Orixás são deuses das religiões de matriz africana que representam e estão vinculados a elementos da natureza. Professor de geografia da rede estadual de Goiás, Wellington Gabriel de Borba explica que essas divindades são caracterizadas negativamente em virtude do racismo.

“O racismo no Brasil é direcionado às pessoas negras e às heranças culturais que elas trouxeram da África. Os orixás são alvos por serem deuses de religiões africanas, portanto o racismo se volta contra eles com desinformação, falsas qualidades, demonização etc.”, descreve.

Tal preconceito também pode se manifestar na comunidade escolar, como aponta o professor. “Como socialmente há discriminação contra as religiões de matriz africana, e aos orixás por extensão, muitos estudantes trazem isso para escola, assimilando orixás como entidades ruins, fazendo piadas e colocações desrespeitosas e, assim, intimidando colegas que são adeptos das religiões afro-brasileiras”, lembra.

Potencial pedagógico

Autora do livro “Exu foi para a escola”, a socióloga Isabel Cristina dos Santos explica que trazer a mitologia dos orixás nas aulas ajuda a trabalhar a tolerância religiosa e o racismo religioso com estudantes.

“Conseguimos desenvolver competências como empatia e respeito, além de promover a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas”, complementa.

Mesma opinião da doutoranda em artes Lia Franco Braga, que vê o racismo manifestado pela demonização dos orixás como uma herança da escravidão e da colonização.

 “Para além da vinculação religiosa, os orixás expressam aspectos culturais da população afro-brasileira. A mitologia mostra que esses deuses e deusas experienciaram desafios, aventuras, mistérios e sentimentos como amor, raiva, tristeza, entre outros”, explica.

Para completar, Borba lembra que a mitologia dos orixás também pode ser associada a conteúdos curriculares. “Justamente porque cada orixá se relaciona com elementos da natureza, como o clima, a vegetação, os rios, os mares e praias”, pontua.

Lidando com preconceitos na escola

Braga explica que o preconceito contra orixás na escola pode se dar por uma ideia de soberania religiosa. “Como se a religião de uma pessoa fosse melhor do que a dos outros”, lembra.

Caso isso aconteça, Borba sugere lembrar pais e responsáveis da importância da Lei nº 10.639/2003 e que não se trata de impor uma religião, mas de abordar a cultura de um povo que constituiu o Brasil.

“Citaria que estudamos na escola a mitologia grega, as características daqueles deuses, sem por isso abandonar ou acreditar menos na religião que se pratica”, aconselha.

Segundo ele, como os próprios pais também podem ter perspectivas distorcidas sobre religiosidades afro-brasileiras, é preciso dialogar com calma e tempo. “Não é uma coisa para conversa rápida”, diz.

“Vale ainda reafirmar que conhecer outras culturas faz com que os alunos, no futuro, tenham uma postura mais tolerante e respeitosa às diferenças das pessoas”, completa.

Conheça três relatos de atividades e projetos pedagógicos que tiveram a mitologia dos orixás como pontos de partida.

1) Contos dos orixás para explicar bacias hidrográficas em geografia

“Em geografia, os contos dos orixás fornecem representações a respeito da África, como paisagem, guerras, valores e culturas de povos ancestrais. Também ajuda a tratar temas transversais, como meio ambiente, tolerância, cultura de paz e cidadania”, lista Borba, que utilizou a mitologia dos orixás para ensinar sobre bacias hidrográficas para o 7º ano do ensino fundamental.

“Como bacia hidrográfica é um tema cujo ensino dos conceitos, a princípio, não precisa ficar atrelado a um território específico, como o Brasil, fiz o ajuste para ensino do conteúdo a partir da África”, descreve.

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Lia Franco Braga (crédito: Lanna Beauty)

“Os contos sobre orixás eram transmitidos oralmente, e muitos remetem aos rios africanos, o que chama a atenção dos alunos. Pode-se discutir pontos como: o rio do conto existe? Onde ele fica? O quão grande é ele? Qual sua importância para os povos africanos, ancestrais e modernos? Quais são os seus afluentes? De onde eles partem?”, sugere o professor.

“Além disso, os alunos terão a curiosidade de saber o que é um orixá, qual o contexto espacial e cultural retratado no conto, em que isso se relaciona com a realidade dele”, completa.

Em suas aulas, Borba usa os contos “Otim esconde que nasceu com quatro seios”, sobre a origem do rio Otim e da montanha Oque; e “Oia transforma-se no rio Niger”, por meio do qual aborda os países africanos banhados por essa bacia hidrográfica. Ambos os textos são encontrados no livro “Mitologia dos Orixás”, de Reginaldo Prandi.

Segundo o docente, os contos devem ser entendidos como uma obra de arte e ficção, e, a partir deles, o professor pode trazer dados da realidade. O conto sobre a princesa Otim, por exemplo, integra a cultura criacionista do povo yorubá.

“Por meio dele, abordamos a tradição oral a respeito da origem do Rio Níger, elementos da paisagem africana, as funções do Rio Níger e dos rios que compõe sua bacia e relações com os rios brasileiros”, resume.

2) Análise da obra de Carybé em artes

Santos relata no livro “Exu foi para a escola” uma atividade interdisciplinar de artes e sociologia da professora Maria José de Souza, na qual os alunos do ensino médio se inspiraram na obra do artista Carybé para criar seus próprios desenhos de orixás.

Carybé foi um artista argentino naturalizado brasileiro que se dedicou a criar diversas representações visuais dos orixás, das religiões afro-brasileiras e das tradições culturais da Bahia.

“Carybé tem uma obra vasta, na qual percebemos a ideia de valorização das expressões da cultura afro-brasileira. O trabalho com as telas dele objetivou mostrar a visão positiva que o artista teve, combater a intolerância e proporcionar a melhor compreensão a respeito da cultura negra e de suas diferentes manifestações”, explica Santos na dissertação “O que exu tem a ver com a escola” (2016).

Carybé criou a Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé, que se tornou um repertório de imagens dos ritos afro-brasileiros.

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Lia Franco Braga (crédito: Malvinier Macedo)

“Os alunos reproduziram as telas do artista após diversas aulas sobre as diferentes formas de racismo que os negros sofrem no Brasil desde a época da colonização, visando desconstruir estereótipos. Além disso, destacou-se também os direitos civis, políticos e sociais dessa população”, aponta Santos.

3) Dança e contação de histórias no ensino fundamental I

Lia Franco Braga utiliza contação de histórias sobre os orixás e dança com alunos da educação infantil e do ensino fundamental I.

Ela apresenta a história e características de alguns desses deuses e deusas acompanhada de bonecos, além de explorar o álbum “Ciranda dos Orixás”, do grupo Tempo de Brincar

Já na parte das danças, ela sugere às crianças a criarem movimentos a partir dos elementos da natureza associados a orixás como Iemanjá (mar), Ogum (ferro), Oxum (cachoeiras), Oxóssi (matas), Iansã (tempestade) e Xangô (pedras).

“É possível trabalhar aspectos relacionados a espacialidade, sobre como esse corpo se relaciona com o espaço, e os movimentos dos orixás que remetem a elementos da natureza. Yemanjá pode ser representada por movimentos que lembram as ondas”, apresenta.

Ela ainda apresenta diferentes ritmos e sonoridades associados a cada orixá por meio do álbum “Cantigas e Ritmos dos Orixás”, de Jorge Alabe. “Por exemplo, Ijexá é um ritmo associado à Oxum; Ilú à Iansã e Vassi a Exu”, detalha.

“Assim, é possível trabalhar o corpo em ritmos e velocidades diferentes, além de giros, saltos, movimentos expansivos e retraídos”, acrescenta.

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