas nos olhos quando a atividade começa. Assim, é comum buscarem pousar o olhar no centro. Os símbolos ajudam nessa concentração e ainda trazem informações”, justifica Silva.

Ela conta que, em um círculo de construção de paz para discutir o caso de uma aluna que sofria bullying por causa de sua estrutura familiar, organizou no centro imagens que representavam diferentes modelos de família.

Momentos definidos: Silva explica que cada círculo conta com um ritual, que inclui uma cerimônia de abertura e um momento de acolhida, no qual se pergunta como os alunos estão se sentindo, além da definição de acordos e diretrizes de convivência. Também pode haver contação de histórias e perguntas norteadoras. Ao final, é feita uma checagem dos sentimentos dos participantes após as conversas, seguida da cerimônia de encerramento.

Facilitador (ou guardião): “Ele está ali não para conduzir o círculo, mas para participar. O próprio facilitador coloca e traz emoções e participa; ele é integrante”, explica Silva.

Combinados: Silva recomenda estabelecer pelo menos três acordos: respeitar o objeto da palavra, acolher os demais por meio da escuta e da fala e preservar a privacidade. “Os aprendizados podem ser compartilhados fora do círculo. As histórias e os nomes das pessoas, não”.

Cuidados específicos

Costa lembra que há diferenças entre os círculos convencionais e aqueles utilizados especificamente para discutir situações de bullying, considerados mais complexos.

“Os círculos são divididos entre os menos complexos, voltados para a reflexão coletiva sobre temas do cotidiano, e os mais complexos, utilizados em situações de violência já consolidada, traumas ou conflitos intensos. Podem envolver a reconstrução dos danos entre agressor e vítima direta e exigem um preparo emocional muito mais profundo”, diferencia Costa.

“Ao colocar estudantes em uma roda temática sobre bullying, é preciso ter cuidado com todos os envolvidos: quem sofreu o bullying, quem está fazendo outra pessoa sofrer e quem está ao redor, que presencia as situações e permanece em silêncio, mas também sofre com o que acontece e pode se sentir constrangido”, complementa Silva.

Segundo ela, é necessário realizar pré-círculos antes de reunir todos os envolvidos. Isso significa conversar individualmente com os participantes. “O cuidado é compreender primeiro o que está acontecendo e verificar se as pessoas envolvidas querem conversar sobre o assunto no coletivo”, explica Silva.

“Se a turma não acolher com carinho e respeito a dor da vítima, o facilitador deve fazer uma pausa e restaurar o ambiente seguro”, alerta Costa.

Outro ponto é o acolhimento das emoções que surgirem. Silva recomenda realizar o círculo com dois facilitadores para que, caso algum aluno chore, um deles possa acompanhá-lo para fora do espaço e acolhê-lo.

Além disso, é necessário respeitar o silêncio e não pressionar os alunos que não quiserem falar.

Como agir?

Faça uma preparação pessoal: “Esteja presente de verdade, calmo e com postura imparcial”, recomenda Costa.

Construa acordos coletivos: Logo no início, defina com os alunos o que é preciso para que todos se sintam seguros.

Seja flexível: “Use as perguntas do roteiro como guia, mas esteja aberto para adaptar as conversas dependendo do ritmo da turma”, acrescenta Costa.

Não dê ‘lição de moral’: “O círculo não é o momento de dar aula, dizer o que é certo ou errado, ou levantar julgamentos. Ele tem seu próprio ritmo”, alerta Silva. “Não controle a conversa para impor uma conclusão pessoal como facilitador”, recomenda Costa.

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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