Uma das autoras do documento do Ministério da Educação “A Avaliação em Artes Visuais no Ensino Fundamental” (2006), Ana Maria Petraitis Liblik considera os processos avaliativos em artes mais complexos do que os da sua outra área de atuação, a matemática.“Em linhas gerais, avaliar em artes exige também maior sensibilidade do professor”, compara.

Para a autora, a escola brasileira ainda tem a tendência de sobrevalorizar o produto final criado pelo aluno em relação ao processo vivido por ele durante toda a aprendizagem.

Mesma opinião do docente da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) Gustavo Cunha de Araújo Brasil. “Na avaliação, deve-se considerar a realidade do educando, os seus saberes e conhecimentos que foram e ainda serão desenvolvidos. Assim como valorizar o processo: sua criatividade, a interação em sala, o manuseio de materiais artísticos entre outros”, complementa o professor.

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Confira, a seguir, 10 orientações de especialistas para humanizar o processo de avaliação em artes sem deixar de lado elementos técnicos a serem considerados.

1) Avaliação diagnóstica é primeiro passo

Gustavo Cunha de Araújo Brasil explica que avaliar em artes necessita conhecer os alunos, motivo pelo qual recomenda primeiramente uma avaliação diagnóstica. Questionários, rodas de conversas e exercícios são algumas das ferramentas que trazem informações sobre esses conhecimentos e habilidades prévias dos estudantes.

“Arte é conhecimento. Assim, é importante saber o que os alunos entendem, sabem e fazem sobre as artes e também a realidade deles. Isso ajuda a planejar adequadamente os conteúdos a serem trabalhados e, posteriormente, ter condições de avaliar com maior eficiência”, justifica.

2) Analise o processo

Sair da teoria e ir para a mão na massa é importante na aprendizagem das artes. “Isso amplia o entendimento acerca das artes produzidas e disseminadas na história e no tempo presente”, explica a professora da rede pública de ensino do estado do Tocantins Erlane Rodrigues. Ela e Araújo são autores do artigo “Avaliação da aprendizagem em artes: um estudo de caso em Tocantins” (2021).

Porém, o professor não deve focar exclusivamente no produto final. “O processo é tão importante quanto, uma vez que nem todo aluno terá habilidades bem desenvolvidas para realizar produtos finais de qualidade. Tal aluno não faz arte, ele se expressa artisticamente”, diferencia a autora do documento do Ministério da Educação “A Avaliação em Artes Visuais no Ensino Fundamental” (2006) Ana Maria Petraitis Liblik.

“Mais do que avaliar o produto final, deve-se priorizar a abordagem triangular de Ana Mae Barbosa: apreciar, contextualizar e praticar”, acrescenta a docente do curso de Artes Visuais do Centro Universitário de Maringá (Unicesumar) Priscilla Campiolo Manesco Paixão.

3) Avaliar o processo exige escuta e sensibilidade

Quando se fala em avaliar um processo e não um produto final, também entram em cena fatores subjetivos como olhar atento e escuta sensível ao desenvolvimento do aluno. “Ou seja, observar como este aluno pensa, cria, interpreta o que foi ensinado, relaciona-se com a arte e também expressa sentimentos artisticamente. Isso pode ser desenvolvido pelo professor”, traduz Paixão.

4) Disponibilize momentos para reflexões

O processo de avaliação em artes também deve conter um momento para o aluno refletir sobre o que criou.“É muito importante, porque as artes são produções humanas que revelam histórias, culturas, memórias e conhecimento de uma nação. Assim, refletir sobre as manifestações artísticas é ampliar o conhecimento cultural que faz parte de nossas vidas, como já dizia a nossa maior referência em arte e educação, a professora Ana Mae Barbosa”, assinala Araújo.“Caso a criança não queira discutir ou mesmo apresentar seu trabalho a outros, isso deve ser respeitado pelo professor”, enfatiza Liblik.

5) Trace objetivos claros

“A avaliação em artes é, antes de tudo, uma avaliação. Assim, o professor precisa ter objetivos claros sobre o que deseja avaliar daquele processo. Se o aluno conseguiu relacionar teoria e prática”, aponta Liblik.

“Burocraticamente, ainda dependemos da nota na escola atual. Se o objetivo era o aluno fazer A e ele fez B, isso também precisa ser computado”, acrescenta. Para Liblik, ter objetivos claros ajuda o professor a avaliar sem considerar o gosto pessoal.

“Posso ter a sensação de não ter gostado do trabalhado e ele merecer uma boa avaliação, da mesma forma como posso gostar do trabalho e este não ter atendido aos requisitos que precisavam ser avaliados”, destaca.“Outro ponto é ter cuidados para avaliar apenas o que foi ensinado”, acrescenta a autora.

6) Registre as produções dos alunos

“Quando se fala em avaliar processo, registrar e documentar o que foi produzido por cada aluno é importante para avaliar o desenvolvimento individual”, diz Rodrigues. Uma opção para registro é a avaliação por portifólio , ou seja, arquivar a produção de alunos em uma pasta individual.

7) Atenção à cópia

A cópia é uma etapa na construção do repertório de artes. “Assim como nas cavernas da pré-história eram observadas reproduções, essas fazem parte do desenvolvimento artístico”, explica Liblik.

“A criança não será capaz de desenvolver uma flor sem repertório. Por isso que se inicia com a observação da flor, uma cópia de observação e outra de memória até ela criar por conta própria”, completa. “A avaliação da cópia, porém, exige cuidado porque ela é um exercício plástico”.

Segundo Paixão, um problema atual é a sobrevalorização da cópia tanto no ensino quanto na avaliação em artes. “Enquanto no ensino de humanidades há o problema do decorar, em artes há a reprodução. Ambos estão enraizados na educação brasileira, que perpetua essa ideia”, alerta.

8) Cuidado na reprodução de padrões

Avaliar por meio da cópia pode fazer o professor repetir padrões que, ao invés de estimular a criatividade da criança, a cerceia. “Presenciei um aluno de educação infantil questionando a professora sobre a cor que deviam pintar a copa da árvore, que os orientou a usarem o verde. Porém, as copas podem ser verdes, amarelas, roxas, brancas e até cinzas”, exemplifica.

9) Pratique o feedback construtivo

Na hora de dar o feedback sobre a produção da criança ou do jovem, Liblik sugere ajudá-los a perceberem quais os pontos em que podem melhorar. “Nunca diga que a produção está feia ou horrível”, alerta.

10) Professor não precisa ser expert para avaliar

O professor não precisa dominar as quatro linguagens artísticas exigidas na educação básica – teatro, dança, música e artes visuais – para ensinar e avaliar em cada uma delas. “O objetivo é aproximar os alunos de cada linguagem. Da mesma forma que, ao trabalhar teatro, não preciso que todos os alunos sejam atores. Alguns deles podem trabalhar na produção, figurino, sonoplastia e afins. Seu envolvimento, desenvolvimento e produção de conhecimento também poderão ser avaliados dependendo da área em que atuaram”, acrescenta Libik.

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