José Pacheco palestra durante a Bett Brasil Educar 2015,
em 21 de maio (Crédito: Leonardo Valle)

Em 1976, o professor português José Pacheco assumia a coordenação da Escola da Ponte, localizada a 30 quilômetros da cidade de Porto. Lá, trocou o tradicional modelo de aulas, provas, turmas e séries por uma experiência de aprendizagem autônoma, onde alunos aprendiam a partir do desenvolvimento de projetos de seu interesse. Conseguiu, como resultado, educar e integrar socialmente jovens violentos e rejeitados por outras instituições.
Quase quatro décadas mais tarde, Pacheco mostra agora que uma nova forma de aprendizagem é possível aos moldes do Projeto Âncora – escola que atende uma área de três favelas em Cotia (SP). “O professor precisa aprender desobedecer responsavelmente – e só se faz isso com um projeto político pedagógico e com uma equipe. Além disso, o professor tem que aprender a desaprender”, ressalta. Veja abaixo entrevista exclusiva concedida ao NET Educação.
NET Educação – Muitos professores gostariam de seguir um modelo democrático de ensino, mas esbarram na burocracia das secretarias de educação. Como proceder?
José Pacheco – As escolas brasileiras não são geridas para a pedagogia, mas pela burocracia. Se o sistema está burocratizado, o que temos que fazer é cumprir a lei. E a lei aponta para muitas pistas de mudanças e condições para mudar, basta olhar o artigo 23 da lei de diretrizes e bases. Agindo de modo pedagógico, baseado na lei e na ciência, a burocracia perde o seu lugar.
NET Educação – Você comentou que é preciso fazer um processo de transição de modelo antigo para algo mais atual. Como pode ser realizado?
Pacheco – Nós temos uma proposta de trabalho. Partimos de um levantamento da situação, dos indicadores que nos apontam como boa qualidade de educação no local. Fazemos um mapeamento do potencial educativo de pessoas e lugares. Estudamos o projeto político-pedagógico da escola e verificamos sua coerência ou não com as práticas. Criamos um núcleo de trabalho dentro da escola, pois não se muda tudo ao mesmo tempo, e fazemos isso respeitando quem não deseja mudar. Por fim, há uma intervenção no chão da sala de aula e na comunidade.
NET Educação – O que temos aqui no Brasil de bom para iniciar uma nova experiência pedagógica?
Pacheco – O brasileiro tem tudo o que precisa, mas não sabe que tem. Temos aqui boa teoria, bons profissionais e bons projetos. Claro que tem muitos ‘falastrões’ por aí, mas eu prefiro ver os bons projetos.
Veja também os comentários de José Pacheco durante a palestra na Bett Brasil Educar 2015, ocorrida na última semana:
Pedagogia para liberdade X resultados nos vestibulares: como conciliar?
Os projetos que participei tiveram essas expectativas correspondidas. Alguns alunos da Escola da Ponte hoje estão com 56 anos. Mas se me perguntar como se consegue isso em uma sala de aula… Em uma sala de aula, não se consegue.
Medo de mudar a forma de ensinar
Pergunto: medo de que? Medo eu tenho desta escola que produz 30 milhões de analfabetos, onde R$ 56 bilhões são desperdiçados por ano na corrupção, no qual apenas um terço dos estudantes consegue reter conhecimentos de matemática. Tenho medo dessa escola que produz corruptos, desonestos e onde as pessoas adoecem. Do novo, eu não tenho medo.
Projeto Escola Ponte no Brasil
As pessoas criaram um mito sobre a Escola da Ponte. Ela era uma escola de sofrimento, eu quase fui assassinado. O brasileiro acha que só que vem de fora é bom. Isso é falso. Temos tudo o que precisamos aqui: teoria e profissionais. Os professores certos, mas trabalhando do modo errado. Quando eu fui à escolinha do Projeto Âncora me perguntaram: você vai fazer uma escola aqui? Com esses professores? Respondi: quem fará a escola são os brasileiros, eu apenas aprendo. E quando começamos algo, partimos daquilo que temos, das pessoas como elas são, não como nós queremos que sejam.
Professores e aprendizado
Os professores do Âncora estavam habituados a obedecer. O professor precisa aprender a desobedecer responsavelmente – e só se faz isso com um projeto político pedagógico e com uma equipe. Além disso, o professor tem que aprender a desaprender.
A comunidade é a escola
Temos dezenas de membros da comunidade trabalhando na escola, porque a escola não é um edifício, mas as pessoas. As pessoas são seus valores. Valores dão origem a projetos político-pedagógicos que levam ao desenvolvimento humano e sustentável, onde todos aprendem e são felizes. A comunidade de aprendizagem já estava anunciada por Lauro de Oliveira Lima em 1962 e é uma das novas construções sociais, porque eu espero que sejam muitas e variadas, adequadas a cada contexto e a cada cultura. Hoje, uma das três favelas, [em Cotia, atendidas pelo Âncora], acabou com o tráfico – que, claro, se mudou para outro lugar. Mas ficou a geração de renda, microempresas, jovens de 15 anos que aprendem e não irão traficar – isso tudo tem lá e não foi preciso sala de aula.
Nova educação
Para uma nova educação é necessária uma nova construção social de aprendizagem. É preciso cuidar das pessoas, o que significa devolver a dignidade profissional que elas não têm. Além disso, precisamos reconfigurar as práticas. Aula é um dispositivo do século XIX e nós estamos no Brasil de 2015. A escola da aula, da turma, da série, do ano, do horário padrão já era. Reconfigurar as práticas é acabar com todo este aparato. Uma escola que diz desenvolver autonomia em sala de aula está cometendo crime de falsidade ideológica. Espanta-me que com tantos Piagets e Vygotskys continuamos a dar aula. Será que as pessoas leem e não entendem?
Diretrizes e professores
Eu fujo quando dizem “escola autoeducativa”, porque cabe tudo lá, sobretudo oba-oba e irresponsabilidades. Estamos agora a fazer uma avaliação dos indicadores de educação de boa qualidade que iremos entregar ao MEC [Ministério da Educação] e gostaríamos de partilhar com as secretarias. A grande contradição que vivemos hoje é que as diretrizes anunciadas não têm nada a ver com a prática. Os indicadores apontam a necessidade de criar protótipos de educação integral dentro do espírito da lei de diretrizes e bases, recorrendo aos vários dos seus artigos. O que descobrimos é que as tarefas do professor serão totalmente diferentes. Temos é que preparar o processo de transição.
Novas tarefas do educador
Não será mais preparar projetos para os alunos, mas conduzir projetos com os alunos. Projetos que desenvolvam currículos que já temos e currículos comunitários, que partam de necessidades individuais e sociais. Professor não existe para planejar aula ou para aplicar prova – que não prova nada. Existe para fazer a mediação pedagógica. Existe para ensinar o outro a pesquisar, a procurar, a selecionar a informação, a comparar, analisar, criticar e comunicar a informação. Processos complexos de pensamento.
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