Páscoa, Festa Junina e Natal são celebrações de origem católica que acontecem em escolas de diferentes redes públicas e que podem excluir estudantes e familiares que pertencem a outras religiões, gerando discussões.
Para o graduado em Ciências da Religião e doutor em Educação Elcio Cecchetti, o primeiro passo é entender a importância das festas. “Os grupos humanos sempre as elaboraram para marcar momentos especiais, dar sentido à vida e fortalecer os laços de pertencimento. Na escola, elas têm um valor formativo: reunir as crianças em torno de uma vivência coletiva, criar memória afetiva, exercitar a cooperação e a construção de um sentimento de comunidade”, lista ele, que foi um dos redatores do currículo do ensino religioso da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
No contexto brasileiro, o pedagogo e livre-docente em ciências da religião Sérgio Rogério Azevedo Junqueira lembra que as festas escolares tiveram início no período de Getúlio Vargas (1930 a 1945 e 1951 a 1954) como forma de reforçar valores considerados importantes pelo Estado.
“Antes da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), as festas religiosas refletiam uma perspectiva considerada hegemônica. Após, assumem um caráter mais pedagógico, como forma de desenvolver conteúdos previstos no currículo escolar”, complementa.
Mas por que as festas católicas na escola? O motivo é que o calendário civil é repleto de feriados de matriz cristão-católica. “Sua presença na escola não é neutra ou casual, mas herança de um processo histórico. Porém, o Brasil também é, desde a República, um Estado laico”, contrapõe Cecchetti.
Celebrar ou não festas religiosas?
Para Junqueira, em um Estado laico, tecnicamente, não deveria haver celebrações religiosas, como Natal e Páscoa nas escolas públicas. “Essas datas representam elementos centrais da teologia cristã. É um equívoco a escola oferecer uma atividade de caráter confessional que pode levar à exclusão de estudantes”.
“A laicidade não significa ser contra a religião, mas garantir o acolhimento da diversidade religiosa. Assim, se a escola opta por celebrar uma religião, tem que abrir espaço para as festividades de todas”, descreve.
“O papel da escola seria estudar a festa, não celebrá-la. Conhecer e respeitar as diferentes manifestações religiosas, especialmente as tradições do território e daqueles que integram a comunidade escolar”, opina Junqueira.
Opinião semelhante à de Cecchetti. “Uma coisa é a escola promover a Páscoa como ato de fé; outra, muito distinta, é estudar a Páscoa como fenômeno cultural e religioso. A primeira postura é proselitismo, vedado na escola pública. A segunda é educação”, enfatiza Cecchetti.
“A chave está em mudar o verbo: em vez de ‘celebrar’, ‘estudar’; em vez de ‘professar’, ‘conhecer’. A escola pode estudar a origem dessas festas, mostrar como elas se transformaram ao longo do tempo, revelar seus elementos de sincretismo e, sobretudo, colocá-las lado a lado com as festas e celebrações de outras matrizes — indígena, africana, oriental e semita — e também com a experiência de quem não professa religião alguma”, adiciona.
Para Cecchetti, quando a escola organiza uma comemoração religiosa como se fosse a experiência de todos, coloca a criança que não compartilha daquela fé diante de uma escolha injusta: ou participa de algo que contraria suas convicções e as de sua família, ou se retira e fica marcada como ‘a diferente’. Isso gera constrangimento, sofrimento, baixa autoestima, exclusão e desigualdade”.
Ele ainda aponta equívocos quando a escola opta por essas celebrações. “Confundir-se com um espaço de culto; reproduzir automaticamente um costume sem contextualizar sua origem e significados, ou seja, não tratar a festa como elemento de aprendizagem; e, por fim, reduzir a ‘solução’ à dispensa do aluno”.
Possibilidades pedagógicas
Ao tratar a Páscoa, o Natal ou as Festa Junina, a escola pode apresentá-los explicitamente como manifestações de uma tradição específica — a cristã-católica — que tem história, símbolos e significados próprios e que convive com muitas outras tradições no Brasil.
“Concretamente, isso significa nomear a origem da data, mostrar suas transformações ao longo do tempo, evidenciar seus elementos de sincretismo e, no mesmo movimento pedagógico, abrir espaço para que as crianças pesquisem e apresentem as festas e celebrações de suas próprias famílias e comunidades”, resume Cecchetti.
“Assim, o estudante de tradição católica vê sua festa reconhecida, mas como uma entre várias; e o estudante de outra tradição — ou de nenhuma — vê a sua também contemplada. A mensagem implícita deixa de ser ‘esta é a nossa festa’ e passa a ser ‘estas são as muitas formas pelas quais os seres humanos celebram e dão sentido à vida’”.
A seguir, Cecchetti aponta possibilidades de abordagem em relação às três principais comemorações católicas que geralmente aparecem nas diferentes redes públicas.
Páscoa
Em vez de reduzi-la ao coelho e ao chocolate — camadas comerciais e folclóricas posteriores —, a escola pode investigar suas várias dimensões.
“Há a Páscoa judaica (Pessach), com seu sentido de libertação e travessia, anterior e distinta da cristã; há a ressignificação cristã; e há os símbolos de fundo agrário e de renovação da vida, ligados à primavera no Hemisfério Norte, que ajudam a entender por que tantos povos antigos marcavam essa época do ano”.
“A partir daí, abrem-se atividades ricas: estudar como diferentes tradições tratam os temas da renovação, da passagem e da esperança; pesquisar a origem dos símbolos; e discutir, com os mais velhos, como a indústria e o comércio se apropriaram da data. O objetivo é que a criança perceba a Páscoa como um fenômeno cultural complexo”, recomenda.
“Também é uma boa ocasião para reconhecer, com respeito, que há famílias e tradições religiosas que não celebram a data — e que essa diferença igualmente merece valorização”.
Festa Junina
Segundo Cecchetti, são uma boa oportunidade para evidenciar o sincretismo da cultura brasileira. Embora hoje estejam associadas aos santos católicos — Santo Antônio, São João e São Pedro —, elas têm raízes em antigos cultos agrários ligados ao solstício e às colheitas, anteriores ao cristianismo, que foram incorporados ao calendário eclesiástico. “Mostrar isso às crianças é evidenciar como as culturas se misturam, se reinventam e se reaproveitam”, afirma Cecchetti.
Pedagogicamente, é possível explorar a dimensão regional e popular: as variações da festa pelo Brasil, as comidas típicas e sua relação com a colheita, as músicas, as danças e o vocabulário.
“Dá para envolver as famílias e as lideranças da comunidade numa pesquisa sobre as festas populares e religiosas locais. E dá, ainda, para discutir criticamente como os setores turístico e hoteleiro e o poder público se apropriam dessas comemorações para ampliar a lucratividade. Com os estudantes mais velhos, é possível debater problemas sociais que rondam as festas, como o consumo de álcool e outras questões de saúde e segurança”, lista.
Natal
A escola pode estudar o significado da data para o cristianismo, mas também situá-la entre as muitas festividades de fim de ano e de “luz” que diferentes povos celebram nessa época — cada uma com seus símbolos e sentidos. “Isso descentra o Natal sem desrespeitá-lo: ele aparece como uma tradição importante entre outras”, diferencia.
Para Cecchetti, em vez de uma encenação religiosa que pressupõe a adesão de todos, é mais inclusivo trabalhar os valores amplos que a data costuma evocar — solidariedade, generosidade, encontro, partilha — articulando-os com ações concretas da turma e da comunidade.
“Pode-se pesquisar como o Natal é vivido em diferentes culturas e famílias, comparar tradições, examinar os elementos que vieram do folclore e os que vieram do comércio. E, novamente, é essencial acolher com naturalidade as crianças cujas famílias não celebram o Natal, garantindo que também tenham voz e lugar na conversa”, finaliza.
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