Leonardo Valle

O endividamento ocorre em todas as etapas de vida. Contudo, algumas características da atual geração de jovens poderia deixá-la mais vulnerável a perder o controle da carteira. Essa é a opinião da doutora em sociologia e pesquisadora de práticas populares de consumo, Claudia D’Ipolitto de Oliveira Sciré.

“Há 20 anos, havia pouco acesso a bens de consumo, a créditos e financiamentos. Ou seja, vivemos hoje outro contexto. Ter cartão de crédito, de lojas, por exemplo, exige um controle de anotar gastos e fazer planilhas, que o adolescente nem sempre tem”, explica.

“Esse jovem também teve mais acesso ao ensino superior que seus pais, e a educação financeira não veio de berço. A prática não é comum em todas as faixas etárias e ele precisou aprender sozinho. Em muitas casas, ele é a pessoa de referência em termos de estudo”, aponta.

Lazer pelo consumo

Se esse público já possui um perfil mais vulnerável, a situação pode se agravar quando ele é morador de localidades periféricas. “Na nossa sociedade consumista, o lazer é vinculado ao comprar. Na periferia, isso é mais complicado porque essa população é privada do acesso a outras formas de lazer em relação aos habitantes do centro. O consumo se torna uma alternativa e o crédito mais fácil estimula a empolgação para se ter bens que, até pouco tempo, eram inalcançáveis”, analisa a pesquisadora. “Durante pesquisa, entrevistei jovens da periferia que relatavam gastar boa parte do salário do mês em um único final de semana com baladas, bebida ou compra de roupas.”

Sciré também enxerga o endividamento bem distribuído em todas as faixas de renda. Entretanto, nas classes mais ricas, ele tende a se mascarar. “Se a pessoa se endivida, pode ter outras fontes de renda ou pedir ajuda a um pai, mãe ou parente. Isso é mais difícil nas classes com menor poder aquisitivo. Quem tem menos está propenso a se endividar mais”, compara.

Canais de diálogo

Para melhorar essa realidade, a socióloga defende a educação financeira como conteúdo curricular nas escolas e abrir canais de comunicação que falem a língua da atual geração.

“Todo aprendizado precisa aproximar a pessoa do seu contexto de vida, para desenvolver uma conexão com o assunto. Não é uma relação prévia ou construída de antemão. O adolescente precisa entender, aos poucos, a importância da economia na sua vida”, indica.

Além disso, ela vislumbra o engajamento de jovens da periferia com ações comunitárias e nos assuntos de igualdade racial e de gênero como fatores importantes para boas práticas financeiras. “Indiretamente, eles começam a repensar seu lugar no mundo, a reivindicar direitos, a novas formas de lazer, a ter acesso a espaços da cidade em que eram excluídos”, aponta.

Explicar economia na linguagem “da quebrada” é o objetivo do programa Guetonomia, do canal no YouTube “Por quê – Economês em Bom Português”. O movimento é formado por acadêmicos e jornalistas e visa disponibilizar conteúdo sobre o tema, de forma didática, para várias populações.

“O que acontece é que a economia é essa coisa maluca que afeta a vida das pessoas diariamente. Mas muitos não acessam o conhecimento porque os profissionais da área lançam mão de um vocabulário cheio de particularidades”, justifica o economista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Mauro Rodrigues. “Explicar isso ao jovem é importante inclusive para o momento de eleições, onde a tomada de decisão precisa ser respaldada pelo entendimento no assunto”, destaca.

Mauro apresenta o Guetonomia ao lado dos rappers Denise Alves e Rafael Gomes. Os vídeos tratam de temas como restrições, bolsa de valores, juros, comércio exterior, entre outros. “Começamos explicando conceitos da economia e nosso objetivo, agora, é aprofundar ainda mais a educação financeira”, adianta.

Quando bem orientado, o jovem pode replicar os conhecimentos que aprendeu. “Como em muitas casas ele é a figura referência de estudo, tende a ajudar a educar quem está em seu entorno”, enfatiza a socióloga.

Aplicativos de gastos pessoais podem, ainda, ajudar os jovens a controlar as finanças. Sciré e Rodrigues indicam o Guiabolso.

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Crédito da imagem: Por quê?/Divulgação

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