A animação Rio (2011) trata sobre o tráfico de animais silvestres e pode ser utilizada no ensino de educação ambiental ou em ecologia, na disciplina de ciências. De classificação livre, ela narra a história da ararinha-azul macho Blu, traficada do Brasil e acidentalmente derrubada de um caminhão nos Estados Unidos, onde é encontrada e criada pela menina Linda. Anos depois, o ornitólogo Túlio busca unir Blue com a suposta última fêmea da espécie, Jade, que tem como único objetivo fugir e reconquistar sua liberdade.

Autora do artigo “Ararinhas, unidas, jamais serão extintas! Como o filme Rio pode ajudar em campanhas ambientais” (2022), a professora de ciência biológicas, Larissa Gago Serpa, explica que o filme pode ser usado para alertar os alunos sobre tráfico de animais silvestres e biopirataria. 

Confira, a seguir, dez temas trazidos pela animação que podem ser utilizados pedagogicamente na escola. 

1) Tráfico de animais 

Serpa explica que o tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade ilegal do planeta, perdendo apenas para os de drogas e armas. “Ele retira aproximadamente 38 milhões de animais, sendo 40% deles enviados ao exterior. Isso impacta na cadeia alimentar, ameaça a biodiversidade, provoca perda da variabilidade genética e extinção”.

Segundo a docente, é possível abordar com os alunos tópicos como: a forma em que Blu é capturado e transportado ao exterior; os riscos que o tráfico traz às espécies; o motivo dele voltar ao Brasil; e como a sua captura e a de Jade novamente por traficantes poderia prejudicar a espécie.

2) Maus-tratos sofridos pelos animais

 Algumas cenas do filme exibem aves amontoadas, feridas, amedrontadas e estressadas. 

“O transporte dos produtos biopirateados é diferente para vegetais e animais. Estes últimos são transportados dentro de caixas, tubos de PVA, fundos falsos de malas, entre outras formas agressivas. Estima-se que somente um em cada dez animais contrabandeados sobreviva”.

Quando não são encontrados mortos pela fiscalização, animais traficados estão com fome, sede, frio ou mutilados. “Geralmente são filhotes encontrados sem pelos ou penas e anestesiados para parecerem mansos. Aves têm olhos furados para não enxergarem a luz do sol e não cantarem, evitando chamar a atenção da fiscalização”, contextualiza Serpa.

3) Espécies mais visadas por traficantes

“As espécies mais visadas são os psitacídeos (papagaios, periquitos e araras), passeriformes (passarinhos), dendrobatídeos (rãs venenosas e coloridas), primatas e lepidópteros (borboletas)”, indica Serpa. 

Além disso, os alunos podem pesquisar as espécies brasileiras que, atualmente, correm risco de extinção. 

4) Tráfico de aves

Segundo Serpa, Brasil é o segundo país com mais espécies de aves ameaçadas, sendo que 82% dos animais contrabandeados no território são aves. No filme, por exemplos, Nico e Pedro são dois personagens alvos de passarinheiros para concursos de canto. 

“Os passeriformes são grandes alvos do tráfico de animais no Brasil por suas cores vibrantes, repertório vocal, facilidade de transporte em locais pequenos e preço baixo no mercado clandestino em relação aos demais animais”, justifica Serpa. 

5) Problemas dos animais silvestres domesticados 

O filme mostra o caso de Blu, que perdeu seu instinto de voar e caçar. “Criados em cativeiro, os animais esquecem como se defender de predadores ou se de proteger em situações adversas. Se libertados, mesmo em locais propícios, dificilmente sobrevivem”, lembra Serpa.

“A domesticação prejudica a evolução dos animais silvestres, causa desequilíbrio ecológico devido à retirada deles de seus ambientes, além da possibilidade de transmissão de doenças. Além disso, nem todos os animais podem viver em cativeiro”, aponta a professora.

6) Causas do tráfico de animais

Os alunos podem refletir sobre o que movimenta o tráfico de animais. O filme mostra, por exemplo, como a miséria incentiva o comércio ilegal de animais, com a captura de aves silvestres para venda sendo uma alternativa de renda para populações carentes.

7) Identificar as espécies que inspiraram os personagens

Serpa sugere utilizar com os alunos sites como Riowiki e Wikiaves para pesquisar as árvores dos filmes e se há erros na forma como elas foram retratadas. Na animação, por exemplo, as ararinhas-azuis têm pés com dois dedos virados para frente e outro para trás, quando espécies da ordem Psittaciformes possuem pés com dois dedos virados para frente e dois para trás. 

8) Destaque os erros do filme 

Há equívocos sobre a alimentação de Blu, que bebe chocolate com marshmallow quando ararinhas-azuis se alimentam de frutas e sementes.  Já a cacatua Nigel aparece comendo coxa de galinha, quando são vegetarianas e raramente comem insetos. 

Há ainda erros no quesito distribuição geográfica. ”Ararinhas-azuis não ocorrem no Rio, mas no norte da Bahia. São de área de caatinga, não uma espécie florestal, como retrata o filme”, diz a professora.

Pedro, o cardeal, é uma espécie nativa do norte da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e sul do Brasil, que foi introduzido em São Paulo. “Tampouco sobrevivem em florestas, necessitando de formação vegetal aberta para voarem, como matagais áridos e tropicais”, conta Serpa. 

 Os tucanos da espécie de Rafael não são originários do Rio de Janeiro, mas introduzidos na região. São comuns na Amazônia, Pantanal, Cerrado e outras áreas da América do Sul. Já os da espécie de Eva são encontrados na Colômbia, Venezuela e o sul do México. 

“Deslizes podem ser usados na educação, com correção durante mesa-redonda, pesquisa ou conteúdo de classificação dos seres vivos”, diz Serpa.

“O filme também mostra outros personagens cômicos, como o morcego, que está engaiolado entre as aves e deixa claro que não deveria estar ali. Ele diz: ‘Armaram pra mim, pegaram o cara errado!’, remetendo ao erro comum que muitas pessoas cometem em relação à classificação do mamífero”, conta a professora.

9) Medidas para preservação das espécies

No filme, o cientista Hugo visa unir Jade e Blu para ver se eles se reproduzem. Porém, há outras medidas para proteger as espécies que podem ser pesquisadas e discutidas com os alunos, como preservação e restauração de habitats, promoção de pesquisas e monitoramento de espécies, campanhas de conscientização, entre outras.

10) Biopirataria

Biopirataria é o roubo ou exploração ilegal de recursos genéticos de plantas, animais e micro-organismos de um país ou comunidade por parte de empresas ou indivíduos, sem a devida compensação ou consentimento, para fins comerciais, científicos ou de patentes.

Além de apresentar o conceito para a classe, pode-se explorar os prejuízos da biopirataria para a biodiversidade. “Em um sentido mais amplo, o termo engloba a exploração e o comércio ilegais de madeira, o tráfico de animais e plantas silvestres, acesso irregular ao patrimônio genético nacional e aos conhecimentos tradicionais associados”, explica a docente.

Biopiratas costumam se passar por cientistas ou turistas. “As principais rotas de biopiratas no Brasil são: Amazônia, por conter a maior biodiversidade do mundo; Mata Atlântica, que abriga pesquisas científicas; Caatinga e Pantanal, por conterem bom potencial biológico”, apresenta a professora.

Veja mais: 

Plano de aula – Cinema e Educação: Rio (ensino fundamental 1)

Dossiê Florestas: Biopirataria

Educação ambiental decolonial: o que é e como trazê-la para a escola? 

Como trabalhar racismo ambiental e justiça ambiental na escola?

Pensamento de Paulo Freire pode apoiar ensino de educação ambiental crítica

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