O jogo de búzios é uma manifestação importante do candomblé, religião de matriz africana trazida ao Brasil provavelmente por pessoas traficadas da região da Nigéria e República do Benin, durante o período da escravidão. “Os búzios são conchas marinhas encontradas em diversas regiões do mundo. No culto, servem como uma espécie de portal de comunicação entre o mundo material (terra, aiye) e espiritual (céu, orun)”, explica o professor de matemática Fabrício de Souza de Oliveira, que usa o jogo em sala de aula para explicar probabilidade e análise combinatória para o ensino fundamental.

As conchas usadas no jogo de búzios recebem um corte longitudinal na parte convexa. O ritual consiste em fazer uma pergunta e jogar 16 delas sobre uma mesa. A quantidade de conchas que caírem abertas (parte côncava quebrada) ou fechadas (parte côncava inteira) é analisada para compor uma resposta.

Na escola, o jogo pode ser usado para diferenciar os conceitos de combinação e arranjo, por exemplo. “Quando a ordem em que os búzios caem não importa, isso é chamado combinação. Caso estes sejam diferentes, numerados e se cada ordem gerar uma interpretação diferente, isso é arranjo”, explica a líder do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Tendências da Educação Matemática e Cultura (GEPTEMaC), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Zulma Elizabete de Freitas Madruga.

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O jogo também ensina probabilidade, elementos de contagem e simetria. “Apesar de probabilidade estar no currículo do sétimo ano, ideias sobre o tema podem ser introduzidas nas séries anteriores”, recomenda Madruga. “Já em termos de interdisciplinaridade, a aula pode ser associada a conteúdos de história do Brasil e geografia”, complementa Oliveira.

Diversidade em números

O jogo de búzios ajuda a trazer a história e a cultura afro-brasileira e africana para uma aula de ciências exatas. Conhecimentos que são obrigatórios na educação básica, como aponta a Lei 10639/03. Para os alunos, vale ressaltar a ancestralidade e a tradição por trás do jogo. “Seus estudos são transmitidos de forma oral, dos mais velhos aos jovens, valorizando os antepassados e os mais experientes”, pontua Oliveira.

O professor ainda lembra que os seguidores do candomblé são povos monoteístas, cultuando apenas um Deus, chamado Òlorúniv. “Cultuam e adoram os Orixás, que são divindades que representam as forças da natureza”, diferencia. Além disso, na cultura africana, possuem um significado místico. “Acredita-se que, por serem trazidos pelas ondas, eles tenham a energia de água, céu e terra”, apresenta Madruga.

Segundo a professora, o tema ainda ajuda a prevenir preconceitos contra religiões afro-brasileiras, tais como candomblé e umbanda. “Quando o professor apresenta e discute a importância cultural do jogo de búzios, este se torna instrumento de combate à intolerância religiosa”, destaca.

Valorização da diversidade cultural, respeito às diferenças e cultura de paz são temas para abordar em aula, com o professor atuando como mediador. Contudo, devido ao racismo estrutural, estudantes e responsáveis podem demonstrar preconceito e desconhecimento sobre religiões de matrizes africanas. Assim, também é importante que o professor esteja atento para poder dialogar e conscientizar a comunidade. “A escola é o lugar para abordar esses temas, a relevância das diferentes culturas e respeito ao próximo. Não precisamos ser adeptos de candomblé para respeitarmos e entendermos a importância desta religião, assim como das demais”, reforça Madruga.

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Material complementar

Como apoio didático para uso do jogo de búzios na aula de matemática, os pesquisadores indicam o vídeo “A cartomante” que, de forma similar, introduz a análise combinatória a partir do jogo de cartas. Já para o professor se aprofundar no tema, há o vídeo “Os búzios sob o olhar da Etnomatemática” e um artigo científico sobre a relação dessa tradição com o sistema binário. Outros textos acadêmicos recomendados pelos professores são “Etnomatemática e candomblé: a mística numérica por trás dos ritos” e “Ciência e religião: a matemática no jogo de búzios” .

Veja mais:

7 livros para entender a etnomatemática

Como lidar com casos de racismo entre alunos?

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