A cozinha afrodiaspórica reúne práticas alimentares desenvolvidas por populações africanas e seus descendentes em diferentes territórios do mundo, especialmente a partir dos processos históricos de deslocamento forçado pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
“Mas não nasceu apenas da dor: é também resultado da inteligência, criatividade, capacidade de transformação e continuidade dos conhecimentos de diferentes povos africanos. Abrange ingredientes, técnicas culinárias, formas de cultivo, modos de conservação, rituais, celebrações, relações comunitárias e maneiras de compartilhar os alimentos”, explica a chef, pesquisadora da culinária da diáspora africana e educadora Aline Chermoula.
Ao ser abordada na escola, a cozinha afrodiaspórica traz inúmeros benefícios: pode ajudar a ensinar diferentes conteúdos curriculares de forma interdisciplinar e sensibiliza estudantes negros sobre as contribuições da cultura afro-brasileira para o país e a nossa sociedade.
“É um universo maior do que pratos e ingredientes. Fala de histórias, deslocamentos, encontros culturais, conhecimentos ancestrais e, sobretudo, de pessoas”.
Em entrevista exclusiva, Aline Chermoula explica os alimentos e as técnicas de preparo ancestrais que podem ser explorados com os alunos, além de apresentar sugestões de temas e de atividades. Confira!

Instituto Claro – Por que é importante que a cozinha afrodiaspórica faça parte da educação?
Aline Chermoula: A comida é uma ferramenta potentes de educação. A criança estabelece relações afetivas com os alimentos: reconhece o cheiro da comida de casa, os sabores preparados pela família, as receitas das pessoas que cuidam dela… Ao levar a cozinha afrodiaspórica para a escola, partimos de algo familiar para apresentar conhecimentos sobre diferentes disciplinas, identidades e relações sociais. Ampliamos as referências sobre a participação das populações africanas e afrodescendentes na formação do Brasil para além da escravização, mostrando que esses povos trouxeram conhecimentos agrícolas, tecnologias, filosofias, práticas alimentares e diferentes maneiras de organizar a vida. Há valorização das diferenças, fortalecimento da autoestima, desenvolvimento da curiosidade, enfrentamento de preconceitos e construção de relações mais respeitosas com nossas próprias histórias. Compreendemos que a história do Brasil também foi escrita pelas mãos de quem plantou, colheu, preparou, vendeu, compartilhou e transmitiu seus alimentos. Ao saber disso, a criança aprende a olhar para as pessoas e o mundo com mais sensibilidade.
A cozinha afrodiaspórica pode contribuir para fortalecer identidades e ampliar a representatividade na escola?
Chermoula: A representatividade começa quando uma criança consegue se reconhecer positivamente naquilo que aprende. É ter nossos conhecimentos reconhecidos como parte fundamental daquilo que constitui a sociedade. Imagine uma criança negra descobrindo que os alimentos preparados por sua avó, família e as tradições de sua comunidade também são conhecimentos importantes, dignos de pesquisa, valorização e reconhecimento? Isso modifica a relação dela com sua própria história.
Muitas vezes, os conhecimentos das populações negras foram tratados como manifestações menores, enquanto outras tradições receberam o reconhecimento de patrimônio cultural, técnica ou ciência. A escola pode contribuir para transformar essa percepção.
Quando apresentamos cozinheiras negras, agricultoras, pesquisadoras, mestres e mestras de saberes tradicionais como protagonistas da história alimentar brasileira, ampliamos as possibilidades de identificação das crianças. E essa experiência não beneficia apenas estudantes negros: todas as crianças passam a compreender que a sociedade brasileira foi construída por diferentes povos, cujas contribuições merecem respeito.
Com quais componentes curriculares ou disciplinas esse tema pode dialogar?
Chermoula: A cozinha afrodiaspórica é naturalmente interdisciplinar. Em história, podemos estudar os povos africanos, o tráfico transatlântico, a escravização, as resistências negras e a formação das culturas alimentares brasileiras. Em geografia, podemos investigar os territórios de origem dos alimentos, as rotas comerciais, os deslocamentos populacionais, os diferentes biomas e as relações entre alimentação e ambiente. Em ciências, podemos trabalhar a biodiversidade, a nutrição, os processos de fermentação, a transformação dos ingredientes e as tecnologias de conservação dos alimentos. Em matemática, as receitas permitem explorar medidas, proporções, quantidades, frações e estimativas. Em língua portuguesa, podemos desenvolver pesquisas, entrevistas, registros de receitas, relatos de memória e narrativas familiares. Em artes, podemos investigar as relações entre alimentação, estética, cerâmica, utensílios, música, celebrações e expressões culturais. Também podemos estabelecer diálogos com a educação ambiental, a agricultura familiar, a sustentabilidade e a educação alimentar e nutricional.
Quais ingredientes presentes no cotidiano brasileiro têm origem africana ou foram ressignificados pelas populações negras ao longo da história?
Chermoula: Os ingredientes também contam histórias de circulação entre continentes. O quiabo possui origens africanas e integra diferentes tradições culinárias brasileiras. O azeite de dendê, obtido de uma palmeira de origem africana, tornou-se um elemento marcante de preparações afro-brasileiras, especialmente na Bahia. O feijão-fradinho está associado a antigas tradições agrícolas africanas, e diferentes variedades de inhame estão presentes em sistemas alimentares de povos africanos.
E há os ingredientes que já estavam presentes no território brasileiro e foram incorporados, transformados ou ressignificados pelas populações negras. A mandioca, de origem sul-americana e vinculada aos conhecimentos indígenas, passou a integrar inúmeras preparações afro-brasileiras, em processos de encontro e intercâmbio cultural.
O mesmo acontece com ingredientes como o milho, as pimentas e o coco, que possuem trajetórias históricas distintas e ganharam novos significados em diferentes cozinhas.
Assim, é essencial não confundir a origem geográfica de um ingrediente com a origem de uma preparação culinária. A riqueza da cozinha afrodiaspórica está justamente em compreender essas relações: o que veio de África, o que já existia nas Américas e o que foi criado a partir desses encontros.
Quais técnicas culinárias e modos de preparo presentes no cotidiano brasileiro têm origem africana ou foram ressignificados pelas populações negras ao longo da história?
Chermoula: As técnicas culinárias representam conhecimentos acumulados ao longo de muitas gerações. Um gesto aparentemente simples pode acumular séculos de aprendizagem. Por exemplo, o uso de pilões para triturar grãos e sementes, os preparos à base de massas de leguminosas, determinadas formas de cocção em folhas, os cozidos coletivos, os processos de fermentação e as técnicas de transformação de cereais e tubérculos.
Muitas dessas técnicas existem em outras regiões do mundo. Buscamos compreender suas histórias específicas, adaptações e os significados que adquiriram nos diferentes territórios. O acarajé, por exemplo, envolve em seu preparo conhecimentos relacionados ao feijão-fradinho, à elaboração da massa e à fritura em azeite de dendê, preservando vínculos com tradições alimentares da África Ocidental.
Também considero fundamentais os modos de cozinhar coletivamente, de transmitir conhecimentos pela observação e pela prática, de reconhecer o ponto de um alimento pelo cheiro, pela textura e pela experiência. Nem todo conhecimento culinário foi historicamente registrado em livros. Muitos saberes foram preservados pela oralidade, pelos gestos e pela convivência. Isso também é tecnologia e conhecimento.
Quais atividades podem ser desenvolvidas com os alunos para trabalhar a cozinha afrodiaspórica na escola pública?
Chermoula: Pode-se desenvolver um mapa afetivo dos alimentos: as crianças investigam de onde vêm ingredientes presentes em suas casas, localizam seus territórios de origem e descobrem como passaram a integrar a alimentação brasileira.
Outra possibilidade é criar um inventário de memórias alimentares. Os estudantes conversam com familiares e pessoas da comunidade sobre receitas, histórias, celebrações e conhecimentos transmitidos entre gerações.
Também podemos desenvolver oficinas sensoriais, apresentando ingredientes como quiabo, dendê, feijão-fradinho, mandioca e diferentes especiarias. A partir do cheiro, da textura, da aparência e, quando possível, da degustação, podemos construir experiências de aprendizagem.
Podemos ainda realizar oficinas de colagem e criação de cartazes para que as crianças expressem visualmente o que aprenderam sobre os alimentos e suas histórias.
Vale envolver as merendeiras e os profissionais responsáveis pela alimentação escolar, que possuem conhecimentos que podem enriquecer o processo educativo.
O que é importante o professor saber sobre cozinha afrodiaspórica?
Chermoula: Saber reconhecer os conhecimentos produzidos pelas populações negras, o protagonismo feminino em preservar e transmitir esses conhecimentos e compreender a cozinha afrodiaspórica como uma cultura viva.
Ao falar sobre alimentação africana e afro-brasileira, muitas vezes nosso olhar se volta ao passado, como se esses conhecimentos pertencessem apenas à história. Mas essa cozinha está viva, nas casas, terreiros, comunidades quilombolas, feiras, mercados, cozinhas profissionais, escolas e experiências gastronômicas contemporâneas. Outro ponto essencial é não tratar a África como se fosse um único território cultural. Estamos falando de um continente imenso, com diferentes povos, línguas, histórias, sistemas alimentares e tradições culinárias. Precisamos apresentar essa diversidade às crianças, evitando simplificações.
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Crédito da imagem: baleia – Getty Images