“Todas as fraldas descartáveis que foram produzidas e usadas até hoje ainda continuam aqui”. Esse pensamento fez o arquiteto Eduardo Chagas, de 32 anos, e a jornalista Natasha Pinelli, de 34, optarem por usar apenas fraldas de pano com a primeira filha. A preocupação é legítima, uma vez que as fraldas descartáveis não são biodegradáveis e possuem plástico na composição. Isso faz com que elas possam demorar até cinco séculos para se decomporem em aterros sanitários.

“Os materiais utilizados são polipropileno, polietileno e poliéster (derivados do petróleo), além da polpa de celulose (vinda de árvores)”, explica a docente da pós-graduação em engenharia têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Fernanda Steffens. O produto é considerado um não-tecido, tecnologia também usada para isolamento acústico e térmico na construção civil. Em fraldas, sua estreia aconteceu em 1948. “Ela não utiliza fios, como ocorre nos tecidos e malhas, mas fibras dispostas de maneira aleatória”, diferencia Steffens.

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Já fraldas convencionais são produzidas a partir de tecido e feitas de algodão. Por esse motivo, também são denominadas “sustentáveis”. “Conforto e o fato de serem manufaturadas a partir de matéria-prima natural são vantagens”, completa.

Aterros lotados

Se, por um lado, fraldas descartáveis eliminam a necessidade de lavagem e contam com melhor absorção, por outro, deixam pegada ambiental ao lotar aterros. “Apesar de já existirem tecnologias para reciclagem da fralda descartável, peças biodegradáveis ou híbridas (feitas de pano e com absorvente de plástico), nenhuma é realidade no Brasil”, lamenta Steffens.

A alta produção e demanda agravam o problema ambiental. O site E-cycle lista até seis mil fraldas usadas por um único bebê em seus três primeiros anos de vida. Pesquisa Nielsen de 2016 apontou que 96% dos lares brasileiros com bebês utilizavam fraldas descartáveis. Dos 4% restantes, 3% intercalavam o uso do produto com fraldas de pano, enquanto 1% utilizavam apenas fraldas de algodão. Para completar, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) estimou a venda de 7,9 bilhões de fraldas descartáveis somente em 2014.“Ou seja, é preciso melhorar ou substituir o produto”, avalia Steffens.

Maior vida útil

Por serem de pano, fraldas sustentáveis têm maior vida útil. A doula Bruna Oliveira, de 28 anos, e o engenheiro agrônomo Vinícius Favato, de 26, reaproveitaram o enxoval do primeiro filho com o segundo. “Ganhei algumas, comprei outras da China. O que muda é tamanho e a pega: algumas encaixam melhor, outras necessitam dobrar”, descreve.

Para não precisarem se adaptar a muitos modelos, Chagas e a mulher optaram pelo enxoval de uma mesma marca. “Compramos um de tamanho único (para bebês a partir de 3kg) e outro para recém-nascido”, revela. “Porém, desaconselho esse último, pois usamos pouco. É possível adaptar fraldas grandes com dobras”, diz o pai.

Segundo ele, substituir as descartáveis por sustentáveis gerou economia de sete mil reais. “Depois do desfralde, é possível revender as peças em grupos do Facebook especializados no tema. Algo que fizemos com o enxoval do recém-nascido”, conta. “Vejo como benefício menos alergias, assaduras e pele irritada”, compara a professora Camila Miguel Nicoletti, de 36 anos, que também fez uso das fraldas sustentáveis.

Organização diária

Além do custo inicial alto, a fralda sustentável tem como desafio ser menos absorvente e, por isso, menos prática. “Haverá mais trocas. Para quatro fraldas descartáveis, usam-se sete de pano” calcula Oliveira, que criou uma sistemática contra o problema.“Temos 40 fraldas, metade em uso, e metade de molho para lavagem. Guardamos as peças já montadas e prontas para uso, com o absorvente de pano dentro”, diz. “Mas, para dar certo, o casal deve dividir a tarefa”.

Nicoletti adquiriu um saco impermeável. “Passo uma água na fralda e guardo lá até juntar uma boa quantidade para lavagem na máquina”. Fraldas sustentáveis devem secar ao sol, o que pode ser um empecilho em residências pequenas. “Volumosas, elas também exigem mais espaço em armários e malas”, aponta Chagas.

Para melhorar a praticidade, vale optar pelas descartáveis em viagens, passeios ou nos primeiros dias do bebê. “A maternidade é acompanhada de adaptações na rotina. Após isso, há mais tempo para focar nas fraldas”, orienta Nicoletti. Oliveira e o marido apostaram na descartável nas noites do primeiro filho. “Às vezes, a de pano vazava, molhava o colchão e a criança chorava. Dormíamos pouco e era estressante. No segundo filho, pegamos o jeito”, relata.

Ao comprar a fralda descartável, o site E-cycle indica marcas com celulose de madeira certificada e que não usem processo de branqueamento com cloro, de impacto ambiental. Já antes de aderir à fralda sustentável, Nicolletti sugere conversar com famílias que se adaptaram a ela, assim como evitar quem desconhece o assunto. “Tendem a desencorajar”. Outra dica são canais de Youtube sobre a temática. “Eu maratonei vários”, conta.

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