As doulas são as profissionais que acompanham as grávidas durante os processos de gestação, parto e pós-parto, dando informações técnicas sobre todo o período da gravidez, além de conforto e apoio emocional. A palavra tem origem grega (doúle) e significa “mulher que serve”.

“Ao oferecer informação, cuidado e um pré-natal completo, a profissional colabora com um parto humanizado, ajudando a reduzir as horas de trabalho de parto, o uso de anestésico e outros medicamentos, além de intervenções como a cesariana”, explica a doula Fernada Zuleika do Espirito Santo, de 36 anos. “Quando o bebê nasce, a doula pode oferecer informações para melhorar o vínculo entre a criança e a mãe, a amamentação e diminuir o risco de depressão pós-parto”, aponta.

Santo se tornou doula após contar com o auxílio dessa profissional na sua primeira gestação, via indicação médica.

“Eu entrei no trabalho de parto tranquila e sabendo o que se passaria com o meu corpo. Ela preparou o ambiente e me ajudou a entender as emoções daquele momento”.

Em sua segunda gestação, após ser pressionada pelo médico para realizar uma cesariana, Santo optou por realizar a formação de doula. Ao final, trocou o trabalho em um banco pela nova ocupação.

“São muitos os desafios para a mulher que deseja um parto natural. Ainda há uma cultura no Brasil de que a cesariana é mais segura e indolor, gerando medo do parto normal. Também falta informação, e não é função do médico detalhar tudo”, esclarece.

“A doula é de suma importância no combate à violência obstétrica”, completa a doula Lara Calvante Bezerra, 29 anos. Ela cursava Direito quando decidiu fazer o curso de doulagem, assumindo a profissão em 2015.

Já Gabriela Dantas, 30, tornou-se doula após passar por experiências traumáticas de violência e racismo obstétrico.

“É positivo ver como as mulheres que me buscam acabam relatando a importância desse acompanhamento para entender como funciona o  atendimento público, as casas de parto,  as instituições privadas e o plano de parto, documento legal sobre os cuidados que ela deseja receber no hospital”, acrescenta.

A atriz Tati Caltabiano, de 46 anos, relata uma experiência positiva ao contar com o apoio da doula em sua gestação:

“Ela me ensinou sobre a fisiologia do parto, aprendizado fundamental para um parto natural e que deveria ser ensinado nas escolas”, garante Caltabiano. “Ajudou-me a elaborar meu plano de parto, a cuidar e a estar mais conectada com meu corpo ao final da gestação. Saber que ela estava comigo no parto me deixou mais tranquila e confiante, além das massagens e palavras acolhedoras durante momentos difíceis”.

A história é simular à da psicóloga Agnes Marques, 27. “No dia do parto, a doula preparou uma sessão de aromaterapia e massagem. Houve uma pressão pela cesariana no primeiro hospital que passei, e seu apoio emocional me ajudou a continuar o trabalho de parto natural e a buscar outra instituição no momento certo. Se não fosse por ela, não estaria tão realizada hoje”, enfatiza.

Modelos conflitantes

As doulas já eram conhecidas no passado como assistentes de parteiras. Em 2013 o Ministério do Trabalho incluiu a categoria na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), ano em que o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer cursos e informações oficiais sobre seu papel no parto. Em 2013, algumas cidades passaram a contar com leis municipais para regularizar a profissão, caso de Blumenau (SC) e, posteriormente, São Paulo (SP). Muitas dessas, porém, apresentam problemas.

“Em São Paulo, a legislação diz que os hospitais devem aceitar a doula, mas apenas se tiverem espaço apropriado para isso. Essa brecha faz com que a maioria dos locais públicos vetem sua presença”, alerta Bezerra.

Atualmente, um projeto de lei (PL 3.946/2021) que regulamenta a profissão de doula aprovado no Senado aguarda análise da Câmara dos Deputados.

Pessoas acima de 18 anos de qualquer gênero podem fazer o curso de formação de doula, que inclui entendimento sobre anatomia do corpo da mulher, parto, função dos hormônios, SUS, intervenções e riscos possíveis na gestação.

Segundo o Mapeamento de Doulas (EPSJV/Fiocruz, 2022) —(https://www.epsjv.fiocruz.br/mapeamento-de-doulas) —, o perfil das doulas é majoritariamente branco, exceto no estado da Paraíba, onde ocorreram formações públicas. A pesquisa ouviu 785 participantes de quatro regiões do país. “O alto valor do custo exclui pessoas negras”, lembra Dantas.

Além disso, 72% das doulas são mães, o que motivou a escolha da profissão. As redes sociais são usadas por 78% delas para difundir informações de saúde, além de promoverem rodas e eventos de apoio às gestantes e mães.

Muitos ainda são os desafios das doulas, que opõem um modelo de parto centrado no protagonismo da mulher frente a uma tradição que privilegia a equipe médica e hierarquias rígidas.

“Há um mito de que que doula vai impedir ou atrapalhar a equipe médica, quando ela não tem voz de comando e não realiza procedimentos técnicos, como sugerir medicações e colher sinais vitais”, desmistifica Dantas.

Bezerra concorda com a colega: “A doula é mais uma ferramenta, outra profissional que compõe uma equipe multidisciplinar”, diferencia. Segundo ela, é comum a doula presenciar experiências ruins com médicos e permanecer calada. “Já presenciei cirurgiões dizendo que, se não fosse feito a episiotomia (corte do períneo), o bebê morreria. Em uma situação em que a mulher está vulnerável, ela acata qualquer coisa que o profissional disser”, lamenta.

Na Europa, as doulas também são importantes no combate à violência obstétrica. De acordo com levantamento de 2020 da Rede Europeia de Doulas , em 23 países que participaram da pesquisa, mais de 50% das doulas relataram presenciar tais crimes. A negação da autonomia corporal da mulher (como de se mover livremente, comer, beber ou ir ao banheiro) variou de 27% na Suíça a 92% na Hungria. Coerção emocional (58%) e humilhação verbal (47%) também foram presenciadas

“Porém, quando conseguimos trabalhar com uma equipe de saúde alinhada e com em um mesmo propósito, a experiência da gestante é ótima”, finaliza Bezerra.

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