Os Jogadores Anônimos (J.A.) são grupos de apoio para pessoas que sofrem com jogo compulsivo (ludopatia), condição de saúde mental em que se perde o controle sobre o hábito de jogar ou apostar, mesmo quando isso traz consequências negativas para a sua vida.
Baseados no programa dos 12 Passos, como os Alcóolicos Anônimos, o grupo dos Jogadores Anônimos é estruturado em reuniões gratuitas, presenciais ou online, nas quais os participantes compartilham experiências sem julgamentos.
Segundo os participantes, a popularização de plataformas de caça-níqueis online (os chamados ”jogos do tigrinho”) e de apostas esportivas (as bets) tornou o problema da ludopatia mais visível.
“A quantidade de pessoas buscando ajuda aumentou, e o público hoje tem um perfil mais jovem”, explica o aposentado João*, 70 anos, membro do Jogadores Anônimos de São Paulo (SP) desde 1997.
“Antes, a pessoa com vício em jogos precisava sair de casa para encontrar um lugar para apostar. Hoje, o acesso está na palma da mão. Maiores exposição e facilidade fazem com que mais pessoas com a tendência a essa compulsão tenham contato com os jogos e, consequentemente, desenvolvam o vício”, explica Janaina, 57 anos, enfermeira e membro do J.A. do Rio de Janeiro (RJ).
“Só que, ao contrário do vício em álcool e drogas, que é perceptível para quem está ao redor devido à alteração do comportamento, no vício em jogos ninguém percebe”, destaca ela.
“Troquei a culpa pela reponsabilidade”
Janaina percebeu que sofria com transtorno do jogo quando, certo dia, decidiu ligar para o trabalho dizendo que iria se atrasar para visitar um bingo clandestino. “Eu não cheguei a ir ao trabalho e passei 24 horas ali. Não lembro de ter comido ou bebido. Quando liguei meu celular, havia muitas mensagens de familiares desesperados”, relembra
Após tratamento com psicólogo e psiquiatra, ela melhorou e pensou estar curada. Até que a recuperação de um câncer e a chegada da pandemia a fez descobrir os jogos eletrônicos.
“Passei a jogar e novamente não achei que era um problema, até começar a fazer empréstimos, a pegar dinheiro com amigos, a gastar todo o salário em um dia. O jogo coloca você em transe, como se saísse do mundo”.
O vício trouxe sentimentos como vergonha e culpa. “Parece que você não tem por que não se controlar. A segunda vez que procurei um psiquiatra, menti que era compulsão alimentar por pura vergonha”, relembra.
Há nove meses ela passou a frequentar as salas dos Jogadores Anônimos. “Quando você se reconhece impotente frente ao jogo, que é uma doença crônica e progressiva, e se compromete a não fazer a primeira aposta ao longo de 24 horas, tudo muda. O principal da recuperação é também ouvir que você não está sozinho”, descreve.
Durante os encontros dos J.A., é possível compartilhar os desafios da semana e também escutar pessoas que estão há mais tempo longe das apostas.
“É quando posso falar tudo o que passei. Eu achava que a culpa era um freio para o jogo e tinha medo de recair se a perdesse. Mas a gente aprende a trocar a culpa pela responsabilidade por nossas decisões”.
“Ouço coisas que, se continuasse no jogo, também teria feito”
João, 70 anos, é aposentado e frequenta as reuniões do J.A. desde 1997. Ele conta que começou a jogar aos 30 anos, em máquinas de videogame, e aos poucos se envolveu cada vez mais. “Demorei a perceber que o jogo estava tirando a minha liberdade e a minha dignidade. As mentiras começaram a ser maiores do que as verdades. Eu chegava em casa de madrugada e já não tinha mais controle.”
João também se lembra da forma como foi acolhido ao chegar ao grupo. “Quando entrei na sala, fui tratado como a pessoa mais importante da reunião”, lembra. “Tem coisas que escuto dos companheiros e penso: ‘Isso eu nunca fiz’. Mas sei que, se tivesse continuado no jogo, provavelmente também teria feito.”
Com a popularização dos jogos em plataformas digitais, João afirma que o número de pessoas em busca de ajuda aumentou. Segundo ele, o grupo dos Jogadores Anônimos do qual participa recebe até 200 solicitações de apoio por dia.
“É uma doença que ninguém escolheu ter, mas para a qual existe ajuda.”
“Doença atravessa todos os gêneros e classes sociais”
Lucas, 46 anos, conta que sempre teve problemas com jogos de azar, mas que a situação se agravou quando passou das apostas presenciais para as plataformas de apostas online. “No último ano, a minha compulsão aumentou de forma significativa. Perdi a minha casa e tive que voltar a morar com os meus pais.”
Ele decidiu procurar o J.A. após saber que um familiar havia conseguido tratar outro tipo de compulsão em uma irmandade baseada no programa dos 12 Passos. Desde então, participa de reuniões presenciais quase todos os dias.
“Quando cheguei, me senti bem por estar entre pessoas que tinham passado pelo mesmo sofrimento e estavam tentando parar de jogar. Ali você entende que é impotente diante do jogo e que, sozinho, dificilmente consegue vencerá a compulsão. A troca de experiências, ouvir quem acabou de chegar e quem já está em recuperação há mais, tempo faz toda a diferença.”
No início da recuperação, Lucas buscou participar do maior número possível de encontros. “Consegui reorganizar minha vida financeira e reparar diversos erros que cometi durante o período em que jogava.”
Para ele, o vício pode atingir diferentes pessoas. “A doença atravessa todos os gêneros e todas as classes sociais sem distinção”, analisa.
Para saber mais sobre as reuniões presenciais e online de diferentes cidades, acesse o site Jogadores Anônimos.
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes
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Crédito da imagem: Nes – Getty Images