“A escola não tem que ser carrancuda.” (Crédito: Danil Verpa/Folha)

“Para aprender, é necessário fazer perguntas desafiadoras, em busca de respostas com sentido. O que eu chamo de enfrentar as boas encrencas”. Há 30 anos, Tião Rocha está à frente de processos alternativos de educação. Fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) e premiado em 2007 como Empreendedor Social do ano, ele se autodenomina antropólogo por formação e educador popular por opção política. “Romper significa correr o risco de aprender o novo. Vale tudo para ensinar uma criança e evitar a morte cívica dela”, acredita.

Toca o sinal, 50 minutos, toca o sinal de novo, mais 50 minutos… Sai uma turma, entra a outra turma, depois mais uma. Todos andam em fila indiana. Em entrevista ao NET Educação, Rocha fala sobre construir caminhos alternativos ao modelo escolarizado atual, mais focado no ensino popular e com desenvolvimento comunitário a partir da cultura. “As crianças que vão para a escola podem aprender no seu tempo, brincando, de forma alegre e prazerosa? A escola não tem que ser carrancuda.”
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NET Educação – O CPCD fez 30 anos em janeiro. O que de principal vocês aprenderam com as práticas de educação alternativa?
Tião Rocha – Desde a criação, a ideia foi ser um lugar de aprendizagem e nunca abrimos mão disso. O que significa? Para aprender, é necessário fazer perguntas desafiadoras, em busca de respostas com sentido. O que eu chamo de enfrentar as boas encrencas. A primeira pergunta que me fiz, há 30 anos, foi: é possível fazer educação sem escola? Quando se faz uma pergunta, tem que buscar respostas novas.
NET Educação – Qual foi a resposta que obteve?
Rocha – Percebi, por exemplo, que na cidade de Curvelo (MG), haviam muitas crianças e poucas escolas. E a evasão nessas escolas era alta, pois elas não provocam o interesse em estar lá, e os alunos não querem ficar. Quando sentei com outras 26 pessoas para conversar,  percebemos que tínhamos ideias e experiências sobre nosso passado, do que foi nossa educação e que precisávamos aprender a fazer algo novo. Desconstruir toda a lógica pela qual nos ensinaram, a formalidade, a coisa pronta, e criamos uma experiência. Ao final, conseguimos responder: sim, é possível fazer educação embaixo de um pé de manga.
NET Educação – O que é educação para você?
Rocha – Educação é uma coisa que só acontece no plural. Necessário no mínimo duas pessoas. O que essas pessoas têm que estabelecer é a aprendizagem, uma troca do que tem pelo o que não tem. Descobri que é possível fazer educação sem escola, mas os educadores são essenciais. E onde estão? Não estão formando bons educadores. Como podemos fazer? Isso virou um projeto. A pedagogia da roda é uma política pública, foi para 25 cidades, cinco estados e três países [Angola, Guiné-Bissau e Moçambique], além do Brasil.
NET Educação – Vocês trabalham com uma metodologia própria de ensino. Fale um pouco sobre isso.
Rocha – À medida que fomos nos perguntando, levava a uma ação. Foi gerando instrumento de avaliação e monitoramento. Vai consolidando e sistematizando, e construímos pedagogias. A primeira, a pedagogia da roda, trata-se de que tudo começa e termina numa roda. Espaço onde pessoas se olham e não têm quem manda. Todos estão envolvidos na mesma causa, em um processo permanente de diálogo.
NET Educação – Ainda tem a pedagogia do brinquedo.
Rocha – Isso. Próxima pergunta: as crianças que vão para a escola podem aprender no seu tempo, brincando, de forma alegre e prazerosa? Na escola, é uma coisa meio militarizada, uniforme, andar em fila, numa fôrma, essa maluquice. Fomos para o campo, juntei cento e tantos meninos de sete a 14 anos. Fiz a proposta de aprender brincando e todos toparam. Um ainda perguntou “cadê os brinquedos?”. Respondi que não tinha e que no dia em que não conseguíssemos mais construir os próprios brinquedos, eu compraria. Nunca precisei comprar. Eles inventam todos que precisam. Vão desenvolvendo habilidades. Tudo o que ele tem na escola: história geografia, mas também ética, solidariedade… A escola não tem que ser carrancuda.
NET Educação – O que é necessário pensar e ter para o desenvolvimento das formas alternativas de educação?
Rocha – Já sabemos que o modelo da escola não corresponde à necessidade do aluno. Seletivo, excludente e marginalizador. Esse sistema está falido e se mantém. Por que não se sabe fazer outro? Mas tem muita experiência que é possível fazer para uma educação básica de qualidade e para todos. Mesmo a universidade, em termos educacionais, também não saiu da caixa. Romper significa correr o risco de aprender o novo, o não feito ainda. E o que já foi feito pode continuar a ser feito, mas avançando. Temos um mundo conectado e ficamos sabendo de experiências boas a toda hora, no mundo inteiro.
NET Educação – Uma das questões também é valorizar a diversidade cultural brasileira. Por que isso é importante?
Rocha – Isso é o obvio. Já que a identidade do povo é sua marca registrada, sua diversidade. Temos que valorizar, porque somos isso. Se tivéssemos na Finlândia, onde o povo é mais semelhante, seria de outra forma. O problema é quando essa diversidade brasileira é transformada em desigualdade. O diferente você respeita e os desiguais você domina. Há modelos que estabelecem hierarquias: gordos e magros, feios e bonitos, etc. Olhar para o povo com possibilidade rica e única de conviver, aprender e disponibilizar tudo isso, é essencial.
NET Educação – Outra coisa que vocês acreditam é em comunidades educativas. Como elas se dão?
Rocha – Em Moçambique, as pessoas sofrem muito de melancolia. Mas conheci uma comunidade que tinha brilho nos olhos e me contaram que “foi depois da escola”. Era um casebre de pau a pique, de palha, todo mundo sentado no chão. Quem construiu foi o “seu” Antônio, que me contou que precisavam de muita coisa quando voltaram do pós-guerra. Então, começaram a se dividir para reconstruir os espaços. Depois que ele levantou a escola, não tinha professor. Então, foi de casa em casa perguntando: o que o senhor sabe fazer nessa comunidade? Convocou cada um a ensinar o que sabia, plantar em machamba, torrar caju, fazer tecido… Um mês depois apareceu a professora que queria dar aula e não tinham mais horários. “Aprendemos que para educar uma criança, é necessária toda uma aldeia”, ele disse para mim.
NET Educação – E você aplicou isso por aqui?
Rocha – Sim, no Vale do Jequitinhonha, em 2003, pegamos os dados oficiais da [cidade de] Aracuaí, e apenas 3,3% dos alunos que passaram oito anos na escola foram considerados suficientes. Sendo que 60% estavam em um estado crítico, uma massa falida. Então, como fazemos para reverter esse lugar da morte cívica? Juntei nossa turma e criamos uma UTI educacional. Fomos para a comunidade e de porta em porta, perguntar o que o senhor ou a senhora pode fazer para tirar os meninos do lugar? Resultado: todos saíram da insuficiência, aprenderam ler, escrever, e fazer as quatro operações. Vale tudo para ensinar uma criança e evitar a morte cívica dela.
Tião Rocha explicou sobre outras metodologias alternativas de ensino. Saiba mais abaixo:
Pedagogia do abraço – “Surgiu em função de uma experiência com os meninos mais maltratados e marginalizados. Percebemos que os jovens precisavam ter uma discriminação positiva: para quem teve menos na vida, precisávamos dar mais. Ideia do cafuné pedagógico. Porque descobrimos que eles, violentados e marginalizados, nunca tiveram um cafuné na vida. Não sabiam como é bom. Surgiu de uma brincadeira quando falei que só ganharia abraço quem tomasse banho. Os meninos começaram a fazer isso para ganhar o carinho.
Pedagogia do sabão – “Em uma reunião com professoras da rede pública de Curvelo, pedi para trazerem a síntese do projeto pedagógico. De educação ali não havia nada e trouxeram lista do que precisavam. Então, dona Margarida perguntou se eu não ia ajudar em nada com o que necessitavam. Mas aprendeu que podia produzir na escola o que precisava… Por exemplo, sabão. Começaram a fazer e no dia seguinte a comunidade toda estava na porta da escola querendo o produto de limpeza. Em três meses, passaram a produzir 36 itens. Temos mais de duas mil tecnologias de baixo custo.
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