Assim como crianças videntes são preparadas para a alfabetização por meio de atividades lúdicas que desenvolvem habilidades psicomotoras, o mesmo ocorre com os alunos cegos antes de aprenderem o braille — sistema de leitura e escrita  que consiste em um arranjo de pontos em relevo. 

“O braille exige que tenham sido bem desenvolvidas memorização e percepção tátil. Assim, as atividades visam sensibilizar as pontas dos dedos para identificar os pontinhos e aprender a seguir linha com os dedos, assim como fortalecer braços para utilizar a máquina escrever braille”, explica a pedagoga da Fundação Dorina Nowill Para Cegos, Bianca Chaló. A instituição oferece reabilitação para pessoas cegas e também formação e materiais de apoio para professores que trabalham com essa população. 

A seguir, confira nove orientações para auxiliar no processo de alfabetização de estudantes cegos e com baixa visão.

1. Avaliação é o primeiro passo

“É necessário conhecer o aluno para identificar se o braille será usado ou não. Alguns estudantes podem ter baixa visão, mas pedagogicamente serem considerados cegos”, justifica. 

“É importante saber a historicidade dessa cegueira, se ela é congênita ou foi adquirida. Tudo isso ajuda o professor a desenvolver um trabalho de alfabetização global”, ressalta a professora de atendimento educacional especializado nas redes municipais de Abreu e Lima e Paulista (PE) Nilma Gonçalves da Silva.

“A avaliação do professor ajuda a checar o quanto do tato desse aluno está desenvolvido e as noções de mobilidade e lateralidade dele ao se locomover pelo espaço, fatores que serão importantes para o braille”, recomenda o pedagogo especializado em educação especial Francisco Vital.  

“Não sondar esses conhecimentos prévios faz com que os alunos cheguem ao sistema braille despreparados e, com isso, enfrentando dificuldades”, enfatiza Chaló.  

2. Teste tamanhos de letra com alunos com baixa visão

No processo de avaliação do aluno com baixa visão, é necessário checar o tamanho de letra ideal que possibilitará leitura. “As configurações de letra consideradas aceitáveis para um aluno de baixa visão são tamanho 24 de fontes Arial ou Verdana e em caixa alta (maiúscula). Após esse limite, a leitura não fica fluída e o aluno pode ser encaminhado ao braille“, contextualiza Chaló.

3. Invista em atividades táteis

“O sentido tátil tem que ser moldado e estimulado para identificar tamanhos diferentes de pontos, diferenças entre grosso e fino, liso e áspero, alto e baixo, largo e estreito”, resume Silva. 

“Pode-se começar de forma lúdica, com atividades de abrir e fechar zíperes, botões, pregadores de roupa e potes. Vale também trabalhar a manipulação e identificação de diferentes objetos”, sugere Silva.

Segundo ela, esses movimentos com os dedos preparam os alunos para o manejo de duas ferramentas fundamentais para a escrita braille: a reglete e a punção. A primeira é uma placa retangular enquanto  a punção é uma espécie de estilete especial usado para marcar o papel nos espaços correspondentes às letras na reglete.

Chaló também indica juntar todas as habilidades necessárias — memorização, fortalecimento de braços e sensibilização tátil — em uma mesma atividade. 

 “Eu gosto de aplicar um jogo da memória tátil, com formas geométricas diferentes em alto-relevo”, compartilha.  

4. Ofereça atividades de desenhar e pintar 

Chaló explica que, geralmente, a criança cega ou com baixa visão é privada do momento de desenhar e pintar.

“Isso nega acesso a fatores importantes: o desenho também trabalha percepção tátil, segmento de linha, força muscular e coordenação motora”, assinala. 

Ela indica fazer formas variadas em relevo com barbante ou cola para a criança pintar. “Outra técnica consiste em colocar uma lixa de parede de pintor embaixo da folha. Quando a criança pintar, um relevo será formado. Assim, ela consegue identificar os locais que faltam ser pintados”, descreve Chaló. 

5. Trabalhe atividades com perfuração

Como o uso da reglete e da punção exige a habilidade de perfurar, Silva indica trabalhar atividades lúdicas de perfuração usando bandejas de carne e palitos de churrasco.

“Isso ajuda a simular o movimento de marcar o papel com a punção”, afirma. “Porém, as atividades devem ser realizadas apenas com alunos maiores de sete anos”. 

6. Ensine o braille ampliado usando caixa de ovos 

Há todo um processo para a criança conseguir identificar a bolinha pequenina do braille que está escrito nos livros e nos elevadores. Para isso, é necessário iniciar o processo de aprendizagem com o chamado braille ampliado, que pode ser construído com caixa de ovos. 

O motivo da escolha pela caixa de ovo é que os pontos em relevo do braille são dispostos em duas colunas verticais com três pontos em cada coluna. É a combinação e a posição dos pontos na cela braille que determina cada letra. 

“Como a cela braille é composta de seis pontos, cortando a caixa de doze ovos ao meio, criam-se duas celas brailles. Você pode pegar a quantidade de celas brailles para as letras do nome da criança e preencher com bolinha de papel ou de ping pingue-pongue para criar cada letra”, conta Chaló.

“As letras são as combinações desses pontos. Assim, eu brincarei com a criança de colocar bolinhas na caixa de ovo e criar cada letra”, acrescenta.

Nesse vídeo da Prefeitura de Santo André (SP), é possível aprender a confeccionar a cela braille.

7. Tire o foco da oralidade

“Tratar o aluno cego como ouvinte é algo cultural na educação, mas limita sua aprendizagem. Ainda que ele aprenda, segue-se negando o acesso a outros conteúdos”, alerta Chaló, que explica a importância de trabalhar com materiais concretos com esses estudantes. 

“Ele não saberá o que é um quadrado, por exemplo, se não pegar, tatear e sentir. Como o professor, na explicação oral, pode pedir para ele imaginar uma árvore se ele não sabe o que é, se ele não foi levado a explorar o mundo com seus demais sentidos? Não funcionará”, pontua Chaló.

“Infelizmente a falta de conhecimento e o alto preço dos materiais de braille fazem com que muitos professores caiam na oralidade na hora de propor atividades”, lamenta Silva.   

8. Descubra como funciona a baixa visão do aluno 

No caso do aluno com baixa visão, a missão do professor é descobrir como esse sentido dele funciona. 

“Alunos com baixa visão são diferentes. Alguns apresentam melhora na visão com maior luminosidade enquanto outros são o oposto: uma simples cortina pode fazer com que ele enxergue melhor”, ensina Chaló. 

“Há alunos com visão periférica e outros, com lateral. A missão é fazer testes para descobrir como potencializar essa visão”, acrescenta. 

“Dose a luminosidade, o lugar que ele senta na sala, teste contrastes, as cores dos objetos, uso de lupas ou outras lentes”, indica Vital.

“Esse aluno pode se deparar com a realidade de enxergar e não enxergar simultaneamente. Pode conseguir ler algo, mas não copiar um conteúdo na lousa. Isso deixa os professores confusos”, lembra Silva.

9. Trabalhe com a realidade do hoje 

Segundo a pedagoga do Instituto Dorina, também é comum os professores ficarem apegados a laudos e com medo da visão do aluno ir diminuindo. “Trabalhe com a realidade que o aluno apresenta hoje”, ensina. 

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