Ainda que sempre presentes no movimento indígena brasileiro, as mulheres eram invisibilizadas em um passado não tão distante. “Era uma presença escassa e localizada na organização, limpeza e cozinha. Não estavam nos espaços de tomadas de decisões e no papel de interlocutoras. Não eram notadas”, acredita a coordenadora da Articulação das Mulheres Indígenas no Ceará (Amice), Juliana Alves.

“Pelo meu entendimento como pesquisadora, elas se colocavam nesse papel pela falta de referência, sendo caciques, pajés e demais lideranças majoritariamente masculinas”, acrescenta Alves, que é cacica do povo Jenipapo Kanindé. O Brasil tem aproximadamente 300 povos indígenas e a participação feminina também varia de acordo com a cultura. “Alguns deles têm tradições matriarcais, como os Pankarau”, explica a antropóloga e liderança Pankarau (PE) Elisa Urbano Ramos.

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A década de 1980 foi marcada pela fundação de duas articulações femininas pioneiras: a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, Rio Uaupés e Tiguié (Amitrut). “As mulheres sempre foram ativas nas suas aldeias como parteiras, rezadeiras, curandeiras e depois na figura das primeiras pajés e caciques”, contextualiza Ramos.

Ela destaca que a presença das mulheres se expandiu para além do universo da tradição, chegando na constituição de políticas públicas da educação, da saúde e da luta pelo território. Lembra também que as mulheres indígenas estiveram presentes na constituinte de 1988.

Aldeia e universidade

Atualmente, as mulheres indígenas se organizam em níveis nacional, estadual e também local. “Sua presença é menor no movimento indígena do que a do homem, mas é forte e significativa”, analisa Ramos. A articulação de diferentes grupos gerou duas marchas de mulheres indígenas ocorridas em Brasília (DF). “Foram importantes para o intercâmbio de informações entre povos, mas também marcadas por ameaças que fizeram as participantes ficarem isoladas nos acampamentos. Vivemos ali uma amostra da violência que atinge os povos tradicionais ao longo dos séculos”, reforça Ramos.

Para ela, a principal luta das mulheres é a mesma de todos os indígenas: a demarcação de terras e o direito ao território . “É a mãe de todas as lutas, um direito coletivo que também permeia outros, como o de saúde e educação indígena”, justifica.

“Entendemos que nós somos guardiãs da terra e das tradições. Com um pé na aldeia e outro fora dela, nas universidades, para buscar saberes que possamos devolver aos nossos povos”, descreve Alves. “Não queremos ser mais ou menos do que os homens, mas andar ombro a ombro”, acrescenta.

Feminismo indígena?

A existência ou não de um feminismo indígena é um debate entre lideranças e pesquisadoras. Quem questiona o termo lembra que, ao contrário de outros povos, os indígenas possuem demandas específicas relacionadas ao direito à terra que não são contempladas pelo feminismo “tradicional”. “Entendemos que temos a mesma luta dos parentes do gênero masculino. É uma luta conjunta, que difere de outros movimentos sociais e que nos atravessa diariamente”, explica Alves.

Opinião diferente de Ramos. “O feminismo gera polêmica e dúvida não somente no âmbito indígena, mas em todo o país. Como pesquisadora, penso que o feminismo indígena existe. Apesar de ter sido criado por mulheres brancas, os feminismos se encontram em um ponto comum: proposta de igualdade de gênero”, reflete. “Da mesma forma que outros feminismos têm demandas especificas, como o comunitário e o negro, isso também ocorre com o indígena”, completa.

O debate interno sobre o termo, porém, não significa que enfrentamentos de gênero não sejam pautados, como a violência doméstica, a invisibilização e representatividade em espaços de poder dentro e fora das aldeias. Uma crítica comum, por exemplo, é que a Lei Maria da Penha e outras legislações desconsideram as particularidades dos povos tradicionais.

“A minha aldeia tem uma tradição de participação das mulheres na política e na organização social, algo que por vezes é comemorado e elogiado por pessoas de dentro e fora do movimento indígena, mas que também é alvo de críticas e contestações em outros momentos”, relata Alves.

Para Ramos, o protagonismo de lideranças e pesquisadoras femininas indígenas traz ganhos para toda a sociedade. “Quando lutamos pela proteção da mãe terra, estamos lutando pela proteção de toda a Humanidade. A destruição da natureza não ocorre somente nas áreas indígenas demarcadas. Assim, estamos pensando em todos”, reforça.

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