A transfobia, preconceito direcionado a pessoas trans e travestis, também se manifesta por meio da linguagem.

“Sempre que usamos a linguagem para negar, ridicularizar, deslegitimar ou invisibilizar a identidade dessas populações, estamos sendo transfóbicos. Isso porque a linguagem é um instrumento de poder, e, sendo assim, pode ser instrumento de reconhecimento, acolhimento e cidadania, mas também de desumanização do outro”, resume a doutora em Linguística e Língua Portuguesa Josy Maria Alves Souza

Primeira travesti a defender doutorado em sua área, Souza explica que a mudança do vocabulário não é um policiamento da linguagem, mas questão de respeito e reconhecimento.

“Quando usamos termos considerados inadequados por quem busca ser reconhecido, reproduzimos estigmas e alimentamos formas históricas de exclusão. Isso porque a linguagem participa da construção da realidade do sujeito e de suas identidades, mas não só: produz sentido e reorganiza as relações sociais. Em contrapartida, tratar esses sujeitos do modo como eles se reconhecem é o patamar mais básico e estruturante para o respeito à dignidade humana”, destaca.

Outro bom argumento para atualizar o vocabulário é a evolução social e científica. “Se a medicina e o direito atualizam sua linguagem e terminologias com base no social, a sociedade também pode abandonar expressões lidas como preconceituosas baseadas em preconceitos do passado”, defende a pesquisadora.

A seguir, conheça nove palavras e expressões transfóbicas para retirar do vocabulário cotidiano.

“Nasceu no corpo errado”.

“A expressão dá a entender que o corpo de pessoas trans e travestis possui defeito intrínseco, erro biológico ou que exista um corpo certo e um errado”, aponta Souza.

“Traveco”

“Assim como muitas outras palavras da língua portuguesa terminadas em -eco (como “jornaleco”), ela é carregado de uma carga pejorativa, o que é desumanizante”, adverte a pesquisadora.

 “Transexual”

Recomenda-se o uso de ‘transgênero’, que foca em gênero e não em sexo. Além disso, seu oposto correspondente é cisgênero, termo usado para pessoas cuja identidade corresponde ao gênero que lhes foi atribuído ao nascer.

“É um termo ainda usado por pessoas mais velhas e em contexto médico.  No entanto, tem caído em desuso porque traz uma marcação relacionada ao sexo, como se a identidade trans fosse um distúrbio sexual, o que pode tratá-la como doença”, explica.

“Não é mulher / não é homem ‘de verdade’”.

As expressões desconsideram a forma como pessoas trans e travestis se reconhecem e vivem suas próprias identidades. “Elas invalidam o direito à autodeterminação e negam as existências e a humanidade desses sujeitos”, explica a linguista. Por sua vez, respeitar a identidade de gênero significa reconhecer que esta independa de características biológicas ou da opinião de terceiros.

“Você é operada?”

“É uma pergunta extremamente invasiva e violenta contra pessoas trans. Isso porque, de modo simples, a genitália de qualquer pessoa diz respeito tão somente a ela e, em contextos mais situados, a profissionais da medicina e aos parceiros afetivos dessas pessoas”, pontua Souza.

“Além disso, nem todas as pessoas trans ou travestis têm recursos financeiros para realizar cirurgia de afirmação de gênero ou redesignação sexual, ou mesmo sentem necessidade de realizar procedimentos de adequação corporal”, alerta a pesquisadora.

“Qual é seu nome de verdade?”

O nome de uma pessoa trans é o nome com o qual ela se identifica, reivindica e se apresenta na sociedade: simples assim. “Chamar pelo ‘nome morto’ (deadnaming), ainda que por esquecimento ou desconhecimento, é uma das maneiras mais violentas de invalidar a identidade de pessoas trans”.

“O travesti”

Souza explica que a identidade travesti é latina, mais especificamente brasileira, e estritamente feminina. “Por isso, tratar essa identidade no masculino é outra violência linguística que nega a feminilidade de pessoas que se identificam como travestis. Contra isso, use sempre a travesti, uma travesti, para se referir a elas”, afirma a docente.

“Você não parece trans”

Embora seja muitas vezes dito como elogio, esse enunciado reforça os estereótipos de que ser trans ou travesti é algo visualmente ruim e que precisa ser escondido. “Além disso, reproduz um modelo ideal de ser trans que é o de parecer cis”, aponta. “O problema é que nem mesmo pessoas cis conseguem reproduzir o modelo ‘ideal’ de parecer homem ou parecer mulher, e nenhuma identidade é mais legítima do que outra”, ensina.

“Ideologia de gênero”

Essa é uma expressão de cunho político e religioso usado por fundamentalistas para deslegitimar os estudos científicos sobre gênero no geral, também sendo utilizada para invalidar reivindicações de pessoas trans e travestis. “É importante destacar que ela não possui nenhuma fundamentação acadêmica. Contra esse uso, é preciso reconhecer que o gênero e as identidades de gênero de um sujeito não são uma ideologia ou uma escolha política, mas aspectos da identidade humana, inclusive validados pela psicologia, neurociência, antropologia e pelo direito”, finaliza a pesquisadora.

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Crédito da imagem: Vladimir Vladimirov – Getty Images

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