Produtos de limpeza prejudicam a fauna e a flora dos mares e rios. “A toxicidade está na fabricação, na aplicação em casa e no descarte no meio ambiente”, lista a docente da pós-graduação em meio ambiente e desenvolvimento regional da Uniderp, Silvia Cristina Heredia Vieira.

São os casos dos detergentes, que possuem fosfato, e do sabão de lavar roupas e água sanitária, ricos em cloro. Há ainda conservantes e aromatizantes sintéticos nas fórmulas da maioria, que estimulam algas vermelhas e reduzem o oxigênio das águas.

Ainda que o selo da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) garanta químicos em níveis controlados nas fórmulas dos produtos, seu consumo massivo pela sociedade despeja grandes quantidades deles na natureza. Além disso, eles podem interagir entre si, aumentando sua toxicidade.

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Desde 2006, pesquisas sequenciais do Instituto de Química, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelam que as estações de tratamento de esgoto não conseguem eliminar completamente substâncias químicas em geral. Retornando ao meio ambiente, eles podem se acumular na cadeia alimentar e intoxicar humanos que consomem peixes e frutos do mar – caso, por exemplo, dos derivados de cloro.

“Há ainda o descarte das próprias embalagens dos produtos de limpeza, que podem permanecer no solo e oceanos por anos”, acrescenta Vieira.

Receitas ecológicas

Produtos de limpeza convencionais podem ser substituídos por biodegradáveis ou ecológicos, que possuem selos específicos em seus rótulos. Esses, porém, são mais caros e continuam gerando lixo, devido às embalagens.

A segunda alternativa é limpar a casa com produtos naturais, como bicarbonato de sódio, vinagre de álcool e álcool 70%.

A designer Cassia Tischler fez a troca após passar uma temporada em uma comunidade indígena na Amazônia. “Lá, conheci o sabão de coco”, relembra.

Após se tornar mãe, começou a preparar seus próprios limpadores. “É desnecessário ter um diferente para cada parte da casa. O mesmo pode ser aplicado do chão ao vidro, alterando a diluição em água”, garante ela.

Ela usa sabão de coco para lavar louça, combinado com água quente caso haja peças engorduradas. “Sabão feitos com sobras de óleo de cozinha é outra opção”, sugere Vieira.

Para roupas e louças, Tischler também faz um produto líquido dissolvendo 1 barra de sabão de coco ralado em 3 litros de água fervendo. Após deligar o fogo, acrescenta 50 ml de álcool 70% e 3 colheres (sopa) de bicarbonato de sódio.

“Em roupas, pode-se adicionar 5 ml de óleo essencial de lavanda ou outro.”

Ainda para lavar tecidos, a iniciativa “Uma vida sem lixo” sugere misturar proporções iguais (1 xícara) de sabão de coco triturado, de carbonato de sódio e de bicarbonato de sódio.

Como multiuso, a terapeuta Claudia Menegatti aprendeu a fazer um desengordurante com limão em um instituto de permacultura.

“Em um pote, cubra as cascas com água, deixe por alguns dias, liquidifique e coe. Acrescente 1/5 de álcool 70% e deixe descansar por mais 24 horas”, orienta.

Existem variações que usam laranja, óleo essencial ou mesmo as cascas dos cítricos já curtidas no álcool 70%.

Este, aliás, é indicado para chão e vidros. “É volátil e não tem tensoativos e solventes de certos limpa-vidros sintéticos”, justifica a química e coordenadora da pós-graduação em meio ambiente e desenvolvimento regional da Uniderp, Rosemary Matias.

Para objetos de madeira, o site E-cycle indica misturar 1 xícara de sabão líquido biodegradável – como o de coco, diluído em banho-maria –, meia xícara de óleo de linhaça e poucas gotas de óleo essencial.

Para o limo de pias, box e vaso sanitário, aplique bicarbonato de sódio e borrife vinagre de álcool por cima. O site do Ministério do Meio Ambiente lembra também que este último retira manchas de tecidos, neutraliza odores e limpa gordura e sujeira de azulejos, fogão e panelas.

A esponja sintética, que é de difícil reciclagem, deve ser trocada pela vegetal, que é o fruto da planta Luffa cylindrica.

“É durável, decompõe-se rápido e pode ser descartada na composteira”, sugere Vieira.

Segurança no preparo

Para o aroma, Matias sugere óleos essenciais que não evaporam facilmente, como jasmim, mirra, hortelã-pimenta, alecrim, canela e erva-cidreira. Gestantes, contudo, devem evitá-los.

“Óleos essenciais ou cascas de laranja, limão, tangerina e gengibre no álcool e demais produtos podem causar queimaduras e manchas na pele em contato com a luz solar”, informa.

“O mesmo vale para óleos essenciais de raíz-forte, poejo, absinto, cedro-de-espanha, folha de parra, urtiga, balsamo de monge (benjoim) e sassafrás.”

Dicas de segurança incluem não manipular ou deixar o álcool próximo ao fogo; utilizar máscaras durante preparo e aplicação; e não misturar substâncias químicas ou naturais se desconhecer suas interações.

“Elas podem reagir e formar um terceiro composto tóxico”, alerta o professor de engenharia ambiental e sanitária da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Elson Mendonça Felici.

Uso consciente

Se desejar continuar com os produtos de limpeza convencionais, opte pelos com selo da Anvisa; em versões concentradas – que demandam menos água e embalagens grandes – e evite os de empresas clandestinas.

“Essas podem não cumprir os controles ambientais exigidos pela legislação e não serem fiscalizadas”, esclarece Felici.

Métodos físicos de limpeza ajudam a reduzir a quantidade de produto usada na faxina, como varrer, aspirar, usar vaporizador de água e pano úmido torcido no chão. Também é indicado retirar restos de comida da louça e enxaguar com água antes da aplicação do detergente.

No quesito reaproveitamento, o site do Ministério do Meio Ambiente recomenda misturar pedaços velhos de sabão de barra com vinagre, açúcar e derreter tudo em banho-maria.

“Proponha-se a experimentar medidas sustentáveis por um tempo e observe as vantagens. Hoje, não me imagino comprando um monte de produtos de limpeza e produzindo lixo”, confessa Tischler.

Crédito da imagem: ThamKC – iStock

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