Associar a química à festa junina permite aproximar o conhecimento científico da realidade cultural dos estudantes. “As festas juninas no Brasil têm uma dimensão lúdica e afetiva forte, envolvendo música, dança, culinária, convivência e memórias familiares. Partindo desse universo, a aula de química deixa de ser percebida como algo distante”, justifica a docente na área de físico-química da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Karen Weber.

Um dos elementos que podem ser explorados com alunos do segundo ano do ensino médio é o milho, ingrediente de comidas típicas juninas como pamonha, canjica, mungunzá, bolo de milho e nas versões cozida e assada.

“A partir dele, é possível discutir pressão e temperatura no cozimento, funções orgânicas e moléculas biológicas em sua composição nutricional, além de temas como agricultura, uso de agrotóxicos, engenharia genética, alimentação saudável e prevenção de doenças. Portanto, o milho funciona como um eixo articulador entre conteúdos curriculares, cultura regional, economia local e questões sociais relevantes”, resume Weber.

Química do milho

Em sequência didática aplicada em uma escola estadual de João Pessoa (PB), em contexto do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), Weber, que orientou o trabalho, relata que foi discutida a importância cultural e socioeconômica das festas juninas como primeiro passo. Na sequência, foi abordada a importância do milho na alimentação, com foco em aspectos nutricionais e no preparo.

“Na etapa de organização do conhecimento, os conteúdos químicos foram trabalhados a partir das questões levantadas pelos próprios estudantes. Muitos já sabiam, pela experiência cotidiana, que o alimento cozinha mais rapidamente na panela de pressão, mas sem conseguir explicar cientificamente esse fenômeno. A partir dessa situação cotidiana, foi possível discutir a relação entre pressão e temperatura, o comportamento do vapor de água em um sistema fechado, as mudanças de estado físico e o conceito de ponto de ebulição”, complementa.

Ela explica que, na panela de pressão, o vapor fica parcialmente retido, aumentando a pressão interna. Com isso, a água não entra em ebulição a 100 °C, como ocorre em condições normais de pressão atmosférica, mas atinge temperaturas mais elevadas. “Essa elevação da temperatura acelera as transformações físicas e químicas envolvidas no cozimento do milho, tornando o processo mais rápido”, destaca.

“Além disso, a presença de solutos, como sal e açúcar, pode alterar propriedades da água, modificando seu comportamento durante o aquecimento”, acrescenta.

Já as funções orgânicas e moléculas biológicas foram trabalhados a partir da composição química do milho, como a presença de carboidratos, proteínas, fibras, vitaminas e sais minerais.

“Também utilizamos modelos moleculares do tipo bola e vareta para ajudar os estudantes a visualizarem as estruturas. Isso foi importante porque muitos alunos ainda não tinham familiaridade com representações tridimensionais das moléculas”.

Já a engenharia genética foi trabalhada a partir da curiosidade dos estudantes sobre o milho modificado. “A discussão permitiu diferenciar, em linguagem acessível, o melhoramento genético convencional, o milho geneticamente modificado e o milho transgênico. Com isso, os estudantes puderam perceber que a produção de alimentos envolve conhecimentos de química, biologia, geografia e tecnologia, além de escolhas sociais e econômicas”, lembra Weber

Fogos artifícios

Outros elementos da cultura junina que pode ser estudado no ensino médio são os fogos de artificio, como aponta a professora de química Ana Paula Ferreira.

Em sequência didática com o ensino médio, a docente trabalhou modelo de Bohr, transição eletrônica, emissão de fotons e composição de sais metálicos. Para isso, utilizou dois experimentos: teste de chamas e produção de pólvora

“Iniciamos a sequência didática com uma linha do tempo, desde a criação dos primeiros fogos de artifício até a atualidade com foco na sua presença nas comemorações de São João. No segundo momento, fizemos uma demonstração de como compor a pólvora, com enxofre, carvão ativo e nitrato de potássio. Em seguida fizemos uma pequena demonstração de como ela reage com o fogo. Através do experimento das chamas, utilizamos sais metálicos das cores que são vistas nos fogos, vermelho, verde e azul”, compartilha.

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