A ginástica é uma atividade física que envolve movimentos coordenados e controlados, visando o desenvolvimento da força, flexibilidade, equilíbrio, coordenação motora e condicionamento físico.

“Ela é uma é prática corporal que se importa com o contexto e significado criado por meio do gesto”, resume a mestranda no mestrado profissional em educação física em Rede Nacional Helen Maria Rodrigues da Silva.

A mestra em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Larissa Graner explica que a ginástica fazia parte da história da educação física escolar desde a Segunda Guerra Mundial, porém foi sendo substituída pelos jogos coletivos.

“Devido à sua importância, ela foi contemplada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e passou, a partir daí, a integrar propostas curriculares de estados e municípios. Porém, a prática ainda não ocupa um espaço de equidade em relação aos outros temas”, destaca.

A ginástica nos anos iniciais

Silva explica que, nos anos iniciais do ensino fundamental, é preconizado o ensino da ginastica geral e seus fundamentos básicos, assim como a ginástica para todos (GPT).

Os padrões comuns de movimento são posições estáticas, saltos, deslocamentos, rotações, balanços e aterrissagem. “Depois disso, eles podem ser unidos. Por exemplo, posso estar em movimento e fazer uma cambalhota, girar, dançar etc.”

Já a GPT permite que pessoas de diversas idades e condições físicas participem da sua prática, além de ter uma preocupação com a coletividade.

“Ela dialoga com outras formas de expressão, como a música, as artes cênicas, as artes plásticas, dentre outras. Também podemos encerrar o estudo sobre ginástica refletindo sobre esses ideais e realizando um grande festival de GPT com as turmas da escola”, recomenda Graner.

A ginástica nos anos finais

Nos anos finais do fundamental, o professor pode apresentar as ginásticas competitivas, de condicionamento físico e consciência corporal, como a yoga.

As ginásticas competitivas são aquelas oficializadas pelas federações internacionais e incluem: artística, rítmica e acrobática.

“São manifestações que as crianças dificilmente terão acesso se não for pelas aulas de educação física. Devido à peculiaridade de suas gestualidades – como rotações, apoios invertidos, saltos diversos, pirâmides – é mais fácil e enriquecedor quando as pessoas as experimentam enquanto são crianças. E a apropriação desse conhecimento nessa fase pode facilitar o exercício de outras práticas corporais quando adultas”, defende Graner.

 Silva sugere aproveitar o ensino de ginástica para problematizar questões sociais.

“Por exemplo, o fato de a ginástica rítmica ser classificada pela confederação internacional como uma prática feminina. Existiria gesto masculino e feminino, ou são estereótipos de gênero?”, problematiza Silva.

“Ano passado também tivemos o primeiro pódio com ginastas pretas, que é algo que também pode ser abordado”, complementa.

Desafios no ensino de ginástica

Graner afirma que estereótipos de que a prática da ginástica é difícil, assim como sua associação a competições dos Jogos Olímpicos, pode afastar professores e alunos desse conhecimento.

Ela aponta ainda a ausência das práticas na formação de professores e a carência de materiais e infraestrutura nas escolas como desafios. “Isso prejudica, mas não impede que esse ensino aconteça”, defende.

Silva lembra que a ginástica vai mexer com limitações e medos dos alunos. “Eles podem dizer que não conseguem fazer”, compartilha.

Contra isso, ela recomenda partir dos exercícios mais simples para os complexos; valorizar os movimentos propostos pelos alunos e ajudar para que se estabeleça uma relação de confiança entre eles. “Além da relação individual com o esporte, há uma relação coletiva”, reitera.

As professoras de educação física apontam abaixo algumas possibilidades de ensino da ginástica na educação básica.

1) Três momentos – ginástica para todos

Silva indica essa metodologia criada pela professora Marília Velardi (1997). Escolha um movimento básico da ginástica, como o salto. No primeiro momento, os alunos exploram livremente as formas de saltar: para frente, com as pernas abertas e fechadas, em pirueta etc. Na sequência, aprofunde essa exploração com dicas e desafios, direcionando a turma. “O professor pode, a partir daí, ir nomeando os saltos e apresentando outras possibilidades”. O terceiro momento consiste em um olhar mais apurado para a técnica, voltando-se para os saltos formais da ginástica.

Os saltos podem ser associados a materiais, como bolas e cordas, e somar novos movimentos.

“Eles podem propor dois movimentos além do salto, fazer saltos em duplas e juntar as propostas para criar uma pequena coreografia”, complementa.

2) Parada de mãos – ginástica artística

“As crianças [podem] criar diferentes posições estáticas, [para] que ‘vejam o mundo de ponta cabeça’. As ideias descobertas são socializadas para os colegas tentarem”, ensina Graner.

Na sequência, elas criam diferentes maneiras de se deslocar utilizando dois pés e duas mãos no chão. Repita esse mesmo deslocamento utilizando apenas um pé e duas mãos. Depois, com o corpo em quatro apoios, sugira que elas tentem:

  • Levantar uma perna para cima durante dez segundos.
  • Impulsionar as duas pernas para cima sendo que uma deve ser impulsionada um pouco antes, até a altura do quadril, e a outra deve ser impulsionada logo em seguida, porém mantendo o pé bem próximo do solo.
  • Realizar o exercício anterior buscando manter braços, tronco, quadril, pernas e pés estendidos o máximo possível.
  • Em pé, com a parte posterior do tronco virada para a parede, colocar as mãos no chão e subir os pés pela parede ficando na posição invertida. Nesta posição, estender o corpo o máximo que conseguir.
  • Fazer a brincadeira do túnel: “Peça que as crianças façam o exercício anterior, porém uma ao lado da outra, bem próximas. Quando todas estiverem na posição invertida, peça que uma das crianças passe por baixo do túnel formado pelas colegas”, orienta Graner.

3) Estrelas – ginástica artística

Proponha que as crianças criem posições estáticas ou acrobacias que representem uma estrela. Partilhe as ideias descobertas para os colegas tentarem. Forme a letra V com duas cordas estendidas no chão, na horizontal. Elas saltam as cordas utilizando duas mãos e dois pés.

“Realize o exercício anterior, sendo que as mãos devem alcançar o chão do outro lado da letra V antes dos pés. Repita esse exercício várias vezes”, diz Graner.

“As primeiras tentativas podem ser saltando a parte mais estreita da letra e depois saltando a parte mais larga, aproximando-se da estrela da ginástica”, completa.

4) Rolamento para frente – ginástica artística

As crianças criam posições estáticas ou acrobacias para representar uma bola, partilhando as descobertas com colegas, que também devem tentar fazer o mesmo.

Peça que uma criança suba no colchão com as pernas afastadas. Em seguida, ela deve olhar por baixo das pernas, apoiar as mãos no chão e tentar colocar a cabeça entre as pernas cada vez mais. Enquanto isso, os colegas que esperam na fila vão chamando “Vem! Vem! Vem!” até que o corpo dela role para frente.

5) Elementos corporais: Saltos, giros e equilíbrios – ginástica rítmica

As crianças criam diferentes saltos, variando: na forma de dar o impulso, “no desenho que é feito com o corpo no ar” e na forma de aterrissar. Elas partilham as descobertas para os colegas tentarem.

Elas criam diferentes giros, variando: um ou dois pés apoiados no chão, nas formas de dar o impulso, na posição das pernas durante o giro. Elas partilham as descobertas para os colegas tentarem.

As crianças criam diferentes equilíbrios apoiando apenas um dos pés no chão, variando: a posição da perna que não está apoiada. Elas partilham as descobertas para os colegas tentarem.

6) Brincadeira dos números – ginástica rítmica

Elas realizam saltos, giros e equilíbrios de acordo com o número que a professora falar. Para o número um, saltar; para o número dois, girar; para o número três, equilibrar.

Depois, criam um salto em duplas. Logo depois, juntam-se em novas duplas e criam um giro. Por fim, façam uma terceira dupla e criem um equilíbrio. Quando a professora falar “dupla número um”, as crianças devem se encontrar e realizar o salto que criaram. Quando a professora falar “dupla número dois”, as crianças devem se encontrar com a segunda dupla e realizar o giro que criaram. Quando a professora falar “dupla número três”, as crianças devem se encontrar com a terceira dupla e realizar o giro que criaram.

7) Arco – ginástica rítmica

Esse aparelho pode ser adaptado usando um bambolê. As crianças rotacionam o arco em diferentes partes do corpo – cintura, braços, pescoço, tornozelos etc. Elas rolam o arco no chão e tentam: passar por dentro dele sem que ele caia; saltam o aparelho sem que ele pare de rolar; façam algo com o corpo enquanto ele rola – saltem, girem – e recupere antes que o aparelho pare de rolar. Por fim, peça que rolem o arco para outra criança recuperar.

As crianças lançam o arco e tentam algum movimento com o corpo – batam palmas, saltem, girem – e o recuperem antes que ele caia. Por fim, peça que lancem o arco para outra criança recuperar.

Crie uma sequência, a ser realizada em grupo, que contenha pelo menos um salto, um giro, um equilíbrio e algumas manipulações com o arco descobertas e aprendidas nas atividades anteriores. Peça para os alunos apresentarem a sequência criada para toda a classe.

8) Ginástica acrobática

Apresente para as crianças as nomenclaturas “base” e “volante” e suas funções numa pose acrobática.

Em duplas, elas devem criar uma posição estática que tenha apenas dois pés encostando no chão – contando os pés das duas crianças.

Uma das crianças da dupla (a base) encosta a parte posterior do tronco em uma parede e flexiona as pernas como se estivesse sentada em uma cadeira invisível. A outra (volante) ficará de frente para ela e deverá apoiar as mãos no ombro da primeira criança. Em seguida, enquanto a “base” segura na cintura da criança “volante”, a “volante” deve subir na “base” apoiando um pé sobre cada coxa dela.

As crianças se juntam em trios e criam uma posição estática que tenha apenas quatro pés encostando no chão – contando os pés das três crianças.

Duas crianças (as “bases”) ficam uma ao lado da outra e flexionam as pernas como se estivessem sentadas andando a cavalo. A outra criança (“volante”) ficará atrás e entre as “bases”, com uma mão no ombro de cada uma. Em seguida, enquanto as “bases” seguram o tronco da criança “volante”, a “volante” deve subir nas “bases” apoiando um pé sobre a coxa de cada uma.

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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