Nanismo é o termo popularmente usado para se referir à deficiência do crescimento que resulta em baixa estatura. De forma geral, são consideradas pessoas com nanismo homens com até 1,45 m de altura e mulheres com até 1,40 m.

“É uma característica presente em mais de 750 tipos de doenças raras, síndromes e outras condições genéticas, hormonais ou metabólicas. Entre as causas mais comuns estão as alterações esqueléticas”, explica a mulher com nanismo e psicóloga do Instituto Nacional de Nanismo Izabela Ganzer.

Muitas barreiras atingem o aluno com nanismo na escola, a começar pelas físicas.

“Há tipos de nanismo, por exemplo, a acondroplasia, em que os braços são encurtados. Então, é importante haver adaptação no bebedouro e dentro do banheiro, para que esse aluno consiga não somente alcançar o vaso sanitário e a pia, mas também abrir a torneira. Pode ser necessário o uso de banqueta, tablado ou escada”, explica a professora e delegada da Associação Nanismo Brasil (Annabra) Edilaine Ravani, mãe de Alice Maria, de 11 anos, que tem acondroplasia.

Na sala de aula, é importante, ainda, haver apoio para as costas e os pés. “A mesa deve estar na mesma altura que a dos demais colegas, para que a criança não fique diferente e consiga olhar adequadamente para o quadro, evitando dores no pescoço e na nuca”, diz Ravani.

Barreiras de convivência

Um outro aspecto são as barreiras de convivência. “Socialmente, a pessoa com nanismo não é vista como possuidora de deficiência, que necessita de cuidados médicos e tem direitos”, lembra Ravani.

“Há ainda uma associação histórica do nanismo com humor, e crianças e adolescentes podem reproduzir esse preconceito, sendo a informação a única alternativa contra o capacitismo”, acrescenta.

Para ela, a prevenção ao bullying exige abordar com a turma questões sobre diversidade e respeito às diferenças. “Depende da acolhida do professor e da gestão para conduzir adequadamente a convivência com os demais alunos. Assim como apoio da família: se os responsáveis sempre conversaram sobre a deficiência, esse aluno chega fortalecido ao ambiente escolar”, opina Ravani.

“O capacitismo aparece em atitudes que os colegas chamam de ‘brincadeiras’. O estudante passa a ser conhecido pela estatura, não é chamado pelo nome. Surgem apelidos, perguntas invasivas, imitações, fotos sem permissão ou até mesmo a ideia de que ele não vai conseguir acompanhar os colegas – o que pode partir dos próprios professores”, alerta a vice-diretora da Associação Nanismo Brasil (Annabra) e graduanda em pedagogia Velveti Severo. Ela é mãe de Theo, de 12 anos, que possui hipoplasia cartilagem-cabelo, tipo de nanismo que envolve alterações específicas no crescimento dos ossos e cartilagens.

“Na adolescência, essas situações mexem com a forma como o jovem se vê”, destaca.

Infantilização prejudica aprendizagem

Outras atitudes capacitistas comuns no trato com alunos com nanismo são infantilizá-los e presumir que a deficiência física também compromete a aprendizagem.

“Às vezes, o aluno com nanismo recebe explicações infantilizadas, atividades mais fáceis ou até mesmo uma ajuda antes mesmo de ter a oportunidade de tentar. E isso pode limitar tanto a aprendizagem quanto criar barreiras físicas”, diz Severo.

“A infantilização também aparece no tom de voz usado para falar com esse estudante, quando o professor conversa sobre ele apenas com a família, sem lhe dirigir a palavra, ou ele é excluído de conversas e experiências próprias da adolescência porque alguém acha que ele ainda é pequeno. Então, a equipe precisa reconhecer a etapa de vida desse aluno em tudo o que planeja”, orienta.

“Tampouco se deve pegar a pessoa com nanismo no colo ou passar a mão na cabeça. A aparência física não determina idade, capacidade ou autonomia”, afirma Ganzer.

Se a escola for informada que receberá um estudante com nanismo, Ganzer sugere à equipe buscar informação sobre o tema e conversar com o próprio estudante e sua família para compreender suas necessidades específicas.

“Não existe uma única forma de vivenciar o nanismo. Também é importante preparar a equipe escolar e os demais estudantes para a chegada do aluno, promovendo informação e orientando sobre respeito, convivência e combate ao capacitismo”, afirma.

Educação física é ponto sensível

É comum o aluno com nanismo não se sentir incluído nas aulas de educação física.
“É importante saber se esse aluno tem algum tipo de restrição; caso contrário, vai participar junto com a turma de todas as atividades, com adaptações se necessárias”, diz Ravani.

O trabalho de acolhida e a conversa com a classe também é fundamental para que esse aluno se sinta pertencente àquele grupo e queira participar de jogos e brincadeiras.

“Houve um momento em que o Theo não queria participar da educação física porque nas aulas de futebol, por exemplo, os colegas não queriam escolher ele. Então, o professor mudou e começou a propor jogar caçador, e ele descobriu ter agilidade e desenvoltura. Os próprios colegas também começaram a enxergá-lo com outro olhar”, exemplifica Severo.

Estudantes compartilham suas próprias experiências

“Minha experiência na escola hoje é tranquila. As coisas já ficam em uma altura que eu consigo usar sozinha, como no refeitório. A escola costuma perguntar quando é necessário fazer alguma adaptação e eu sinto que minha opinião é ouvida. Não participo muito das aulas de educação física porque não me sinto à vontade. Quando aconteceu bullying, eu me defendi, e alguns amigos, também. Acho que nem todos os professores sabem o suficiente sobre o nanismo. Eu gostaria que eles entendessem que se trata de uma deficiência física, não intelectual. O que me faz sentir respeitada é quando me tratam sem diferenças, da mesma forma que os outros alunos.”
Marcela Sacilotto, 17 anos, estudante da Escola Deputado Benedito Matarazzo, de São José dos Campos (SP)

“Eu gosto da minha escola, sou respeitado e participo das atividades junto aos meus colegas. Tenho alguma dificuldade para usar banheiro e cadeiras da sala, porque nem sempre são adequadas para mim. Às vezes, fico com vergonha ou constrangido por causa disso. Eu gostaria que a escola perguntasse mais se estou bem e se preciso de alguma coisa, e que os professores entendessem melhor minha deficiência. Já passei por algumas situações de bullying, que me deixaram triste. Os professores conversam com os colegas.”
Davi Albuquerque, 11 anos, da Escola Municipal José Dionísio de Sousa, de Jericoacoara (CE).

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Crédito da imagem: kali9 – Getty Images

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