Às vésperas de completar 15 anos, Sofia Amundsen começa a receber cartas de um misterioso professor de filosofia, estimulando-a a refletir sobre questões cotidianas e existenciais. Essa é a sinopse de “O Mundo de Sofia”, livro do professor de filosofia Jostein Gaarder que completa três décadas em 2021 e é bom material para introduzir conceitos filosóficos na educação básica.

“Em forma de romance, o autor desenvolve conceitos baseado em perguntas como: quem somos? Qual a origem do mundo?”, exemplifica o doutor em filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Luiz Felipe Sigwalt de Miranda. O livro é dividido em 35 capítulos, que seguem a linha cronológica tradicional da filosofia ocidental. “A obra interessa ao currículo, porque o exercício da filosofia justamente exige conhecimentos da sua história, além de ela ensinar como se realiza o pensamento filosófico”, justifica.

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“Como Kant sintetizou: não se ensina filosofia, mas a filosofar. Sofia não se satisfaz com respostas elaboradas por grandes filósofos e também passa a refletir por si”, pontua Miranda. Para o professor de Filosofia do Centro Universitário Estácio São Paulo Celso Ramos, o livro inovou ao sintetizar 2,5 mil anos da história em linguagem acessível e com enredo cheio de mistérios. “Ele percorre o pensamento das colônias gregas da Jônia aos pensadores do século XX, como Freud e Sartre, sem fazer concessões ao rigor conceitual”, avalia.

Primeiras provocações

“O Mundo de Sofia” pode ser usado na educação básica como livro paradidático para discutir problemas filosóficos ou consolidar conceitos; em trechos específicos ou inteiro. Entre os temas que aborda, estão: cosmogonia, mitologia, os filósofos da natureza (pré-socráticos), método socrático, o racionalismo de Platão e a ética de Aristóteles.

“Há também as bases da metafísica (alma, deus e mundo), fundamentos cartesianos do conhecimento verdadeiro, empirismo, apriorismo kantiano, dialética hegeliana, materialismo histórico de Marx, neodarwinismo, psicanálise freudiana, entre outros”, lista Miranda.

Para o mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alexandre Squara, os cinco primeiros capítulos são ideais para as primeiras provocações, situar o aluno no ambiente filosófico e apresentar a noção de metafisica. São eles: “O Jardim do Eden”, “A Cartola”, “Os Mitos” e “Os Filósofos da Natureza”. “A ideia do espanto diante do mundo continua sendo, milênios depois, o principal mecanismo de inserção do jovem no ambiente filosófico”, destaca.

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Questões abordadas na obra dialogam com o universo juvenil, como o capítulo sobre Kant e a ética do dever. “O adolescente está em processo de franca ruptura com padrões de comportamento estabelecidos na infância e pela família. O ímpeto da filosofia que questiona valores morais e éticos, a legitimidade das normas e ambiências moralizantes na esfera do certo e errado, costuma ganhar a simpatia deles”, compartilha Squara.

Cada etapa, uma proposta

No fundamental 1, Miranda indica o capítulo sobre Demócrito e a teoria atomista usando a montagem de peças LEGO. “Pode-se esperar que as crianças discordem do pensador, pois as peças não são todas iguais”, adianta. “O professor do ensino médio pode seguir a ordem cronológica proposta e pedir para grupos de alunos apresentarem, como seminário, cada capítulo”, recomenda Ramos.

Outra forma de usar a obra em sala é por meio de debates no ensino fundamental 2 e médio. “Como o travado entre os racionalistas, a exemplo de Descartes, e os empiristas, com D. Hume e G. Berkeley”, acrescenta Ramos. A “Alegoria da Caverna” de Platão é igualmente indicada para essas duas etapas. Ramos ainda recomenda associar a obra ao primeiro filme da trilogia Matrix.

União de disciplinas

Trabalhos interdisciplinares com o livro também são possíveis. O capítulo sobre a teoria atômica de Demócrito, por exemplo, pode ser explicado junto ao professor de ciências ou química, como pontua Ramos. No capítulo “A Renascença”, as teorias astronômicas de Galileu ( e de Copérnico podem ser associadas a ciências e física. “Parceria com o docente de literatura é oportuna no capítulo sobre Romantismo”, acrescenta Ramos.

Diálogo e esclarecimento de dúvidas evitam que o livro seja considerado complexo pela classe, como alerta Miranda: “Ao professor, sugiro ainda leituras de apoio, como manuais de filosofia. Apresentar a adaptação do livro para o cinema também pode ajudar na narrativa”.

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