Após 17 anos ministrando aulas no ensino regular da E. E. Alexandre Von Humboldt, no bairro da Lapa, na cidade de São Paulo (SP), Cláudia Maria Garcia passou a atuar junto com outros 20 professores em escola de tempo integral, após a adoção do novo modelo pela instituição a partir do início de 2012. Com isso, os 405 alunos de primeiros a terceiros anos do ensino médio permanecem na escola por nove horas e meia.

A professora, que leciona a disciplina de língua portuguesa para terceiras séries, do currículo comum, e aula de projeto acadêmico, que faz parte do currículo do integral, também é coordenadora da área de linguagens. Ela falou ao NET Educação sobre as mudanças do modelo implantado na E. E. Alexandre. Há desafios como a falta de orientação e envolvimento da comunidade, além de aprender a lidar com um aluno mais autônomo, bem como benefícios de alunos mais interessados, maior interação entre professor/aluno e corpo docente que falta menos.

“Ministro 16 aulas semanais, todos os dias, no decorrer do período. Mais 20 horas na coordenação”, conta. Durante a disciplina de projeto acadêmico, cabe a professora orientar os alunos com relação às profissões, vestibulares, Enem e estratégias de leitura para as prova.
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NET Educação – Quais foram as principais mudanças desde a transição?
Cláudia Maria Garcia – Antes de 2012, tínhamos período da manhã, tarde e noite, e isso queria dizer três escolas diferentes. O comprometimento de alunos e professores é diferente. Então, essa escola agora está muito próximo daquilo que eu conheci da escola Alexandre enquanto período da manhã. Os alunos voltados para a carreira acadêmica e professores trabalhando em direção a isso, mas não somente. Havia muitas faltas de professores antes e isso desmotivava. Às vezes eram duas ou três por dia e os alunos ficavam no pátio.
NET Educação – Atrapalhava o processo pedagógico?
Cláudia – Quando os alunos voltavam para sala, depois de uma aula vaga, sentíamos uma resistência grande ao processo. Eles ficaram o dia inteiro praticamente sem fazer nada e no momento de aprender, não estão mais dispostos. Isso não acontece mais. Ainda que faltem professores, o número é bem menor. Hoje, se não poderá estar, deixa material para ser trabalhado por outro, na maioria das vezes. O substituo não entra sem objetivo na sala, sem relação com o desenvolvimento de determinada habilidade. Existe um respeito do aluno pelo professor e do professor pelo aluno, coisa que não existe na escola regular. Eu pelo menos não conheço.
NET Educação – A forma com que a coordenação e corpo docente conduzem faz diferença para o aprendizado do aluno?
Cláudia – Trouxe muita força o aluno estar mais em contato com o professor. Cada um de nós tem 18 tutorandos, são alunos de quem cuidamos. Como cuidamos? Se o aluno tem notas abaixo do nível básico, perguntamos o que está acontecendo e o professor vai encontrar caminhos para orientar o tutorando. Isso é muito bom, porque o aluno percebe que tem um alicerce forte do lado dele, tem a quem procurar.
NET Educação – Como é a relação com a comunidade? Tem envolvimento de vários atores, como diz a premissa da educação integral?
Cláudia – A comunidade da Alexandre não é aqui do entorno. Temos muitos alunos de longe. A maior parte vem do bairro Morro Doce, que é perto da [Rodovia] Anhanguera. Sempre tivemos aqui na escola problemas com a comunidade que nunca foi presente. Então, você usa das estratégias para que os pais participem da vida estudantil. Foi instituído o Conselho Participativo.
NET Educação – As atividades são todas dentro do espaço da escola ou desenvolvem no entorno?
Cláudia – A maior parte é aqui dentro. Mas temos algumas saídas. Vamos levar as terceiras séries [do ensino médio] nas Olimpíadas do Conhecimento, [em São Paulo]. Existem passeios que são agendados pela Secretaria da Educação e outros que são pelos professores, quando eles enxergam necessidade para momentos de aprendizagens.

“Quando se abriu esse leque, nem entendemos muito bem o que era.
Mas você sabia que ia ficar mais tempo com o aluno.”
NET Educação – Quais são as dificuldades ainda enfrentadas?
Cláudia – A abertura para um aluno mais protagonista é uma conquista muito grande, mas ela traz alguns problemas. Porque existem ainda aqueles que confundem a liberdade. Acha que porque a educação está centrada neles, então posso chegar atrasado à aula, por exemplo. São poucos, mas existem. Temos que ensinar a lidar com essa liberdade recém-adquirida. A grande maioria não tem essa estrutura. Principalmente, os que entram no primeiro ano. Eles vêm de escolas muito diferentes, chegam aqui e ficam deslumbrados.
NET Educação – O que acredita que está sendo desenvolvido com a escola de tempo integral?
Cláudia – Muitas coisas. Vou me centrar na figura de um aluno crescente, ele está aprendendo a lidar com ele mesmo. Ele segue um caminho, mas alguém o barrou por algum motivo, então ele tenta outro, e ele vai se construindo com as próprias experiências. Vai lidar com os colegas, se é presidente de um dos clubes [uma vez por semana, os alunos se reúnem em clubes com temáticas de interesse sem a presença de professores]. Não é fácil lidar com amigos, porque não escutam o que fala, então ele vai se colocar na posição do professor. São diversos elementos que vão ajudando a formar o cidadão que queremos, esse protagonista que quando chegar lá fora, vai saber se virar, buscar boas escolhas. Essa formação para mim é tudo.
NET Educação – Como são organizadas as “disciplinas” fora do currículo comum?
Cláudia – Em um primeiro momento, não foi fácil. Porque quase que tivemos que adivinhar como seriam as coisas. Hoje, no segundo ano do projeto, muita coisa mudou. Nos perguntamos “qual é a orientação do objetivo dessas disciplinas? É ajudar o aluno a chegar na sua carreira acadêmica”. Tendo o objetivo, sabemos o que buscar. As orientações primeiras às vezes vêm da diretoria, como se fosse um esqueleto. Vamos vendo as necessidades do dia a dia e vamos preenchendo o esqueleto.
NET Educação – Como os alunos entram nesse processo?
Cláudia – Por exemplo, montamos interdisciplinarmente um curso de seis meses que é chamado de eletivas, porque eles quem escolhem. Nesse primeiro momento, usamos os sonhos dos alunos para nos orientar. Eles fazem uma atividade no começo do ano para criar um varal dos sonhos, escrevem o que eles querem em uma folha do papel. Esses sonhos são recolhidos e montamos gráficos a respeito deles. Em um segundo momento, após cursarem as eletivas, avaliam se foi boa ou não. Assim, nos preparamos para o próximo semestre.
NET Educação – Com o novo modelo, o professor precisa cumprir alguns requisitos como ser efetivo, atuar há pelo menos três anos, regime de dedicação exclusiva. E com isso tem um acréscimo de 75% no salário. O que achou?
Cláudia – Quando nos foi proposto isso. Perguntaram se concordávamos com a mudança da escola. As colocações que nos foram feitas com relação à educação foram muito atrativas. Particularmente eu, que já dei aulas muitos anos, não via perspectivas, não via “a educação vai melhorar”. Enxergava só “tenho que fazer o melhor que eu puder, porque não vou conseguir mais que isso”. Quando se abriu esse leque, nem entendemos muito bem o que era. Mas você sabia que ia ficar mais tempo com o aluno, este ia ter mais aulas, e quem tivesse realmente afim, achei que ia ser muito beneficiado, tanto aluno quanto professor. Não vou dizer que os 75% não são chamativos. São sim, porque o salário de professor é muito baixo, isso ajudou, mas a cobrança é muito grande também. Hoje, só acredito na educação baseado em modelo de ensino integral.

 

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