O banquete era uma refeição comum nas festividades da aristocracia durante a Idade Média. Recriá-lo na aula de história pode ajudar a abordar aspectos políticos e culturais do período, previsto no currículo do 6º ano do ensino fundamental e do ensino médio. Nessa atividade, os estudantes são protagonistas e o professor tem o papel de mediador do conhecimento. “Os alunos pesquisam, montam os elementos e encenam a atividade”, aponta o professor da licenciatura em história da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) Douglas Mota Xavier de Lima.

Para ele, a alimentação oferece possibilidades para o ensino. “Questões como: o que, como, onde, quando e quanto se come variam de acordo com as sociedades e grupos sociais. Isso envolve também desigualdades e tabus religiosos e culturais relacionados a alguns alimentos. É o caso da tradição católica de não ingerir carne vermelha na Sexta-feira Santa”, exemplifica.

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Comidas e curiosidades

Segundo Lima, os alunos se surpreendem com informações como o hábito de comer com as mãos até o século XI. “Os talheres foram generalizados pela sociedade industrial”, diz.“Os banquetes também possuíam apresentações artísticas, exposição de animais exóticos e mobilizavam muitos trabalhadores”, completa.

É possível citar o contraste entre a moral cristã – que classificava a falta de moderação à mesa como pecado — e os excessos alimentares e bebedeiras registrados em documentos. Não faltavam carnes (vaca, porco, carneiro e coelho), caça (cervo, corço, lebre e urso), aves (galinha, pato, gansos, pavão e faisão), enchidos (linguiça e chouriços) e, em menor escala, pescados. O peru foi incorporado posteriormente. “Era uma ave das Américas domesticada pelos astecas e levada à Europa pelos espanhóis durante as grandes navegações”, explica o professor.

Hortaliças, legumes e leguminosas eram mais consumidos pelos populares. Havia ainda conservas, frutas, doces de cidra, de abóbora, biscoitos de flor de laranja e pastéis de leite — esses comuns em Portugal.“Farinhas de trigo, centeio, aveia e cevada compunham, ao lado do vinho, os elementos fundamentais da nutrição medieval dos diferentes grupos sociais”, diz. O vinho, porém, era temperado com água, logo, mais fraco.

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Os estudantes também se surpreendem com um período medieval mais permissivo para as mulheres do que o Renascimento. “No segundo, acentuou-se interdições a elas, que permaneciam em mesa isolada liderada pela rainha”, comenta o professor.

Etiquetas à mesa

Tratados não-religiosos sobre etiqueta à mesa datam do século XIII, relacionando-se ao ambiente cortesão e à diferenciação entre homens nobres e rudes. “No texto ‘O convidado italiano’ (1215), orienta-se não comer o pão antes de serem trazidos os primeiros pratos; não pôr comida nos dois lados da boca; evitar beber e falar ao mastigar”, informa Lima.

Outras advertências abrangiam arrotar, assoar o nariz na toalha, barulhos durante a sucção com colher, roer osso ou morder pão e colocá-los novamente na travessa comum.“Regras que ficaram complexas nos séculos seguintes. Vide os detalhes dos banquetes de Versailles”, observa. Vale ainda ressaltar as precedências das pessoas na disposição da mesa e no acesso aos alimentos. “Dava-se costumeiramente destaque aos com maior dignidade e titulação”, conta Lima.

Mestre em ensino de História e hoje professor da rede municipal de São José (SC), Dismael Sagás também realizou a atividade com seus alunos. Ele iniciou o trabalho com três textos: “A civilidade pueril”, de Erasmo de Rotterdam; “Luz sobre a Idade Média”, de Regine Pernoud e “História: das cavernas ao terceiro milênio”, de Patrícia R. Braick e Myriam B. Mota.

“Duplas e trios pesquisaram receitas medievais, elaboradas em casa com os responsáveis. A atividade aconteceu no recreio, com alunos trazendo sucos de frutas, frango assado, carne suína e pão de fermentação natural”, relata. “Debatemos hábitos culturais; etiqueta; eurocentrismo; machismo; costumes alimentares impostos pela industrialização e o desuso de temperos e especiarias atualmente. Os estudantes se divertiram comendo com às mãos”, acrescenta Sagás.

O professor pode, ainda, falar dos banquetes em sociedades não-europeias durante a Idade Média. Para isso, Lima recomenda os relatos de viajantes.“O embaixador muçulmano Ahmad Ibn Fadlan narra um banquete oferecido pelo rei dos eslavos no século X. Marco Polo descreve um banquete na corte de Kublai Khan em Pequim no século XIII”.

Viabilizando a atividade

Segundo Lima, professores que desejam reproduzir a atividade podem definir proposta, objetivos e prazos com os alunos. Para a pesquisa, ele indica o blog e o canal de vídeos do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (NEVE-UFPB), assim como a obra “Na mesa com a história: a alimentação na Antiguidade, Era Viking e medievo”, de Luciana Campos.

“A atividade pode apenas explorar os alimentos ou ter os alunos como personagens no ritual alimentar”, indica. Caso os estudantes não tenham condições de colaborar com alimentos, Lima sugere buscar doações com comércio local e comunidade escolar. “Em escolas com cozinha e refeitório, pode-se realizar uma atividade simples com as merendeiras, usando cereais e farinhas de trigo e aveia”, propõe.

Veja mais:

Plano de aula – Tapeçaria de Bayeux: As relações de poder na Idade Média

Plano de aula – Idade Média: “Média” por quê?

Plano de aula – Peste bubônica: causas, efeitos e consequências

Atualizado em 18/01/2022, às 11h24

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