O Plano Real, responsável por controlar a hiperinflação herdada da década de 1980, completa 30 anos em 2024. Esse sistema monetário nacional foi lançado em 1994 pela equipe econômica do governo Itamar Franco.

“O Plano Real tinha como objetivos estabilizar a economia, controlar a inflação, restaurar a confiança dos agentes econômicos, promover um crescimento sustentável e integrar o Brasil à economia global”, lista o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Elton Eduardo Freitas.

“As gerações mais novas não lembram que a hiperinflação chegou a 40% ao mês e três mil por centro ao ano”, destaca a docente do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Márcia Batista da Fonseca.

O professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Paulo Roberto Feldmann lembra que o contexto político e econômico do país na implementação da iniciativa era desafiador.

“O Brasil tentou por anos planos que deram errado e pioraram a economia. Havia um descrédito da população que venceríamos a hiperinflação, que era uma realidade em outros países da América do Sul, como na Argentina”, contextualiza.

“No campo político, vínhamos do regime militar, que deixou dívida externa. O primeiro presidente por voto direto, Fernando Collor de Mello, havia sido caçado por corrupção, havia aumentado o déficit público, e tudo isso criava instabilidade e afastava investidores”, emenda.

“Para completar, quem mais sofria com a inflação eram os mais pobres, e tínhamos altos índices de miséria”, lembra Feldmann.

Moeda de transição

O então presidente da república Itamar Franco criou uma equipe econômica com Pérsio Arida e André Lara Resende, chefiada pelo então ministro da Casa Civil Fernando Henrique Cardoso (FHC).

“Os diferenciais do Plano Real foram: não congelar preços, o que outros planos tentaram antes; a criação da Unidade Real de Valor (URV), que foi genial”, opina Feldmann.

Ele explica que a URV funcionava como uma moeda virtual: o dinheiro que circulava era o cruzeiro real, mas os preços das mercadorias foram fixados em URV. Cada URV correspondia a 2.700 cruzeiros reais, e os consumidores usavam uma tabelinha de conversão.

“A URV foi utilizada como um indexador para substituir a moeda ruim por uma nova, ancorada, estável e livre da inflação”, resume Fonseca.

“Ela permitiu a indexação de preços e contratos de forma mais estável, preparando o terreno para a estabilização”, analisa Freitas

Segundo Freitas, apesar do Plano Real não ter sido diretamente inspirado por iniciativas internacionais, incorporou princípios de estabilização econômica utilizados em outros contextos, como a âncora cambial e a moeda de transição

“Experiência similar havia sido vista na Alemanha dos anos 1920, que vivia hiperinflação e tentou uma experiência com duas moedas simultâneas”, compartilha.

Com o passar dos meses, os cruzeiros reais foram abandonados e a URV se tornou apenas “Real”. “O Banco Central estipulou que um real correspondia a um dólar, e passamos a ter um câmbio ‘um para um’ naquele momento”, conta Feldmann.

Diminuição da miséria foi ponto positivo

Segundo Feldmann, o controle da inflação foi rápido e garantiu a Fernando Henrique Cardoso credibilidade para, seis meses depois, concorrer e ganhar as eleições presidenciais de 1994.

“O Plano Real reestabeleceu a confiança do povo na economia e nos dirigentes, um fator igualmente fundamental no combate da inflação porque as pessoas passam a consumir mais, há mais investimentos no país e tudo isso gera empregos e estabiliza a economia”, justifica.

“Além disso, a estabilização econômica permitiu a criação de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, e aumento do salário-mínimo, ambos no governo Lula”, cita o economista.

Para Fonseca, além de controlar a inflação, a redução da miséria foi um ponto positivo do Plano Real.

“A inflação é a doença da moeda, representa a perda do poder de compra. O maior impacto  do Plano Real foi restabelecer em ganhos reais o poder de compra da moeda para a população e reduzir a miséria”, aponta.

“Antes da implementação do Plano Real, 35% da população brasileira era considerada miserável. Dez anos depois, o percentual caiu para 22% segundo dados da PNAD/IBGE”, compartilha a economista. 

Encolhimento da indústria foi efeito colateral

Feldmann explica que, para que a moeda continuasse forte, era necessário aumentar a entrada de dólar no país.

“Isso foi feito de duas formas: redução de imposto de importações, abrindo o mercado brasileiro para produtos importados, e aumento da taxa de juros para que investidores estrangeiros quisessem investir no Brasil. Estes podiam investir na bolsa de valores, no Tesouro Nacional, entre outros”, relata.

No primeiro caso, o economista explica que o efeito colateral foi a desindustrialização do país, hoje considerado um produtor agrícola.

“Isso porque o custo de produzir artigos industriais no Brasil, seja pelo custo da energia ou tributação, é alto, e esse empresário não tem como concorrer com o preço de produtos importados”, descreve. “Ano passado [2022], o Banco Mundial colocou o Brasil como o país que mais se desindustrializou em 30 anos, seguido da Argentina”, pontua Feldmann.

No caso dos juros altos – ainda praticado no país –, Feldmann explica que comprar títulos do governo pode render mais para um empresário do que ele investir esse dinheiro em compra de maquinário, que geraria empregos.

“Nossa Selic [taxa usada no rendimento dos títulos públicos] é hoje de aproximadamente 14% [11,75% em dezembro de 2023] e já chegou a 70%. Essa alta taxa de juros vai inibir investimentos do empresariado na indústria”, explica.

Para Fonseca, a desindustrialização impactou negativamente na geração de empregos e no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

“Apesar do controle inflacionário e da criação de uma moeda estável, tivemos um crescimento médio da produção nas quase três décadas subsequentes (1994-2023) de 1% ao ano, enquanto nações como China e Índia chegaram a crescer acima dos dois dígitos ao ano”, compara.

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